quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Mas eu não sou machista!

A reação dos homens quando uma mina aponta machismo em alguma coisa que fizeram/disseram é quase sempre a mesma. EUUU? EU NÃO SOU MACHISTA!

Por Clara Do Lugar de Mulher


Pois bem, tenho uma novidade: não é porque você deixou de ser machista em algum momento que está imune pra sempre. O machismo é a norma, é o filtro com que a sociedade (ai, a sociedade) percebe nossos comportamentos. Por isso é “normal” um cara pegar todas, mas uma mulher que é dona de sua vida sexual vira vagabunda, ou, nas palavras daqueles que “não são machistas, mas”, estão emulando o pior do homem, como se nossas vontades estivessem atreladas ao que eles são. Isso é machismo também, viu? E ter atitudes e pensamentos machistas não significa que você é uma pessoa horrível que merece apanhar na rua, mas que você está reproduzindo o que nossa sociedade tem como norma e que está na hora de prestar atenção nisso pra não repetir. É um longo processo de desconstrução. Vai ser chato. Mas tem que acontecer.
Eu sou branca. Vivo prestando muita atenção pra não ter nenhum comportamento racista contra pessoa alguma. Mas tenho a consciência de que já tive. Porque racismo também é a norma e, diferente de quando se trata de machismo, o sistema me beneficia e estou em uma posição privilegiada. Ou seja: eu não sofro racismo. Não, gente, não existe racismo contra brancos, não existe racismo reverso, parem de se constranger com essa ideia.
Morro de vergonha? Morro de vergonha. Quero desaparecer quando penso que, há tempos, tirei onda do cabelo de uma mulher porque estava com raiva dela. Eu podia ter falado QUALQUER outra coisa, mas fui falar do cabelo crespo. Fui o que? Isso mesmo, racista. E é pensando nisso que eu consigo me policiar pra NUNCA MAIS reproduzir esse horror.
Seria fantástico se os homens que querem apoiar o feminismo, em vez de ficarem negando o machismo, nos escutassem, revissem e morressem de vergonha de seus comportamentos para, quem sabe, conseguirem começar a mudar alguma coisa. A primeira coisa a fazer pra resolver um problema é admitir que ele existe. Sei que é difícil, pois isso envolve abrir mão do bom e velho privilégio, mas boto fé que não seja impossível. Já vi muito homem ecoando discurso feminista dizendo “mas isso não é feminismo, isso é bom senso” ou coisa parecida. É feminismo sim, lindo, e se você não só concorda como defende já é um passinho a mais na caminhada da sua desconstrução.
E antes que alguém chegue falando “afff estão falando de macho de novo”: eu acho sim importante falar com os homens. Acho que mulher alguma é obrigada nem a conviver, nem a conversar, nem a aceitar, nem a explicar nada, mas eu, particularmente, não vejo como uma sociedade pode mudar sem incluir os homens no processo de mudança. Se o cara aprende, muda e para de infernizar a vida da irmã, da namorada, da vizinha, são as mulheres que vão se beneficiar disso. Nós.
Digamos que fosse possível empoderar todas as mulheres. Todas. Faríamos o que com os homens, caso eles não fizessem parte do processo de mudança? Isolamento? Prisão? Morte?
Tem muitos homens que eu admiro e não por seus posicionamentos em relação ao feminismo, e fico bem feliz quando vejo que estão abertos a escutar. Não quero ter que isolar os caras. Não quero ter que parar de falar com eles, parar de ler seus livros, escutar suas músicas, ignorar sua arte. Não quero. Quero que eles escutem e percebam que dizer “EU?! EU NÃO SOU MACHISTA” não ajuda em processo de mudança e não engana ninguém.
É claro que um cara que, ao ser confrontado, em vez de pensar “existem mulheres que discordam de mim, vou escutar” sai correndo em círculos de cuecas dizendo “feminazis histéricas não entenderam nada!!!” não está querendo conversar, e com esses eu não quero diálogo mesmo. Não existe diálogo mediante ofensa, né? Pra haver diálogo tem que todo mundo estar aberto a ouvir e, neste caso, admitir cagadas.
Estou sonhando alto? Talvez. Mas quero pensar que o que fazemos realmente surte algum efeito e que as próximas gerações não sofram tanto com isso quanto nós.


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