terça-feira, 21 de junho de 2016

Alunas relatam machismo e assédio de professores na USP

Alunas denunciam assédio na Faculdade de Economia da USP em Ribeirão Preto, SP (Foto: Reprodução/Facebook)

Página na internet tem depoimentos sobre atitudes consideradas machistas.  Ação é tentativa para mudar comportamento preconceituoso, diz professora.



"Quando o patrão casa com a empregada o PIB diminui". A piada que soa como ofensa nos ouvidos mais sensíveis ao machismo foi contada pela primeira vez para a economista Roseli da Silva quando ela ainda cursava a graduação, nos anos 1990. Mas ainda hoje a "gracinha" é ouvida por alunos e alunas da professora de finanças da Universidade de São Paulo (USP).

"É uma piadinha básica de contas nacionais, quando a gente vai aprender a medir o PIB e a gente entende que a empregada é paga, então passa pelo mercado formal, mas quando ela casa com o patrão passa a fazer tudo aquilo que fazia antes, só que fora do mercado", comenta Roseli. "Ouvi logo no primeiro semestre e sei que continua sendo reproduzida".

O comentário é uma das atitudes consideradas machistas dentro das salas de aula e que começaram a ser questionados por alunas da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP em Ribeirão Preto (SP). Entre os relatos, há denúncias de assédio envolvendo alguns professores da instituição.
Há um mês no ar, a página "Juntas Resistimos na FEA-RP" acumula 1,3 mil seguidores e espalha pelas redes sociais a hashtag "meu professor feano", com denúncias anônimas contra os docentes.

Ao G1, a direção da faculdade informou que não recebeu nenhuma denúncia formal de assédio ou reclamação de machismo, mas afirmou que apoia iniciativas que suscitem o debate e a conscientização.
Karina, Roseli e Amanda, da Faculdade de Economia e Administração da USP (Foto: Felipe Turioni/G1)


Denúncias

"Meu professor Feano marcou uma reunião comigo na sala dele para falarmos sobre meu trabalho. Lá, aproximou bastante sua cadeira da minha para que ambos pudéssemos ler o texto sobre a mesa. Dada essa proximidade, ele decidiu apoiar a mão na parte interna da minha coxa, bem acima do joelho", diz um dos relatos postado na página.
"São alunas dizendo que não podem ir à sala do orientador, que têm que inventar desculpas para pai, mãe, para não serem assediadas, isso é muito triste. Como essa aluna vai passar dois anos sendo orientada por um professor de quem tem medo?", questiona a estudante Amanda Goinski, uma das 12 alunas que criaram a página no Facebook.

Postagens em rede social denunciam assédio e machismo de professores na USP de Ribeirão Preto, SP (Foto: Reprodução/Facebook)

Os relatos são deixados por alunas que se sentiram ofendidas por professores e que se consideram vítimas de machismo e assédio. Em uma das postagens, uma estudante afirma que foi intimidada para que terminasse com mais rapidez uma prova.
Segundo a aluna, a pressão que ela sofreu não foi feita a outros dois alunos homens que também continuavam na sala. "O docente continuou seus insultos frisando quão fracas eram as mulheres", escreveu a estudante, que não se identificou.
"Eles [professores] acabam falando coisas machistas, homofóbicas, têm comportamentos até racistas em relação aos alunos ou até mesmo discriminação por questões físicas, humilhações", diz a estudante de economia empresarial Karina Miwa Konno.

Postagens em rede social denunciam assédio e machismo de professores na USP de Ribeirão Preto, SP (Foto: Reprodução/Facebook)

Igualdade de gênero

Além de denunciar o machismo e casos de assédio envolvendo os professores, as alunas querem também levantar discussões sobre representatividade e questões de gênero. "Na USP esse assunto foi árido por muitos anos e nos precisávamos falar sobre isso", afirma Karina.
"A questão de igualdade de gênero não é só uma questão feminina, é uma questão na qual os homens têm que participar, porque é uma questão de representação, tem a ver com dificuldade histórica, de falta de legitimidade. A gente não está falando de movimentos feministas, a gente fala de direitos iguais", completa.
Para a professora Roseli, as discussões abertas com a exposição nas redes sociais servem para iniciar uma mudança de comportamento. "Temos uma estrutura social que atribui papéis a homens e mulheres que já dividem encargos familiares de forma completamente desigual, então vejo isso como um problema que está muitos passos antes", diz.
Alunas falam de assédio na Faculdade de Economia da USP em Ribeirão (Foto: Reprodução/Facebook)

Segundo as organizadoras da página, a função do canal aberto no Facebook é, além de levantar a discussão, tentar mudar algumas atitudes. "Depois da página fui abordada por alguns professores dizendo que falou sobre o que estava acontecendo com a mulher, a filha, que começou a prestar atenção nisso", explica Amanda.
As denúncias são deixadas pelas estudantes em formulários na página e a intenção é que elas também recebam apoio jurídico, quando solicitado. "Queremos dar suporte às mulheres que queiram levar isso para esfera criminal, porque têm alguns casos que são necessários ser levados para fora, para um questão civil".
Além disso, a página pretende ampliar a discussão com a própria universidade, que mantém canais para denúncias, mas é considerada "omissa" pelas estudantes. "A USP sempre foi bastante omissa em relação à condução de sindicâncias e processos associados à violência de gênero e o grande problema é como eles são conduzidos, muitos ficam pelo caminho", avalia Roseli.

FEA reúne alunos dos cursos de economia, administração e contabilidade da USP Ribeirão (Foto: Marcos Santos / Divulgação USP)

USP

A Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP Ribeirão informou ao G1 que não recebeu nenhuma denúncia formal de assédio, mas afirmou que iniciativas como esta são bem-vindas.
"A Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) apoia todas as iniciativas que suscitem o debate e a conscientização e acredita que a mulher deve ser respeitada em sua integralidade", diz a nota.
Segundo a faculdade, denúncias podem ser feitas a um escritório especializado no assunto dentro da universidade. "Além da Diretoria da FEA-RP, as alunas podem contar também com o apoio do Escritório USP Mulheres, criado para implantar programas que balizem valores igualitários."
Questionada sobre as críticas em relação à omissão, a assessoria de imprensa da reitoria da Universidade de São Paulo informou que é "necessário que as vítimas conheçam e confiem nos meios institucionais da universidade, postos à sua disposição para o acolhimento, orientação jurídica e encaminhamento para a área médica".
Ainda em nota, a USP informou que para que sejam tomadas as medidas internas cabíveis (sindicância e processo disciplinar), a vítima ou representante deve formalizar a ocorrência.


Fonte: G1 Globo

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