sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Entrevista com a Superiora Geral da Congregação das Irmãs Oblatas

Pelo trabalho que realizamos, em ambientes de prostituição, estamos sempre nas periferias. Talvez seja justamente necessário que sair dessa ocultação, desmontando os estereótipos e sensacionalismos, para dar o passo para reconhecer «a pessoa» para além da atividade que exerce e fomentar um debate corajoso, no âmbito social e político”.

 Desde a Pastoral da Mulher - Unidade Oblata de Bh queremos difundir esta interessante entrevista com Lourdes Perramon, Superiora Geral das Irmãs Oblatas do Santíssimo Redentor, publicada recentemente na revista "Catalunya Cristiana".

Durante muitos anos, Lourdes Perramon (Manresa, 1967) foi a diretora, em Barcelona, do Lloc de la Dona, um centro pioneiro situado no Raval, que acolhe e atende mulheres que exercem a prostituição. Era a alma de um projeto que deixará de dirigir pessoalmente, porque foi escolhida como superiora geral das Oblatas do Santíssimo Redentor. A Irmã Lourdes sentirá muito a falta da missão, à qual dedicou tantos esforços e entusiasmo. Uma missão que, segundo afirma, preencheu-a e fê-la feliz. Agora, a congregação religiosa a que pertence pede-lhe para iniciar uma nova etapa de desafios. A jovem religiosa de Manresa enfrenta-a convencida de que toda a vida consagrada deve estar «ao serviço de uma missão e o desejo é que esta nos configure, incluindo também os cargos institucionais de animação e de governo». A nova superiora geral, junto com o novo conselho geral, dinamizarão a congregação nos próximos seis anos com o objetivo de se manterem fiéis ao carisma fundacional.


Como recebeu a nomeação como superiora geral das Oblatas do Santíssimo Redentor? Estava à espera?
Parece-me que algo assim, especialmente quando é a primeira vez, não se espera mas, simplesmente, acontece! Mas o sentido de pertença e, sobretudo, de co-responsabilidade e de coerência pessoal, levaram-me a aceitar, estando muito consciente que, perante a proposta das irmãs, era necessário confiar e disponibilizar-me. Mas não é um trabalho individual. Felizmente, trata-se de um trabalho em equipa e creio que juntas tentaremos trazer entusiasmo, compromisso, esperança num momento de mudanças, no âmbito congregacional, e de desafios, em geral, para a vida religiosa e para a Igreja.

Falando de desafios, que linhas impulsionarão a vida da Congregação nos próximos anos?
Como muitas outras congregações, estamos imersas num processo de unificação de províncias, procurando estruturas mais ágeis, que favoreçam tanto a qualidade de vida evangélica, como as respostas às necessidades sociais atuais. A reestruturação jurídica já é um facto, mas o desafio para os próximos seis anos é acompanhar o conjunto da Congregação, para assumir e consolidar esse processo, buscando ao mesmo tempo novas fórmulas que explicitem a liderança partilhada, as respostas corajosas e atualizadas na missão compartilhada e um sentido profundo de vida a partir de Deus e o compromisso para construir o Reino. Confiamos que isto levará a revitalizar a dimensão vocacional, recrear a identidade e aproximar o carisma e a vida religiosa à sociedade e, especialmente, aos jovens.

As intuições fundacionais continuam vigentes?
Acreditamos que continuam totalmente vigentes. No próximo dia 1 de Junho celebraremos os 150 anos do início deste projeto, quando Antónia de Oviedo Schöntal e José Maria Benito Serra Julià, os nossos fundadores, abriram as portas da primeira casa para acolher mulheres que procuravam uma oportunidade para refazer a sua vida, depois de terem sofrido a rejeição social pela sua vinculação à prostituição. Atualmente, a situação não mudou demasiado; tornou-se mais complexa com o surgimento do tráfico de pessoas com fins de exploração sexual, os movimentos migratórios e um certo conceito nas cidades, onde se quer esconder aquilo de que não se gosta. É por isso que afirmamos que as intuições fundacionais continuam plenamente em vigor; o que muda são as respostas que vão dirigidas à melhoria da qualidade de vida das mulheres, ao exercício dos seus direitos como cidadãs e à insistência face a uma transformação social.
Foi nomeada superiora geral das Oblatas num momento em que a Igreja é convidada a sair para as periferias… É uma chamada que também assumem?
Creio que não é demasiado atrevido dizer que, pelo trabalho que realizamos, em ambientes de prostituição, estamos sempre nas periferias. Talvez seja justamente necessário que sair dessa ocultação, desmontando os estereótipos e sensacionalismos, para dar o passo para reconhecer «a pessoa» para além da atividade que exerce e fomentar um debate corajoso, no âmbito social e político. Mas, é claro que para fazê-lo de maneira coerente, responsável e com credibilidade, temos de manter a cumplicidade com as mulheres que vivem esta realidade no dia-a-dia e continuar acompanhando as suas vidas ali, onde os seus recursos mais escasseiam e os seus direitos são prejudicados.
Falando de periferias, a Irmã Lourdes Perramon era alma do Lloc de la Dona em Barcelona. Sentirá falta do seu trabalho e dedicação a este projeto?
Sim e muito! Foram 20 anos muito enriquecedores e custa sempre deixar aquilo que te preencheu e fez feliz. Mas, ao mesmo tempo, sei que a aprendizagem será muito válida no meu serviço atual e, embora não possa estar no dia-a-dia dos projectos sociais, continuarão a ser o meu «motor» e referência. A nossa vida religiosa não pode perder nunca de vista que está ao serviço de uma missão e o desejo é que esta nos configure, também no que implica os cargos institucionais de animação e de governo.
Qual é o estado atual da Congregação?
A Congregação está presente em 15 países, com uma diversidade de respostas, de acordo com a realidade e culturas diferentes. Creio que é um momento de renovação, a partir das diretrizes do próprio Capítulo Geral, mas também pelo momento social e eclesial e, sem fazer segredo, parece-me que, na medida em que façamos este processo e se mostre, de maneira simples e compreensível, a dimensão mais humana e, ao mesmo tempo, transcendente da própria vida religiosa, pode interpelar e suscitar um certo interesse nas pessoas mais jovens que procuram formas concretas de viver o seguimento a Jesus, partilhando-o em comunidade e junto aos que mais o necessitam.
Como mulher e como jovem com uma certa autoridade na Igreja… sente-se indo contra a corrente? Qual deve ser, hoje, o papel da vida religiosa feminina na Igreja e no mundo?
Felizmente, na nossa sociedade plural têm lugar muitas e diferentes «correntes» e não creio que a vida religiosa vá contra. Parece-me que se trata de caminhar unidos e somar, com tantos grupos dentro e fora da Igreja, que desejamos uma Igreja mais evangélica e uma sociedade mais justa. Talvez o que falta seja estabelecer alianças e dar a conhecer os pequenos espaços de esperança que tentamos construir, para que saindo do anonimato, motivem outras pessoas e se tornem mais sólidos e abrangentes.


Fonte: www.irmasoblatasdoredentor.pt

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