terça-feira, 24 de maio de 2016

A ausência das mulheres no governo provisório: uma patologia da cultura política

"Uma democracia representativa exigiria outra iconografia do poder. Como fazer isso? Estou convencida que não será de imediato... Será preciso reorganizar a educação e a cultura do povo a longo e médio prazo... Será preciso estudar mais, ler mais, conversar mais, entender mais o lugar do outro, da outra diferente de mim. E, sobretudo entender a “mistura” que somos, a estranha mistura a partir da qual podemos ser escravas do poder ou cidadãs emancipadas buscando caminhos no claro-escuro da historia", escreve Ivone Gebara, filósofa, religiosa e teóloga.


Eis o artigo.

As imagens do poder político no Brasil parecem ter sofrido uma espantosa modificação em poucas horas. De um governo com cara política incluindo muitos rostos ‘misturados’ viramos para uma página de cara única. Espantosa diferença visual independentemente dos limites e fragilidades reais de cada grupo. O que aparece, o que é mostrado é revelador daquilo que de fato se quer mostrar e aquilo que se quer mostrar implica numa relação entre a imagem e a consciência da diversidade de atoras/es sociais. Quando o ‘governo provisório’ da república aparece todo em masculino, de terno e gravata, de caras brancas e solenes ele quer mostrar algo independentemente do conteúdo das palavras explicativas. Quando um Concílio ou um Sínodo mostra imagens de homens, idosos e purpurados, isto também revela o lugar de onde emana e se concentra o poder religioso/político na instituição católica. Quando na maioria dos programas evangélicos na televisão a figura dos pastores aparece como pregadores e únicos capazes de expulsar os demônios, fica igualmente claro o lugar do poder, o gênero do poder, o sexo do poder, a cor do poder, a classe do poder. A manifestação do poder se torna visual, mediática e expressa seu lugar privilegiado. Não é um mero acaso, não é uma situação de momento, não é a urgência dada à situação presente. É sim, o sentido da divisão de poderes que temos introjetado em nós, as imagens de quem de fato queremos que mande ou de quem pode mandar e ser obedecido. Revela-se assim que no interior mesmo dos “novos velhos condutores” algumas sujeitas/os políticos não foram integrados ou não foram assimilados e valorizados como tais a ponto de modificarem visualmente o poder. O ‘esquecimento’ político efetivo e visual revela a força interior que nos governa e conduz nossas escolhas, revela convicções claras e até ocultas fazendo aparecer o que nem sonharíamos mostrar.

Na era do descartável, uma presidenta foi descartada e lhe foi infligida a pena máxima da República em relação a um cargo público. Um poder provisório se estabelece. Apenas homens se mostram nas imagens da televisão como se quisessem restaurar a posse do poder político para um lado único da humanidade. É como se dissessem agora recuperamos um poder usurpado pelas mulheres. Agora recuperamos o que “por natureza” e direito é nosso. A iconografia televisiva mostrou uma nova página do poder no Brasil. Nenhuma mulher foi indicada a um ministério com visibilidade pública. Provavelmente muitos rirão dessa observação inclusive feita pela mídia por a acharem de menor importância para o crítico momento em que estamos vivendo. Falar de mulheres nessa hora e incluindo negras, índias e das mais diferentes etnias! Isso é um pormenor para depois... Mas, se estamos numa democracia republicana o assunto se torna mais sério, pois fica estampada publicamente qual a representatividade simbólica do poder. O descarte das mulheres que sem dúvida não é assim chamado pelas excelências masculinas no poder é bastante significativo da cultura vigente. Após anos de luta feminista ou simplesmente de luta pela dignidade e igualdade de direitos entre homens e mulheres, estas, representando mais da metade dos eleitores brasileiros, não estão representadas. Aliás, alguns dos ministros escolhidos reconheceram depois a falha, mas a atribuem à rapidez com que tiveram que se organizar e prometem sanar o “problema”. Mas por que surgiu o problema? E mais uma vez nessa democracia branca de machos, as mulheres e os outros diferentes deles são problema e não soluções.

Da mesma forma no quadro político apresentado não se vêem pessoas negras, representantes das comunidades indígenas e outros. Muitos dirão mais uma vez que, se não aparecem não significa que não existam. Entretanto, se existem não são representadas. Se não se fala deles e delas e se não aparecem significa, de fato, que têm menos importância visto que sua visibilidade pública não é mostrada. E, se não aparecem na “história visual” do poder ou na “linguagem pública do poder” pode-se temer o esquecimento público de seus direitos, pode-se encobrir sua existência, pode-se configurar um esquecimento proposital de suas vidas. Dá-se imediatamente uma mutação pública qualitativa na representatividade do poder político e isto mostra a inconsistência de muitos discursos de políticos sobre participação plural, igualdade e reciprocidade sociais.

Assistindo a televisão no último dia 12 de Maio, tive a impressão de ouvir em mim mesma alguns comentários vividos no passado e que sem querer irromperam em meu espírito. Certa vez, no meio de uma reunião de teólogos/as no início desse século, alguns colegas almejavam ficar apenas entre homens para de fato discutirem de teologia. Incomodados pelas questões feministas que nós mulheres levantávamos, diziam “temos que ter uma discussão séria só entre nós homens” para recolocar as questões nos eixos. Isto não deve sem dúvida nos espantar visto que a representação especialmente na Igreja Católica Romana foi e é de corte eminentemente masculino. Nas outras igrejas embora haja exceções o modelo patriarcal de poder é igualmente vigente. Nesse momento, na política nacional, embora os espaços sejam diferentes, algo semelhante está acontecendo. Assim como na tradição bíblica o próprio Adão acusa Eva das razões de desobediência a Deus ou dos desmandos da história agora também as mulheres são expulsas do “Paraíso Político” como se fossem elas as responsáveis pela degradação das relações humanas. Agora é preciso reafirmar de novo que “política é coisa séria”, “política é coisa de macho”, que macho tem que “honrar as calças que usa e mostrar punho forte e braço de ferro”. Agora é preciso voltar ao eixo... Mas qual eixo? Qualquer semelhança entre um e outro grupo não é mera coincidência! Por isso, os diversos discursos de conciliação, de construção de unidade nacional, de respeito às diferenças podem ser apenas prosa demagógica sem nenhum respaldo na experiência política vigente.

Nesse contexto temos que ir mais longe e nos lembramos que as obras do mal não são instantâneas e não dependem de uma única pessoa. Elas vão acontecendo com uma queda aqui outra acolá, um pequeno e outro grande roubo na calada da noite, sem necessidade de mão armada. Bastaram alguns programas de computador, algumas ‘clicadas’ para transferir dinheiro para paraísos fiscais, para subornar uns e outros sem que ninguém veja. Bastaram ações conjuntas de grandes e pequenos tubarões para tornar o governo de uma mulher ingovernável fechando-lhe uma janela, depois uma porta, criticando-a na mídia, ridicularizando seu desempenho quando fez frente a um ou outro comportamento escuso ou quando assumiu uma posição que lhes desagradou... E seu poder foi caindo, a situação social e econômica se deteriorando, a insatisfação aumentando e muitos se regozijando. A condenação continuou... Todos os ‘virtuosos’ políticos e cidadãos “de bem” atiram pedras como se estivessem num processo de depuração coletiva dos muitos crimes já cometidos ou como se buscassem um “bode expiatório” ao qual pudessem atribuir todos os seus males. Entre eles também se alistaram mulheres que aos gritos exaltados e descontrolados condenavam a vítima, sem dúvida, não inocente, mas não única responsável pela confusão geral. E atiraram cada vez mais pedras e ridicularizaram os que não o faziam como se o ato de fazê-lo os inocentasse diante de seus próprios olhos. E ao derrubar uma mulher quiseram derrubar quase todas as que buscaram em diferentes frentes novas alternativas para a nação. Com os políticos “puros” só ficariam suas servidoras, suas amantes, a torcida feminina dos que se vestem com pele de cordeiro e escondem sua fome de ouro e de ‘papel verde’. Só são admitidas nos átrios do poder as que se julgam superiores em relação às outras e melhores do que as outras. Inocentes úteis que não percebem que o preço de sua dignidade não pode ser comprado com a moeda de troca que os sistemas corruptos lhes oferecem!

Derrubam as mulheres de suas conquistas políticas, negam-lhes a palavra quando incorrem em qualquer falha gramatical buscando uma acusação sobre outra até que o rosto deturpado que lhe desenharam artificialmente apareça em público. Não descansam até que colem a máscara inconsistente da incompetência nos rostos femininos... E se certifiquem que a nova crença tem adeptos e adeptas... E, em seguida, seguem em frente até ouvir o grito insano da turba “dos bons” berrando “crucifiquem-na” e “libertem Barabás”... E riem delas em praça pública e ao rirem delas não percebem, insensatos, que no fundo riem deles mesmos, riem e maldizem seu próprio umbigo aquele que é o sinal irrecusável de que foram e são atados à vida pelo corpo de uma mulher. Mostram-se competentes entre si mesmos, coesos e preparados porque argumentam no vazio de suas intenções e de seus belos conceitos como se a política como dizia Espinosa no século XVII fosse uma simples quimera criada para servi-los.

Entretanto as mulheres existem na política. Não como as que, segundo alguns partidos políticos da atualidade, querem mostrar “sua sensibilidade”, convidando outras mulheres a aderirem às suas frentes conservadoras. As mulheres existem e têm políticas públicas, embora não lhes concedam espaços na mídia oficial para que suas políticas sejam discutidas e implementadas.

O último número da Revista Cult (Abril/2016) traz uma interessante reportagem sobre as mulheres curdas, participantes de uma grande revolução social. Mulheres lutando pelo estado curdo têm formação em teoria e política feminista. Muito embora revistas femininas internacionais já tenham se aproveitado das imagens das milícias de mulheres curdas elas continuam se organizando para dar uma inestimável contribuição para a constituição de um estado curdo elas estão lutando por si mesmas e por seu povo. Aqui entre nós, os “religiosos doutos” e “os políticos de carreira” ainda estão discutindo “ideologia de gênero” e não ousam pronunciar a palavra “feminismo” para não macular sua mente com afirmações contra Deus e a natureza!

Exemplos em todas as partes do mundo e no Brasil revelam o quanto a boa formação das mulheres fez e faz diferença nas muitas frentes de sustentação da cultura e política nacionais. Mas, sua formação política, sua perspicácia, sua novidade criativa amedronta... E para que sua contribuição seja apagada dos espaços públicos as igrejas repetem o refrão do lugar que Deus e a natureza designaram às mulheres. Muitos políticos se inspiram dessa tradição e tentam ainda hoje despossuir as mulheres dos lugares conquistados ou desvalorizar sua competência nos espinhosos caminhos da política.

Uma vez mais a “iconografia do poder” nos mostra algo seletivo e espantoso. Um mundo de homens brancos dominando ainda os espaços de poder no país. Fazendo promessas e nutrindo vãs esperanças demonstram um esquecimento de conquistas históricas nacionais e internacionais...

Uma democracia representativa exigiria outra iconografia do poder. Como fazer isso? Estou convencida que não será de imediato... Será preciso reorganizar a educação e a cultura do povo a longo e médio prazo... Será preciso estudar mais, ler mais, conversar mais, entender mais o lugar do outro, da outra diferente de mim. E, sobretudo entender a “mistura” que somos, a estranha mistura a partir da qual podemos ser escravas do poder ou cidadãs emancipadas buscando caminhos no claro-escuro da historia. Em meio das ambigüidades que vivem em nós, no reconhecimento de nossa fragilidade e da necessidade de sermos uns para os outros, centelhas de luz, caminho, compreensão vamos continuar a luta recomeçando a nos alfabetizar de novo sobre a condição humana. Ninguém pode estar fora do processo. Todos nós somos alfabetizados e alfabetizandos em relação a esse novo momento e novo desafio.

Na realidade não podemos desfazer o acontecido, nem esquecer o que perdemos e o que ganhamos. Mas podemos sim transfigurar os acontecimentos para que de fato se transformem no presente e no futuro numa força que nutra a inclusão social, a mistura da vida e a bela mestiçagem do povo numa real representatividade na construção cotidiana da nação brasileira.

Fonte: Ihu

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