terça-feira, 22 de outubro de 2013

Gabriela leite: Filha, mãe, avó e puta

Nascida em 1951, em São Paulo, numa família de classe média, Gabriela Leite tornou-se a principal ativista dos direitos das prostitutas no Brasil.


 Por René Zamlutti Jr.

     Gabriela foi embora em 10 de outubro de 2013  e nos deixou, como herança, uma trajetória capaz de horrorizar os moralistas e de nos fazer repensar concepções tradicionais sobre o que uma mulher pode e deve fazer com seu próprio corpo e com sua liberdade.
     Filha de família tradicional e de pais moralistas, aos 22 anos, enquanto estudava sociologia e filosofia na USP (foi a segunda colocada no vestibular), Gabriela Leite decidiu virar prostituta.  Abandonou a faculdade em 1973 e trabalhou na Boca do Lixo, em São Paulo, na Zona Bohemia de Belo Horizonte e na Vila Mimosa, no Rio de Janeiro. Em 1979, Gabriela participou da primeira Revolta das Prostitutas, e conseguiu afastar um delegado que torturava e matava profissionais do sexo. No final dos anos 80, publicou o primeiro manual de prevenção às DST's voltado para as prostitutas. Posteriormente, fundou a ONG Davida, que defende os direitos das prostitutas, e em 2005 fundou a grife Daspu (uma provocação à grife "chic" Daslu).
     Gabriela lançou, em 2009, um livro fantástico: "Filha, mãe, avó e puta", em que conta sua história, da qual destaco o seguinte trecho:
     "Adoro os homens. Gosto de estar com eles, e não conheço homem feio. Todos são bonitos: cada um com seu cheiro característico, seu andar, seu modo de olhar. Alimentam um amor imenso pela mãe e pelo próprio corpo. Magros ou gordos, todos têm um belo corpo, mesmo quando são barrigudinhos. Às vezes me pergunto como eles fazem para andar: será que o pau no meio das pernas não atrapalha? Essa pergunta eu (ainda) não tive coragem de fazer.
     Outra coisa que adoro é falar o que penso. Sem papas na língua. Quem ler este livro vai perceber isso. Aprendi uma porção de coisas nessa temporada na Terra. Uma delas é a importância de se ter uma opinião, de reclamar quando não se está gostando de algo. Demorei muito para adquirir esse direito e, por isso mesmo, não abro mão dele. Passei um pedaço da minha vida lutando por ele. Estou gastando um outro bom naco tentando convencer minhas colegas prostitutas de que esse direito também é delas.
     Existe uma terceira coisa que eu prezo muito. Talvez seja a que mais prezo, aliás. É a liberdade. Liberdade de pensar diferente, de vestir diferente, de se comportar diferente... Não sei direito de onde veio essa minha paixão pela liberdade (minha vida é feita de muitas certezas, mas também de infinitas dúvidas e contradições), mas ela veio para ficar.
     Meu destino até aqui foi norteado por esses três amores. E, como todos nós sabemos, o amor não traz só felicidade. Ele gera muita dor também, em nós mesmos e em quem está perto. sei que, por causa dessa minha obsessão por romper amarras (sejam elas políticas, culturais, morais ou pedagógicas), feri algumas pessoas queridas. Mas acredito que também ajudei um sem-número de prostitutas a ter uma vida mais digna. Fui, sou e vou continuar sendo responsável pelos meus atos. O que pensar sobre eles é resultado do conceito de vida de cada um. Enquanto eu puder continuar exercendo minha liberdade, não tenho com o que me preocupar."
     Gabriela fez do próprio ato da prostituição um exercício de liberdade - tanto física quanto intelectual. E rejeitou o processo de vitimização que setores "bem-intencionados" da sociedade impingem às prostitutas. Vale lembrar as palavras de Gabriela no programa Roda Viva em 01.06.2009 (apenas para lembrar, em 02 de junho se comemora o Dia Internacional da Prostituta, como recordação do fato ocorrido em 02 de junho de 1975, em Lyon, quando mais de 100 prostitutas ocuparam a Igreja de Saint-Nizier para protestar por seus direitos):
     "Eu acho que a princípio é muito boba essa história de querer salvar pessoas, né? É de uma pretensão imensa. E salvar o quê? As pessoas fazem suas opções, às vezes as opções são menores, às vezes são um pouquinho maiores, mas as pessoas fazem. E elas vão para os seus lugares porque elas estão optando por isso. E se ela quiser sair, eu acho que ela, como mulher, sai por si mesma. Ela começa a pensar: 'não quero, não me dou bem nessa história, vou fazer outra coisa'. Como todas as pessoas. Então isso sempre  me incomodou porque nunca quis que ninguém me salvasse, eu sempre tomei as minhas decisões. E quando o pessoal da igreja dizia: 'não, você precisa ter uma outra vida, se encontrar com Deus', eu dizia: 'Não, eu quero ter minha vida do jeito que é'. Por isso que eu acho que não é por aí que a gente deve ver a questão da prostituição. A questão da prostituição deve estar inserida dentro das questões da sexualidade, das políticas da sexualidade, dos direitos sexuais, porque as feministas sempre disseram que estavam trabalhando os direitos sexuais e reprodutivos. Se você ler todos os relatórios das várias conferências internacionais, no Cairo, em Pequim, essa coisa toda, lá só tem os direitos reprodutivos. Os direitos sexuais estão ali juntos, para irem juntos na caixinha. Ninguém nunca mexeu com os direitos sexuais. E a  prostituição, na minha opinião, é um direito sexual. E, de mais a mais, as pessoas se esquecem de que as prostitutas estão lá no seu trabalho trabalhando porque tem alguém que vai lá procurar elas. Então existe essa demanda, existe na sociedade. E para mim a  grande história é sair debaixo do tapete, se mostrar e dizer: 'Olha, eu sou uma delas e estou aqui, sou uma mulher inteirona, como qualquer outra mulher" (trechos da entrevista podem ser vistos aqui; a entrevista completa está transcrita aqui).
     Gabriela afirma, contundente e certeira, a certa altura do livro:
     "É uma babaquice dizer que só puta vende o corpo! E vender sua cabeça, quanto custa? O operário vender seu braço, quanto custa? Todo mundo vende sua força de trabalho, que está com seu corpo. Existe uma tendência de alguns estudiosos de se declararem a favor das prostitutas e contra a prostituição. Um contra-senso geral e total."

     A grife Daslu, da empresária Eliana Tranchesi, a maior expoente do mercado de luxo num país desigual como o Brasil, quis processar a Daspu. O processo não seguiu adiante. Eliana Tranchesi, investigada pela Polícia Federal por sonegação fiscal, tinha o hábito de ir à missa todos os domingos e mantinha uma capela no interior da Daslu. Morreu de câncer, como Gabriela Leite. O legado que cada uma dessas mulheres deixou para o Brasil é evidente, dispensa maiores comentários e fica sujeito à avaliação de cada um.
     Atualmente, tramita na Câmara dos Deputados um projeto de lei apresentado pelo deputado Jean Willis, chamado "projeto Gabriela Leite", que visa regulamentar a prostituição no país.
     A coragem e a coerência de Gabriela Leite, numa sociedade hipócrita e moralista como a brasileira, farão falta. Permanecem não apenas seu exemplo e as medidas adotadas para regularizar a profissão (a mais antiga do mundo, segundo dizem) e combater a AIDS, como também as reflexões suscitadas por suas escolhas.
     Gabriela parte, mas sua obra, suas escolhas e, acima de tudo, sua luta sobrevivem.
     Filha, mãe, avó, socióloga e puta - e exemplo de ser humano.

Fonte: www.cartaforense.com.br

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