sábado, 19 de março de 2016

Feministas de Cristo

Thayô Amaral cresceu em família evangélica e hoje é militante
do chamado feminismo cristão
Evangélicas se unem para combater o preconceito que sofrem tanto das defensoras dos direitos das mulheres quanto de grupos religiosos.

  Itegrante de uma família evangélica, a estudante de publicidade Thayô Amaral, 21 anos, freqüentou os cultos com seus pais desde criança, tendo chegado a líder do grupo cristão infantil de sua igreja. Mas, à medida que crescia, a jovem começou a se incomodar com o peso do patriarcalismo nos discursos, julgamentos e hierarquia das denominações cristãs. Eram comentários e posturas que não se ajustavam à sua visão de mundo. “Notava muito machismo e intolerância e passei a questionar”, diz. Atenta e preocupada com questões feministas, Thayô decidiu abraçar a causa das mulheres. Mas notava que, nesse ambiente, muitas militantes se mostravam agressivas em relação aos cristãos. O caminho para unir esses dois mundos se fez pelas redes sociais. Com uma amiga, criou um grupo no Facebook chamado “Feministas Cristãs”, hoje com pouco mais de mil membros. Ainda que o movimento tenha começado pela internet, a realidade mostra que o universo virtual é o palco para dar voz a grupos, como o criado por Thayô, que estão cada vez mais presentes dentro de segmentos evangélicos, na tentativa de encontrar um espaço de luta pelos direitos das mulheres sem a necessidade de abdicar da fé cristã. Mas, conforme ganham mais visibilidade, essas comunidades passam também a sofrer com as críticas vindas dos dois lados. 


Sede da ONG Católicas pelo Direito de Decidir:
direito das mulheres dentro da Igreja

Mayara Oliveira, 19 anos, evangélica e também militante pelo feminismo, acredita que no meio virtual é ainda mais difícil lidar com radicais e conservadores que procuram as feministas cristãs para ofendê-las. “O feminismo estranha, mas acolhe. O ambiente cristão conservador é cheio de ódio, com versículos avulsos e o famoso ‘você vai para o inferno”, afirma. “Já na igreja as pessoas engolem. Às vezes se zangavam com alguns posicionamentos meus e discutiam, principalmente os mais velhos e tradicionais, mas nunca me abalei com isso e segui repassando tudo o que acreditava.” As discussões entre as feministas evangélicas vão desde questões pessoais relacionadas a algum tipo de assédio à representação da mulher nos textos sagrados. “Cristãs feministas são submissas? Como vocês analisam esta palavrinha dentro da Bíblia e na vivência hoje? A Bíblia deve ser um protocolo a seguir? Contextualizamos ou não as escrituras?”, questiona uma integrante de uma comunidade on-line, seguida por uma centena de comentários em resposta. Alguns, inclusive, citando livros bíblicos. A analista contábil Isadora Veloso, 25 anos, é novata no feminismo, mas também já nota que há vozes contrárias à presença de religiosas no movimento. “Eu entendo em grande parte a rejeição que sofremos, mas não fico magoada. Como sou evangélica, já estou um pouco acostumada com as pessoas discordando de mim”, diz. A jovem afirma que sua fé não mudou depois que entrou para a militância. “A única diferença é que me engajei em uma causa que importa. Comecei a perceber que não posso aceitar que homens mexam comigo na rua nem me julguem por causa da roupa que uso.”


Precursora do feminismo cristão no Brasil, Maria José Rosado Nunes, da ONG Católicas pelo Direito de Decidir, acredita que não há contradição em lutar pelos direitos das mulheres e ter uma religião. A organização, que existe desde 1993 no Brasil, defende a autonomia feminina e a opção pelo aborto. “No caso do catolicismo, são apenas homens que dirigem a doutrina, então todas as definições e interpretações são feitas por eles. Mas quando as mulheres dizem que também têm direito de interpretar a própria fé, elas encontram elementos que permitem defender suas posições”, afirma. Ao que parece, as reações virulentas que as feministas cristãs encontram parecem vir de pessoas que não compreendem a dimensão histórica e social do cristianismo e do feminismo. “Entendo como fundamental a existência de grupos de feministas nas igrejas para agir como um campo de resistência à leitura conservadora cristã”, afirma Jacira Melo, diretora executiva do Instituto Patrícia Galvão, organização pelos direitos das mulheres. Para a teóloga e biblista Zenilda Luzia Petry, há movimentos reacionários e moralistas que acentuam a interpretação da Bíblia, mas a leitura precisa ser feita com olhos atentos à realidade e conectados ao modelo de sociedade que vivemos. “Além disso, a verdadeira religião pratica a honestidade intelectual e vê claramente que Jesus traz uma proposta de um mundo de irmãos.” Ou seja, a de que homens e mulheres estão em pé de igualdade.

Fonte: Istoé

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