segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Direito a decidir: algumas reflexões filosóficas e teológicas


Por Ivone Gebara

Introduzindo a questão
Quando se fala em direito a decidir parece que cometemos de antemão uma espécie de afirmação inapropriada e problemática. A decisão é uma atividade própria do ser humano e, estamos boa parte de nosso tempo decidindo. É claro que as decisões cotidianas e eu diria mesmo as contínuas pequenas decisões que fazemos, nem sempre são chamadas de decisão. Automatizamos tantas coisas e nem achamos que de certa forma estamos decidindo. Entretanto, é bom deixarmos claro que elas também fazem parte daquilo que chamamos as decisões próprias da vida humana, mesmo que não tomamos tempo para pensar sobre elas por considerá-las talvez irrelevantes.

A decisão se torna um problema quando falamos de DIREITO a decidir. É como se alguém ou um grupo ou uma força superior nos impedisse de exercer algo que é próprio do ser humano. Por exemplo, falar de direito de beber água ou direito de comer ou direito à locomoção significa que alguém está usurpando ou roubando não um objeto de alguém, mas uma ação vital sem a qual morreríamos. Então quando as coisas essenciais tornam-se exigência de um direito, quando precisam ser legalizadas para serem respeitadas é porque há algo que está em total desequilíbrio nas relações humanas.

Por isso é preciso analisar a questão do direito de decidir e tentar delimitar alguns aspectos desse direito antes mesmo de pensar especificamente nos seus diversos objetos. Podemos dizer que as questões importantes a esse respeito são: O que é mesmo decidir? Sobre o que estamos querendo decidir? Quem nos impede de fazê-lo? E por quê?

A reflexão que proponho a vocês não é em primeiro lugar teológica, isto é, não supõe a necessidade de uma autoridade divina que justifique nossa decisão ou nosso direito a decidir. A questão que desenvolvo num primeiro momento tem a ver com uma compreensão filosófica mínima de nossa realidade humana hoje. Digo hoje porque a compreensão que os seres humanos têm de si mesmos não só foi diversa e variada no passado, mas continua sendo no presente. A compreensão que temos de nós mesmas é histórica, cultural, contextual e pessoal. Isto significa que ela é inevitavelmente mutável.

Que dizer da teologia?

A teologia é sempre um ato segundo em relação ao imediato de nossa existência. Ela é uma espécie de bordado que tecemos sobre a tela de nossa vida e às vezes confundimos a tela com o bordado. Às vezes o bordado é tão fechado que nos impede até de ver a tela e perceber que é ela que sustenta o bordado. Outras vezes pensamos até que a tela não existe, mas apenas o bordado que se sustenta à medida que vai sendo tecido. Mesmo que provisoriamente manterei a distinção entre tela e bordado. Depois dessa breve introdução, começarei a refletir sobre a tela e em seguida tentarei dizer alguma coisa sobre os diferentes bordados.

1) A tela humana na teia da vida


Somos uma espécie que emergiu na complexa teia organizada da vida. Nesse momento não vou dar nem explicações científicas e nem fazer apelo aos mitos das diferentes culturas e do Cristianismo em particular. Talvez, poderemos refletir em outro momento sobre essas questões.

Igualmente intuo que não posso refletir sobre o que é vida, mas apenas dizer que vivo porque respiro, porque sinto meu corpo, porque sinto frio e calor, fome e sede, porque penso, porque amo e quero ser amada. Falar da VIDA é amplo demais e corre o risco de ser abstrato. São as pequenas coisas cotidianas, os gestos, os desejos, as dores e alegrias que dizem que estou viva ou que estou na vida ou que tenho vida. Portanto, é a um monte de coisas em mim e ao meu redor que chamo de vida. Aliás, é bom dizer que a palavra "vida", como é empregada hoje, num sentido genérico e abstrato é relativamente recente. A Igreja Católica Romana, por exemplo, tem usado esse termo de forma reducionista, sobretudo quando se refere ao feto. O nome que dão ao feto agora é VIDA e, reduzem o direito à VIDA a proibição de interromper uma gravidez nas primeiras semanas de gestação. Esse emprego indevido corre o risco de levar-nos a abstrações e generalizações que nos distanciam das dores e carências reais de nossos corpos.


A vida não é algo abstrato. A vida é uma vida. A vida é minha vida e a de muitas pessoas de séculos passados e do presente. Todos nós fazemos mais ou menos a mesma experiência quando nos afirmamos vivos. Ao mesmo tempo em que nomeio a vida em mim, nomeio a vida dos outros, alguns semelhantes e outros diferentes de mim. Desta forma sou eu o ponto 0 (zero) a partir do qual sinto a vida e organizo o mundo, de forma individual e coletiva. Não conheço a vida em geral, mas só a particularizada em mim e em outros indivíduos. Minha vida é meu corpo, suas necessidades, suas relações e suas produções. E meu corpo é essa imagem que vejo no espelho ou que reconheço como um eu, meu eu projetado, mas um eu que muitas vezes parece ser maior ou menor do que a imagem refletida. Meu corpo é também feito pelo olhar do outro, pelo corpo do outro que me toca e se constitui em limite e ao mesmo tempo proximidade ou em intimidade para meu corpo. Reconheço meu corpo no outro e o outro no meu. Olho-me no espelho ou me percebo de muitas formas e digo: essa sou eu e eu sou minha vida e minha circunstância. Deixo-me olhar pelo outro ou olho o outro e o reconheço como um outro, meu semelhante, uma outra vida.

Este corpo que se confunde com o que chamo de eu ou minha vida está em relação a outros tantos. Sobrevivemos porque estamos em relação de cuidado, carinho, proteção. Mas também, estabelecemos relações destrutivas, formas de dominar uns aos outros, de tirar a vida de outros buscando saciar estranhas necessidades ou quase incontroláveis desejos. A tela da vida é construída inevitavelmente pela tela da morte. Em outros termos não há vida sem morte. Não há morte sem vida. E, portanto não são duas telas, mas a mesma tela que se mantém através do movimento de vida e morte. A morte é absolutamente essencial à manutenção da vida e à nossa própria capacidade de nomear a vida de vida. Entretanto, ao nos reconhecermos como seres vivos e frágeis começamos a temer por nossa vida. Buscamos instintivamente protegê-la. Além disso, nos damos conta de nossos poderes uns sobre os outros e passamos ao mesmo tempo a temer as ameaças e a morte, coletivamente. Os cadáveres nos mostram o que é a morte. A imobilidade total, a incapacidade de comer, beber, pensar, comunicar-se, amar, decidir. E passamos a temer a morte total e a temer a todos os que possam ameaçar a nossa vida ou todos os que imaginamos capazes de matar as nossas vidas coletivamente. E não só tememos a morte, mas tememos aqueles que em vida possam ter mais vida que nós, como se a vida pudesse ser guardada, comprada e vendida, como se ela se transformasse em produto que pudesse ser acumulado por alguns em detrimento de menos vida para outros. Aqui se poderia pensar na luta de classes, na luta entre etnias, castas, gêneros, gangues, partidos etc.

Não estou contando um conto imaginário ou uma ficção sobre seres extraterrestres. Estou tentando captar algo desses seres existentes que chamamos "humanos"; estou, portanto falando de nós e de mim mesma.

Há vidas que parecem mais ameaçadas que outras; há vidas que parecem mais fortes do que outras, há vidas que se mostram mais importantes que outras... Bordamos uma escala de valores e de hierarquias em torno dessa "coisa nossa" a qual chamamos vida. E muitas vezes o bordado parece fugir ao bom senso, a uma racionalidade respeitosa, a uma regra de convivência entre as cores e os diferentes fios.

É dessa ameaça à nossa vida que nasce nossa capacidade e nosso desejo de por um lado ter vida eterna e por outro de nos referirmos a alguém que não morre, por exemplo, um Deus ou uma Deusa e atribuirmos a ele ou a ela qualidades superiores e, sobretudo a imortalidade. E, além disso, entregamos aos nossos deuses poderes sobre nós, poderes que podem nos libertar e oprimir dependendo das situações. Esta questão está presente em todas as culturas e podemos retomá-la de diferentes maneiras.


2) Os diferentes bordados

Tudo isso nos faz perceber que bordamos muitos desenhos na tela de nossa vida. De fato bordamos, mas também a cultura borda em nós. Há uma interação entre um sujeito e os outros sujeitos no próprio tecido da vida.

Às vezes, tentamos desmanchar algo para bordar novos traços com novas cores. Mas, nem sempre o bordado inicial desaparece. Ficam traços e às vezes até cores meio desbotadas que não conseguem sair da tela como se fossem manchas indeléveis. Há alguns bordados poderosos, sobretudo aqueles que nos vêm da educação familiar e das instituições da religião. São resistentes, agarram-se à tela da vida e até podemos rasgar a tela se tentamos arrancá-los à força. Mesmo quando conseguimos desfazê-los eles parecem voltar em forma de culpas, arrepios, emoções angustiantes.

As crenças religiosas fazem parte desse bordado com múltiplas funções. Poder refletir sobre esses bordados nos mostra a complexidade da vida humana e nos abre para a responsabilidade em relação a nossas vidas.

Os sistemas de poder quaisquer que sejam eles são em parte bordados tecidos com muita força na tela de nossa vida. E não basta uma lei ou nossa decisão pessoal para impedir que coisas independentes de nossa vontade se instaurem em nossa vida. Lembro essas coisas para que percebam o quanto os bordados de nossa vida são extremamente complexos e o quanto modifica-los é tarefa árdua.

Reflito com vocês a partir de imagens femininas para ajudá-las a perceber que quando queremos tomar decisões mesmo se estas forem decisões éticas e políticas em favor das mulheres nem sempre conseguimos desfazer a força dos desenhos da cultura religiosa. Por isso, talvez, devamos investir muito mais na formação do caráter das pessoas, na educação para o cuidado de si, para o diálogo, para o conhecimento de si mesma, para o pensamento. Estes são outros desenhos e outros bordados talvez com pontos mais difíceis de serem aprendidos, mas bastante eficazes quando assumidos com convicção e consciência. Esses bordados cujos fios vêm de dentro e de fora de nós mesmas podem enfrentar com muito mais solidez as investidas dos diferentes totalitarismos e imprevistos que parecem manipular nossas vidas. Ajudar a pensar é uma forma de conquistar nossa dignidade feminina.

3) Decidir: uma vivência complexa

Nós seres humanos herdamos uma estrutura milenar cindida, ou seja, estamos sempre saindo de pequenas cisões ou de muitas divisões que nos habitam. Decidir é sair de uma cisão, é ultrapassar as múltiplas pequenas divisões que estão em nós e nascem cotidianamente em nós. Às vezes saímos da cisão por esforço próprio e outras vezes, forças externas a nós nos tiram da cisão, nos levam a decidir quase sem escolha. Por isso, a decisão nem sempre significa uma real escolha ou mesmo uma escolha livre ou uma escolha boa. A decisão é apenas uma saída do estado de cisão insustentável no cotidiano da vida. É importante dizer isso para não cairmos na ilusão de achar que se decidimos, necessariamente decidimos para o bem de nossa pessoa ou das outras. E mais, se tomamos uma decisão necessariamente estamos tomando-a com todos os elementos disponíveis para que ela não se volte contra nós. Por essa razão muitas vezes tomamos uma decisão indecisa, ou seja, tomamos uma decisão porque não é possível viver na cisão. Tomamos uma decisão até sabendo que ela não é a melhor, mas é o possível no momento.

Mais uma vez, estou problematizando essas situações e chamando sua atenção para as palavras que usamos muitas vezes sem pensar. Convido-as a acolher as dificuldades reais que as decisões encerram. Problematizar significa colocar as coisas ou os acontecimentos diante de si para olhá-lhos e pensar sobre eles. Isto nos ajuda a sermos capazes de pensar e de nos apoiar-nos nas grandes decisões que juntas precisamos tomar. As grandes decisões exigem muito de nós. Nelas ganhamos algo e perdemos algo porque nunca podemos ter absoluta segurança em relação às decisões que fazemos. É claro que muitas vezes dizemos "não me arrependo do que fiz. Esta foi a melhor decisão. Faria tudo outra vez". Isto está bem, mas sempre houve perdas de alguma maneira. A decisão supera uma cisão porque escolhe algo ou um caminho. Consente que seja isso que se quer ao menos nesse momento, mesmo com os sofrimentos e novas cisões que possam advir. Decidir não significa assumir um caminho sem sofrimentos.



As decisões, sobretudo aquelas que implicam em rumos diferentes para nossa vida ou que envolvem diretamente outras vidas são parte da complexa teia de nossas vidas. Desembaralhamos um fio e quando estamos desembaralhando outro, um nó aparece e requer uma imensa paciência ser desfeito e para que não rompermos o fio problemático. E, muitas vezes não há outra saída a não ser romper o fio, atá-lo de outra maneira ou até deixá-lo solto.

4) As diferentes matérias de cisão que povoam nossa vida


Somos seres cindidos como afirmei acima. Todas e todos nós. Por isso, muitas vezes elogiamos as pessoas de decisão porque são capazes de sair logo das cisões. E quando as elogiamos nem pensamos que quase que imediatamente elas são habitadas por novas cisões. Esta é a realidade de todas as vidas humanas. Muitas vezes a segurança total pode ser uma aparência ou uma farsa.

Há cisões que tocam a estrita vida individual no seu cotidiano ou na sua forma ordinária e há cisões que tocam a vida em sociedade. As cisões que tocam a vida social é que são matérias de e do DIREITO, ou seja, são elas que nos convidam a tomar decisões que favoreçam o bem dos diferentes grupos. Digo isso porque cada vez mais nos damos conta dos limites da expressão Bem Comum e da expressão Direito de Todos ou Vida para todos. A matéria de Direito nem sempre favorece a quem precisa do Direito.

Por isso há políticas que visam transformar as coisas que julgamos ser um direito em leis e isto toca em cheio na questão da DECISÃO.

Creio ser interessante lembrar algumas decisões públicas:

- a decisão de eleger um candidato/a para um cargo político

- a decisão de criar um partido político

- a decisão de organizar um movimento social

- a decisão de fazer uma guerra

- a decisão de cessar uma guerra

- a decisão de denunciar opressões

- a decisão de calar crimes

- a decisão de aprovar leis que favoreçam um ou outro grupo

- a decisão de descriminalizar e legalizar procedimentos

- etc.

Estas decisões podem ser pessoais, mas são, sobretudo, coletivas. Indicam muitas vezes que não podemos exercer nossa capacidade de decidir porque forças externas nos impedem de fazê-lo. Penso especialmente nas ditaduras militares, nos regimes totalitários que impedem o exercício da liberdade e da decisão em relação a muitas atividades de nossa responsabilidade comum. Penso também nos fundamentalismos religiosos que procuram manter seus fiéis submissos a uma única interpretação de sua crença religiosa e os proíbem de tomar decisões que têm a ver com sua responsabilidade pessoal.

Há muitas outras decisões que podemos enumerar, mas creio que existe uma que está em nossa mente, pois tem a ver com uma das razões da convocação desse encontro.

Trata-se do direito a decidir sobre nosso corpo, sobre nossa vida sexual, sobre um possível aborto ou interrupção da gravidez. E mais uma vez quero lembrar o quanto a questão da decisão é opaca, ou seja, é complexa mesmo querendo simplificar as coisas.

Pensar em decidir a partir de nosso corpo, levanta uma questão: a quem pertence o nosso corpo? É claro que a resposta imediata num mundo individualista como o nosso é: meu corpo pertence a mim. E imediatamente pensamos que somos as proprietárias de nossos corpos e que podemos dispor dessa propriedade como nos aprouver. Nosso corpo não é visto como um bem pessoal coletivo, mas um bem individual individualista. Meu corpo torna-se o mundo no qual imagino poder desenhar todos os meus desejos e fantasias. E mais, o corpo individualizado dá a impressão de que ele é meu e que, até certo ponto, eu o faço assim ou assado conforme a minha vontade. Esta é uma visão limitada e bastante comum. De fato meu corpo é meu, é minha responsabilidade, mas é também um corpo de responsabilidade comum. Por exemplo, é responsabilidade coletiva cuidar dos corpos enfermos, de construir hospitais, de produzir remédios, de construir estradas etc. Se meu corpo é agredido sinto-o como meu e a sociedade, ou seja, "os outros" apontam-no como "um corpo individual" que tem que reagir à agressão recebida. Mas nem sempre meu corpo tem condições de reagir como se esperaria que ele reagisse. Muitas vezes nos entregamos à agressão, sobrevivemos com ela, muito embora ela possa continuamente nos incomodar. Outras vezes são os outros que reagem para restaurar meu corpo ferido e decidem por mim. Mais uma vez estou problematizando essas questões para mostrar-lhes as muitas dificuldades presentes e peço-lhes que não tirem conclusões aceleradas, mas que acolham o desafio de pensar a nossa vida e seus muitos e complexos processos de decisão.

Por outro lado, podemos igualmente pensar que há tradições para as quais o corpo individual não é propriedade individual. Assim, se fôssemos cristãs de certa linha mais espiritualista diríamos que nosso corpo pertence a Deus, visto que tudo pertence a Deus criador de todas as coisas. Como não escolhi nascer é fácil transferir o meu "estar aqui" a Deus como se minha presença obedecesse a um plano pré-estabelecido ao qual eu tenho que obedecer. Então o que acontece ao meu corpo acontece a um corpo que não é meu, mas de Deus e não posso ir mais além do que acolher o que me aconteceu e fazer a vontade de Deus que permitiu que acontecesse o que aconteceu. Muitas vezes a religião tira de mim a posse e a responsabilidade mesmo frágil sobre meu corpo porque o situa como corpo cuja propriedade é do Outro e de outros. E, a determinação e decisão sobre meu corpo não vem necessariamente de mim mesma. Sou desapropriada de meu corpo e colonizada por vontades acima dele. Os em estão em cima dominam e os que estão em baixo não têm poder de julgar os corpos que estão em cima, de apontar seus equívocos e limites. Penso especialmente nos corpos das hierarquias religiosas que legislam sobre outros corpos e especialmente sobre os corpos femininos.

Pouco a pouco vocês percebem que nossa história circunstancial vai bordando coisas diferentes na tela de nossa vida. E vamos percebendo o pluralismo dos bordados e a dificuldade de desmanchá-los para bordar outros desenhos. Isto explica em parte o conflito entre os desenhos dos bordados. E mais explica que os princípios religiosos são bordados que tecidos na tela da vida como outros apesar de sua força e especificidade. Por isso não devemos temer pensar sobre eles, interrogá-los à luz dos desafios de nosso presente e de nossas vivências próprias.

5) O jogo de interesses nos processos de DECISÃO

São as decisões necessárias ao convívio humano que constroem a política e a moral. Tudo o que criamos está relacionado com tudo. Não criamos nada que não se conecte com o conjunto de nossa vida muito embora nem sempre percebamos isso. Muitas vezes imaginamos que alguma lei ou alguma decisão política vai favorecer apenas a um grupo. E pode ser verdade, mas ao favorecer um grupo na maioria das vezes desfavorece a outros. Esta é a dinâmica das leis, do direito e da moral sempre sujeitas às mesmas limitações humanas e à mesma mistura que nos constitui. Por isso precisamos tentar sair das considerações abstratas que muitas vezes escondem a complexidade do real de muitos problemas.

Nesse sentido decidir, por exemplo, pela legalização e descriminalização do aborto implica não só um conflito de "desenhos ou de bordados", mas um conflito de interesses e de poderes.

É especialmente sobre o corpo das mulheres que estes conflitos e esses poderes estão atuando. A partir de um registro cristão, costumamos pensar que abortar um feto é tirar a vida ou a possibilidade de vida e que, portanto, é uma decisão pecaminosa independentemente, muitas vezes, de uma opção religiosa precisa e das circunstâncias de vida de cada mulher. Tentemos entender algo desse comportamento.

Simbolicamente a origem da vida de um novo ser localiza-se no útero de uma mulher. Ela é nesse momento uma mulher e ainda não necessariamente uma mãe. A maternidade é algo que se constrói depois e ao longo de sua vida. Há algo de extremamente poderoso que se dá nesse processo porque é a mulher aquela que sustenta a possibilidade de vida de outro ser humano. Por isso em algumas antigas civilizações a mulher parindo foi considerada uma das primeiras expressões da divindade, ou seja, da presença de forças extraordinárias no ordinário da vida humana. A sexualidade estrita das mulheres, sua gravidez, seus abortos e partos eram coisas de mulher e faziam parte dos poderes femininos. Esse era um terreno quase "desconhecido" dos homens muito embora nos últimos séculos eles tentem explorar e manipular os mistérios desse "continente desconhecido".

A partir do século XIX, especialmente o corpo feminino e especialmente o útero passam a ser dominados e controlados pela ciência masculina e pela religião, ambas representantes do poder masculino. É mais ou menos a partir desse momento que podemos determinar um controle maior sobre a questão da natalidade e em conseqüência o controle sobre os corpos femininos. Se por um lado o corpo feminino sempre foi considerado como um corpo para o homem e para a procriação o mistério desse corpo era resguardado e nutrido pelo poder das mulheres sobre ele. Ao afirmar isso não estou dizendo que não havia problemas e muitas dificuldades. Mas, simbolicamente o terreno corpóreo feminino pertencia às mulheres. Elas eram as parteiras e elas se dedicavam a ajudar as outras mulheres em casos de doenças sexuais ou em casos de aborto provocado ou acidental. Conheciam ervas e remédios caseiros para aliviar muitos males. Elas eram suas próprias confidentes, cúmplices e conselheiras. Mesmo no período da caça às bruxas, período de um terror enorme contra as mulheres se podia verificar sua força e as ameaças que seu poder exercia sobre as mentes masculinas.

Algumas de vocês poderiam alegar a importância das teorias teológicas, por exemplo, de Santo Tomás de Aquino ou de outro ilustre pensador da Igreja sobre a alma humana ou a vida intra-uterina para refletir sobre o aborto e outras questões. Mas não podemos nos esquecer que as idéias da maioria dos pensadores não chegavam nem ao povo e menos ainda às mulheres, sobretudo, de forma imediata. Muitas correspondiam a elucubrações teóricas distantes da vida ordinária e, foram conhecidas muito tempo depois de sua gestação.

Por isso é bom lembrar que, se por um lado os tribunais da Inquisição e a força do poder da Igreja Católica foram grandes e poderosos, por outro, houve também a história dos poderes femininos que fizeram história e que não podem ser esquecidos.

A ciência e a religião a partir do século XIX passam a arrancar das mulheres esse poder de decisão sobre seu próprio corpo. E é esse poder na sua forma atual que está em jogo não só na questão do aborto, mas em muitas outras questões relativas à vivência de nossa sexualidade e à explicitação de nosso poder. Por essa razão a DECISÃO sobre seu corpo torna-se um DIREITO porque está sendo ameaçado por novos poderes usurpadores que manipulam os corpos e as idéias para manter o poder de dominação sobre os corpos femininos. Alguns em nome da ciência, outros em nome do principio absoluto da vida, outros em nome do Estado e outros em nome de Deus. Todos confundem a opinião pública e, ao mesmo tempo arrancam das mulheres o direito à intimidade com seu corpo e ao exercício de, mesmo se de forma precária, decidir sobre ele visto que meu corpo é minha vida.

Poderíamos abrir essas questões para os muitos casos e tipos diversos de violência sobre o corpo feminino especialmente nas funções políticas. Aqui também há coisas de uma racionalidade sexista e de um poder excludente da diferença. Mas, por enquanto ficaremos por aqui para não alargar demasiadamente nossa reflexão.

5) Onde fica a religião, a teologia e a teologia feminista?

Retoma algumas idéias já explicitadas. Uma das funções da religião é a da sustentação do sentido da vida como disse anteriormente. Aí se incluem muitas vivências: ajudar a aliviar sofrimentos, exorcizar nossos muitos medos, nutrir esperanças, celebrar situações importantes...

Viver é difícil. O ser humano é capaz de criar uma porção de coisas para ajudá-lo a viver. A religião é uma delas. Ao criar a religião cria poderes sobre si mesmo, poderes que para ajudá-lo são imaginados como absolutamente superiores e diferentes dele mesmo. Então, ao mesmo tempo, que reverencia seus deuses e lhes presta culto, o ser humano os teme. Sabemos que muitas vezes os representantes desses deuses usufruem de vantagens culturais, políticas e econômicas e podem dominar os fiéis. A religião torna-se um mal necessário ou um bem cheio de contradições. E as pessoas passam a usar a religião como fonte de autoridade para resolver suas dificuldades e para sair das muitas cisões da vida cotidiana. A religião passa a servir em alguns processos de decisão e de pressão social.

Na realidade escolhemos precisar da religião para decidir, ou ainda, a cultura em que vivemos nos leva a integrar a religião em nossas pequenas e grandes decisões. E isso tanto a nível individual quanto a nível coletivo. Esta escolha é sem dúvida uma escolha condicionada à educação familiar que recebemos e às muitas circunstancias de nossa vida. Portanto, é uma escolha que guarda os limites de nossa condição humana.

Quanto ao nível político coletivo alguns pontos especiais precisam ser observados. Por exemplo, um Estado religioso não prescindirá para a aprovação de uma lei de seus textos sagrados interpretados pelo poder religioso em vigor. Mas, também um Estado laico pode ter administradores religiosos ou ter a pressão religiosa de grupos da população para decidir coletivamente sobre um ou outro assunto. Os limites entre o religioso e o político assim como o individual e o social na prática se entrelaçam muitas vezes. Por essa razão, é preciso discernir se os argumentos para recuperar os poderes que buscamos ou para ter novos poderes necessitam de argumentos religiosos ou simplesmente de argumentos antropológicos e políticos ou simplesmente do bom senso que nos leva a perceber as reais dores umas das outras. Não acho que mesmo acolhendo uma religião precisemos argumentar a partir dela em favor de nossos direitos. Por exemplo, não é necessariamente porque Jesus convida a partilhar o pão que os cristãos vão partilhá-lo. Há uma dimensão humana comum que nos leva a fazê-lo e que as religiões e as grandes sabedorias assumiram como sua prática. Em outros termos, temos que ajudar as pessoas a decidirem e a fazê-lo a partir de sua crença religiosa ou não. A crença religiosa não pode ser lei válida para todas as situações. Por exemplo, as testemunhas de Jeová não admitem transfusão de sangue, mas em situações especiais o crente pode decidir de não acolher esta norma. Com isso, estou querendo permitir a cada uma de nós o direito de decidir sem a intervenção de crenças promulgadas muitas vezes pela elite sacerdotal religiosa vigente ou crenças fruto de uma história passada que já não é mais significativa nos dias de hoje. A fé religiosa é sempre maior do que a crença imposta por uma elite que se afirma representante de Deus. Proclamar isso como uma prática possível no meio de nós é por um lado perceber a multiplicidade de interpretações e de ideologias religiosas que subsistem numa mesma instituição e por outro acolher o dissenso como fruto de nossa liberdade. Podemos viver nossas crenças de forma mais criativa e libertária, isto é, buscar nelas uma ajuda para enfrentar as dificuldades do momento e não como uma sobrecarga de sofrimento. Sem dúvida este foi um comportamento comum do Movimento de Jesus e de algumas mulheres na história da Igreja. É preciso reafirmá-lo como parte da originalidade de nossa história e de nossa herança cristã.

Onde entra a teologia?

A teologia é uma sistematização continuamente atualizada das crenças e da fé de uma religião. É a capacidade de pensar as nossas crenças e explicitá-las em um discurso coerente. No caso católico a teologia foi sempre o lugar da ausência de vozes femininas. Os homens sempre falaram em nosso nome e quiseram impor seu desenho ao nosso bordado. Até agora não temos o direito de sermos as nossas próprias representantes nas assembléias decisórias da instituição religiosa. E mais, sabemos bem o quanto os fundamentos apresentados no cristianismo legitimam o poder masculino e a representatividade do masculino até mesmo nas expressões mais sublimes da vida humana. Por exemplo, o amor total e a salvação são representados pela doação incondicional da vida de um único homem-Deus: Jesus de Nazaré.

A teologia feminista a partir do século XX começa justamente a desenvolver-se através da percepção dos direitos negados às mulheres na sociedade e no interior das religiões. Na realidade os poderes religiosos negados são em parte expressões dos poderes negados pela sociedade civil e política. Por essa razão, a luta por espaços de reconhecimento na religião corresponde igualmente aos espaços ocupados na sociedade civil e política. Da mesma forma a luta por sair de identidades femininas fixas corresponde a mesma luta de sair de uma compreensão hierárquica e sexista do ser humano presente, sobretudo, no mundo religioso.

No fundo, a teologia feminista é uma teologia política que retoma os textos da tradição e os reinterpreta de maneira a favorecer a vida das mulheres e incluí-las nas diferentes dimensões da religião.

Re-trabalhar conteúdos, introduzir novos conceitos, novas hermenêuticas bíblicas com a finalidade de ajudar a viver a vida se constitui em um dos objetivos das muitas teologias feministas. E, esses conteúdos são pertinentes apenas para aquelas que os abraçam, aquelas que se encontram brindadas pelos novos sentidos que o bordado feminista tenta fazer aparecer nas relações humanas.

Há muito ainda para pensar, para partilhar e discutir... Expus apenas algumas idéias para provocar seu pensamento. Agora vocês podem continuar o bordado, cada uma de seu jeito e com sua própria história e habilidades.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Brasileiras são as principais vitimas do tráfico de mulheres na Espanha


Estatísticas policiais divulgadas nesta terça-feira pelo Ministério do Interior da Espanha indicam que mais de oito em cada dez mulheres vitimas da prostituição detidas no país em 2009, ou 86% delas, são nascidas no Brasil.
Os dados confirmam que as mulheres brasileiras são as principais vítimas da maioria das quadrilhas de prostituição que atuam no país – das 17 grandes organizações de tráfico de pessoas desmanteladas pela polícia no período, 11 atuavam com brasileiras.
As mulheres detidas foram consideradas vítimas de prostituição pela legislação espanhola (prostituir-se é legal no país, embora a exploração sexual seja delito). Em segundo lugar, depois das brasileiras, estão as romenas.
Os dados foram apresentados no Congresso pelo ministro do Interior espanhol, Alfredo Pérez Rubalcaba, que chamou as quadrilhas de “máfias de crime organizado”.
O Ministério identificou ainda três localidades que concentram a maioria dos quase quatro mil prostíbulos que traficam mulheres: Madri, Barcelona e Valência.
Apesar de traficar mulheres brasileiras, a maior parte das quadrilhas é composta ou chefiada por europeus.

Fonte:www.tudoglobal.com

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Religiosas participam de capacitação contra tráfico de pessoas



Terminou o passado dia 17, em Salvador (BA), o encontro de religiosas da Rede Um Grito pela Vida, que capacitou 27 pessoas das regiões Norte e Nordeste do país, para atuarem na prevenção ao tráfico de seres humanos. A atividade começou no último dia 14 e teve um resultado positivo, segundo afirmou a integrante da articulação brasileira da Rede Um Grito pela Vida, irmã Gabriella Bottani.

O objetivo do encontro foi o de capacitar agentes multiplicadores de prevenção do tráfico de pessoas e também promover o fortalecimento da Rede na região. Segundo irmã Gabriella, os estados de Rondônia e Pará, na região Norte, e Bahia, Pernambuco, Alagoas, Ceará e Maranhão, na região Nordeste, foram representados no encontro.
Ela disse que "a sensação foi muito positiva e que saiu do evento com muita esperança", já que teve uma significativa participação da região Norte, que segundo ela, apresenta uma situação preocupante quanto ao tráfico humano. Ela acredita que as agentes multiplicadoras poderão ainda, ao realizarem o trabalho educativo, minimizar a dificuldade de comunicação existente na região.

Ela explicou que após esta formação, as participantes devem formar núcleos em suas áreas de atuação, para repassar o que aprenderam para outras pessoas, e assim, poderem alcançar diferentes comunidades que serão prevenidas e alertadas quanto aos perigos do tráfico de seres humanos. "É preciso ter uma presença capilar, ou seja, estar presente em diferentes lugares, para conscientizar o máximo de pessoas possível", afirmou.

Durante o encontro foram realizados estudos sobre tráfico de pessoas, a partir de material educativo, reportagens e também estudos bíblicos. Uma das questões consideradas mais urgentes de se enfrentar, de acordo com a Rede, foi a exploração sexual de mulheres e crianças e o "sistema que massacra a vida".

Também foram utilizados dados oficiais da Organização Internacional das Migrações (OIM) sobre este crime transnacional, além de dados da Pesquisa nacional sobre tráfico de mulheres, crianças e adolescentes (PESTRAF, 2002) que aprofunda os conceitos básicos inseridos nesta problemática.

Irmã Gabriella adiantou que está previsto para 2011, um encontro de religiosas em Foz do Iguaçu, no Paraná, que deve fortalecer e ampliar ainda mais a atuação da Rede Um Grito pela Vida. "As pessoas estão percebendo como é importante o trabalho da vida religiosa, e estamos abrindo espaço também para os leigos participarem", disse.

A Rede Um Grito pela Vida está vinculada à Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) e atua na prevenção ao Tráfico de Seres Humanos com trabalhos de sensibilização e conscientização, sobretudo, junto às comunidades e público mais propensos a serem vítimas deste crime organizado. Apesar do caráter religioso, a Rede está aberta para participação de leigos e leigas, que estejam interessados (as) em contribuir com este trabalho preventivo.

Para acompanhar a Rede, acesse: http://redeumgritopelavida.blogspot.com/

Fonte: http://www.adital.com/

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A gente se acostuma



Por Mariana Colassanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. 

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e não ver vista que não sejam as janelas ao redor. E porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma e não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, se esquece do sol, se esquece do ar, esquece da amplidão.

A gente se acostuma a acordar sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: “hoje não posso ir”. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que se deseja e necessita. E a lutar para ganhar com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes. A abrir as revistas e ler artigos. A ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.


A gente se acostuma à poluição, às salas fechadas de ar condicionado e ao cheiro de cigarros. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam à luz natural. Às bactérias de água potável. À contaminação da água do mar. À morte lenta dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta por perto.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta lá.

Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua o resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem muito sono atrasado.

A gente se acostuma a não falar na aspereza para preservar a pele. Se acostuma para evitar sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Duas mulheres. Uma mulher. Nenhuma mulher?! O poder na ponta do dedo-para-nós

Por Nancy Cardoso

Ao fim e ao cabo -quer dizer "afinal, depois de tudo", para enfatizar que é bem no "fim mesmo!"- o que está em disputa nestas eleições é o controle do ventre: da terra e das mulheres. Afinal estas são as duas formas básicas de produzir a vida, relações de relações de ficar vivo.
Com duas mulheres nas pontas dos dedos do eleitor no primeiro turno não é de se espantar que os mecanismos de controle das estruturas capitalistas e patriarcais se agitem e usem suas armas mais antigas e exclusivas: a Senhora Moral e a Senhora Religião.

Marina e Dilma são mulheres empoderadas pelo intenso trabalho de base e de organização de muitas comunidades e segmentos sociais ao longo dos últimos 30 anos: Mulheres! Muitas outras mulheres! Chegaram até aqui com trajetórias diferentes, mas alimentadas por práticas políticas de enfrentamento do machismo estrutural que a sociedade brasileira e também os movimentos sociais reproduzem. Hoje no Brasil já nos afirmamos com um feminismo classista. Um ecofeminismo socialista.

Não foi e não é o bastante! Dilma e Marina -e tantas outras de nós!- tiveram que aprender a caminhar pelos atalhos da política partidária, dos espaços de poder negados/negociados. E Marina chegou assim com ecologismo sem-classe e Dilma com pac sem-classe. Mulheres-em-si...; mas, não mulheres-para-si.

Que quanta tanta barriga de mulher nas propagandas! Tanta mulher e nenhuma mulher porque não há nenhum projeto de escuta e de encaminhamento de políticas de mulheres-para-si: mulheres do campo e da cidade, proletárias, camponesas, suas misérias sociais e eróticas e suas lutas. Não! Não! Os representantes do capitalismo e das religiões do mercado cercam a barriga da mulher-em-si e proclamam a propriedade privada, o controle da igreja e o controle do Estado. Ui! Os senhores representantes das fundadas verdades fundamentais.

Os fundamentalismos são palavras contra os corpos, palavras sem os corpos, palavras apesar dos corpos. Palavras que se solidificam em políticas, palavras que silenciam palavras outras. Os fundamentalismos e suas variáveis têm em comum a suspensão da escolha. Acreditando-se em fundamentos fundamentais, paralisa-se a vertigem da interpretação. Se existem as verdades fundamentais, o que se espera das pessoas é que observem, decorem, repitam, cumpram, guardem, obedeçam, estudem...; que desistam de perguntar por quê? Até quando? E se...?

O capitalismo é o fundamentalismo econômico contra a terra, sem a terra, apesar da terra reduzida a "meio de produção", forma básica de renda e acumulação. No Brasil, não podemos perguntar pela reforma agrária, por outro modelo agrícola. Os fundamentos fundamentais do capitalismo paralisam a interpretação e os meios de comunicação pedem que as maiorias sem-território observem, decorem, repitam, cumpram, obedeçam às verdades eternas da propriedade privada.

Ao fim e ao cabo, o capitalismo precisa manter sob rédea curta as dinâmicas de produção e reprodução da vida social. O debate embutido e que foi mascarado pela propaganda verde-sem-classe de Marina é a questão da terra, da propriedade da terra, da função social da terra.
O projeto comum de dominação sobre a terra/natureza e sobre as mulheres se perpetua, ainda hoje, de forma mais ou menos sofisticada nos planos de governo e nos monólogos teológicos. A visão da natureza como recurso ilimitado que pode ser sempre tirado e tirado se articula com o trabalho da mulher/doméstica que é trabalho não-pago e movido a sacrifício. Estas são as duas formas básicas de extração de mais-valia, de acumulação básica do capital.

O modelo de produção e reprodução da vida no capitalismo é aquele que legitima o uso da violência e da exaustão como forma de produção do lucro. O agronegócio invade a terra sem pedir licença e sem se comprometer; em expansão o capital se enfia nas profundezas da terra e "goza" rápido, buscando as formas mais ligeiras e eficientes de lucro e de satisfação de si mesmo. A terra exaurida e violada gera "produtos" e "riquezas" num ciclo bárbaro, insustentável e depredador. A terra não pode dizer não! Ser contra a propriedade é ofender a Deus! O deus: capital!

A crise ecológica manifesta uma contradição fundamental do capitalismo: entre o sistema produtivo e as condições de produção. Desde os primórdios da acumulação primitiva do capital, a conquista de mais e mais lucro se dá com a destruição de trabalhadores e da natureza. (Revista Margem Esquerda n. 14, 2010)

O cotidiano das maiorias, de modo especial, e das maiorias de mulheres, em particular, é de alienação e violência de seus corpos na relação com o corpo do mundo - também alienado e violentado. A miséria erótico-sexual se perpetua pela sociedade, preservando as relações violentas no espaço doméstico.As mulheres não podem dizer não!
A superação/enfrentamento desse sistema de controle-disciplina-exploração não se dá pelo elogio da natureza feminina, ou pela celebração de uma suposta proximidade da mulher com/na natureza. O desafio é de identificar ou criticar os modelos históricos e econômicos de subserviência e a prática política cotidiana (macro, micro). A superação possível está na busca conjunta (de classe e de gênero e de etnias...) por outras formas de bem-viver.

No campo da religião diversos fatores precisam ser enfrentados. A preguiça com que muitas teologias neopatriarcais entre nós descartam a Teologia da Libertação e a Teologia Feminista se dá exatamente pela segunda milha que o caminho com os empobrecidos e empobrecidas exige de nós: da recriação no cotidiano das relações de poder homem/mulher (na Igreja!, na teologia!, nos movimentos!, na vida!, na cama!), do compromisso nos processos de luta de classes e suas novas formatações, na criação de estilos de vida que neguem e resistam ao capitalismo e sua febre de consumo.

Os teólogos/sacerdotes do mercado não se arriscam com uma teologia que não garanta mais para eles mesmos -como classe e gênero- os mecanismos de controle e poder do antropocentrismo e do patriarcalismo. Preferem o caminho reformista da teologia que se acomoda na academia ou nas variações de uma teologia pública (sem luta de classes!). Não se ocupam das dinâmicas erótico-sexuais e têm medo de tudo que é gay...; apesar de viverem num mundinho de homossociabilidade exclusiva.

Hoje, parte do cristianismo inserido no capitalismo de consumo desistiu de fazer as perguntas honestas e radicais que o evangelho de Jesus nos faz... As respostas às dramáticas necessidades das maiorias pobres do planeta se expressam em projetos assistencialistas e caritativos que preferem seguir garantindo as necessidades da sobrevivência das institucionalidades, inclusive as igrejas.

Uma outra parte de cristãos não incluídos plenamente no capitalismo e mesmo as maiorias excluídas respondem com teologias da prosperidade, que é também uma teologia da propriedade que coloca as necessidades sociais na dimensão do individualismo das trocas com a divindade, o mercado. Não há uma resposta organizada às necessidades..., mas sim uma objetivação do sujeito, de modo a inseri-lo nos mecanismos de consumo. Malafaias e tfps, rccs e blogs gospel: leões de chácara do capitalismo.

Eu vou votar contra o PSDB.

Eu vou votar na Dilma.

Meu voto não é útil, porque no dia seguinte da eleição de Dilma Roussef vou me encontrar mais forte junto aos movimentos sociais, dos movimentos feministas na defesa dos direitos conquistados e por conquistar!



Fonte: http://www.adital.com.br/

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

‘Gaia sagrada’: as relações entre ecologia, feminismo e cristianismo

A hipótese Gaia, ou a Teoria de Gaia, propõe que a biosfera e as demais esferas físicas da Terra estão intimamente integradas de modo a formar um complexo sistema interagente estável. Na visão da teóloga inglesa Anne Primavesi, a partir de seus estudos conjuntos com o autor da Teoria de Gaia, James Lovelock, Gaia (ou Mãe Terra, Pachamama etc.) é sagrada, assim como suas inter-relações, que moldam aquilo que somos.

"Uma valorização gaiana da criação vê as coisas como elas realmente são, como todos os seres vivos dependem uns dos outros tanto no tocante à possibilidade da vida quanto à sua qualidade", afirma Primavesi. Por isso, na teologia coevolutiva, cada organismo é valorizado pelo que é em si mesmo.

Porém, a partir de uma perspectiva ecofeminista, a teóloga reconhece que "as mulheres e a natureza têm sido tradicionalmente rebaixadas e ignoradas numa concepção hierárquica do mundo". A partir dessa concepção, "todos os seres não humanos podem ser usados e abusados para esse fim", afirma ela, em entrevista gentilmente concedida por e-mail à IHU On-Line, em um delicado período de recuperação pós-operatório.

"Nós agora temos de lidar com os efeitos do patriarcado e da desvalorização religiosa dos ‘corpos’ não só sobre as mulheres, crianças e povos indígenas, mas também sobre o corpo da Terra". Isso exige uma "mudança no clima religioso", defende. Nesse sentido, como resposta a uma das perguntas desta entrevista, Primavesi enviou ao IHU On-Line, com exclusividade, seu "Manifesto pelo Ecofeminismo", que aqui publicamos pela primeira vez em português. A tradução é de Luís Marcos Sander.

Anne Primavesi é teóloga inglesa, doutora em teologia sistemática, especializada em questões ecológicas. Membro do Centro de Estudos Interdisciplinares da Religião, do Birkbeck College, University of London, já lecionou na Bristol University. É autora de vários livros, incluindo Sacred Gaia (2000), Gaia's Gift: Earth, Ourselves and God after Copernicus (2003) e Gaia and Climate Change: a Theology of Gift Events (2009). Em português, publicou Do Apocalipse ao Gênesis: Ecologia, Feminismo e Cristianismo (Paulinas, 1996). Após conhecer o cientista James Lovelock, criador da Teoria de Gaia, Primavesi colaborou com ele no primeiro curso do Schumacher College sobre a Teoria de Gaia, em 1991.




Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em seu livro Sacred Gaia (sem tradução para o português), a senhora discute a teologia a partir de uma perspectiva coevolutiva. A que se refere?

Anne Primavesi - A teologia tradicional classifica tudo numa hierarquia de importância, sendo que a parte superior dela está mais próxima de Deus, e a inferior, mais distante. Uma perspectiva coevolutiva surge de uma compreensão mais profunda e de uma valorização da forma como todos os seres vivos vêm a existir e mantêm sua existência através de uma interligação e interdependência ineludível.

Na teologia coevolutiva:

• cada organismo é valorizado pelo que é em si mesmo;

• o valor de cada organismo "importa" em relação ao todo;

• cada entidade é um ser singular e, por conseguinte, essencialmente inclassificável em graus;

• o valor intrínseco de cada uma se baseia na gratuidade do amor de Deus por ela;

• cada uma está presente e vívida na memória de Deus;

• o valor das criaturas não humanas não reside na forma como contribuem para a qualidade da vida humana; cada uma tem direito à sua própria qualidade de vida;

Como diz o poema, "eu pedi que a árvore me falasse sobre Deus, e ela floresceu".

IHU On-Line - Ao analisar a relação entre as mulheres e a ecologia, a senhora apresenta as ideias de uma ordem hierárquica e de uma ordem "Gaiana". Qual é a contribuição do feminino para o cuidado da Criação?

Anne Primavesi - Ao longo das últimas décadas, as ecofeministas expressaram claramente como as mulheres e a natureza têm sido tradicionalmente associadas ao serem rebaixadas e ignoradas numa concepção hierárquica do mundo.

Nessa concepção, os homens estão sujeitos a Deus, as mulheres sujeitas aos homens, os animais sujeitos a ambos, e a própria terra é, simplesmente, o lugar onde nós, seres humanos, realizamos nossa salvação e esperamos o céu. Numa concepção hierárquica, todos os seres não humanos podem ser usados e abusados para esse fim. Esse ordenamento hierárquico valida, conscientemente ou não, relações violentas.

Uma valorização gaiana da criação vê as coisas como elas realmente são, como todos os seres vivos dependem uns dos outros tanto no tocante à possibilidade da vida quanto à sua qualidade. Rotineiramente, talvez não estejamos conscientes do presentear essencial por parte dos muitos seres que possibilitam que nós tenhamos vida. Mas uma consciência mais profunda desse presentear nos refreará para não cometermos excessos de egoísmo e violência que prejudicam a terra, que é o lar de todos os seres vivos.

IHU On-Line - Qual é o impacto das mudanças climáticas sobre a fé e a prática das nossas igrejas hoje? Qual é o papel dos cristãos nesse contexto específico?

Anne Primavesi - A ciência que forma nossa compreensão da mudança climática mostra quão profundamente a humanidade afetou o equilíbrio da vida na terra. Além da perda da biodiversidade, ela adverte que a sobrevivência da própria humanidade corre risco. Isso desafia o pensamento e a prática das igrejas.

Em termos de pensamento, temos de aprender a:

• nos ver e expressar como parte de toda a comunidade da vida na terra;

• ver e tratar a terra como um lar;

• aprender e demonstrar compaixão e respeito por todas as criaturas;

• em encontros litúrgicos, responder com um agradecimento formal, gratidão e respeito pelas dádivas que nos são dadas por todos os seres vivos e tornam possível nossa vida.

Em termos de prática, temos de aprender a:

• descobrir e responder ao valor intrínseco de toda a Criação;

• resistir ao imperialismo, consumismo, colonialismo e violência em nosso pensamento;

• aprender a humildade ecológica, um reconhecimento de nossa dependência do trabalho das muitas criaturas não humanas que mantêm limpo o ar, potável a água e nos fornecem os alimentos que comemos.

IHU On-Line - Em sua opinião, por trás da crise climática, há também uma crise ética e espiritual? Perdemos a nossa capacidade de conviver com os demais seres vivos da Criação?

Anne Primavesi - Não podemos separar o espiritual do ético, ou o social do ecológico. Só podemos fazer essas separações na linguagem, não na realidade. Como pessoa, eu ajo a partir da totalidade de meu ser. As tarefas são as seguintes:

• falar sobre nós, de maneira que não pressuponham que essa espécie de separação linguística descreva as coisas assim como elas são;

• mediar entre as ideias e a ação, o abstrato e o real.

Por exemplo, quando comemos, não deveríamos simplesmente abençoar a comida. Deveríamos reconhecer que a comida abençoa a nós e responder dando graças por isso. Antes de agradecer a Deus pela comida, deveríamos identificar e estar conscientes daqueles e daquelas cujo trabalho e cuja vida tornam possível que comamos agora e agradecer a eles e elas. E isso não apenas em palavras, mas na forma como vivemos, esperando que eles e elas tenham espaço para vicejar e não os/as considerando simplesmente meios para nossos próprios fins humanos.

IHU On-Line - O "Tempo para a Criação" de 2010 está relacionado com a campanha 10:10:10, que será o dia com o maior número de ações positivas contra as ações climáticas. A partir de que motivações teológicas ou bíblicas essa relação entre fé e ecologia pode crescer ainda mais?

Anne Primavesi - Essas coisas devem ser descobertas e expressas por cada pessoa e cada comunidade. Espero ter notícias das formas de fazer isso que vocês venham a criar durante esse período! O que vocês nos disserem sobre o que encontraram será o presente que darão a todas e todos nós.

Penso que o Manifesto pelo Ecofeminismo (1) poderá ajudar nesse sentido.



 
Ecofeminismo

Definição

O termo "ecofeminismo" foi cunhado pela autora francesa Françoise d’Eaubonne e apresentado em seu livro Le féminisme ou la mort, publicado em 1974. Ela o usou para designar um tipo específico de movimento ecológico em que a consciência da opressão das mulheres é a principal força motriz.

Características

a) O discurso ecofeminista reúne visões feministas e política ecológica, com base na percepção de que há ligações entre a dominação de pessoas e a dominação da natureza não humana. Ele toma a crítica feminista das relações humanas e a coloca lado a lado com uma análise das relações entre seres humanos e não humanos.

b) As ecofeministas usam uma perspectiva ecológica para apontar em direção à ausência de hierarquia na Natureza e contrapor isto à presunção cultural, comumente aceita, de que uma espécie, a humana, tem o direito de dominar todas as outras.

c) O fato é que nós, seres humanos, não temos condições de viver à parte do resto da Natureza. Cada um de nós está internamente relacionado com todos os aspectos de nosso meio ambiente, e essa relação faz parte do que somos. Inspirando o ar, nós recebemos. Expirando-o, devolvemos. As ciências naturais nos deram informações sobre o meio ambiente global mais amplo: sobre a camada de ozônio, a chuva ácida, o desmatamento e a desertificação e as emissões de dióxido de carbono na atmosfera. Essas informações mostram não só que a Natureza poderia viver inteiramente feliz sem nós, e de fato seria muito mais feliz sem nossa interferência nela. Ao mesmo tempo, estamos ficando cada vez mais conscientes de que o inverso não é verdade: nós não podemos viver fora dos sistemas naturais que sustentam a vida.

d) As descrições culturais masculinas de nós mesmos como seres que estão "fora de" ou "no controle", não só do meio ambiente, mas também de outros seres vivos nele, foram, entrementes, contestadas, porém não eliminadas. Ao longo de toda a histórica humana ocidental, as mulheres foram rotineiramente classificadas como escravas e tratadas como tais. Isto veio à tona com o movimento público pela emancipação das mulheres. Ele começou nos Estados Unidos com o movimento pela emancipação dos escravos, com a luta por seus direitos a seu próprio corpo, a seus filhos e à propriedade que viessem a adquirir. Então as mulheres se deram conta de que elas também não tinham esses direitos.

Esta lição foi compreendida claramente em 1840, na Convenção Mundial contra a Escravidão realizada em Londres. Elizabeth Cady Stanton e Lucretia Mott, junto com outras delegadas americanas, foram relegadas às galerias na condição de "observadoras". Indignadas, elas realizaram uma conferência em 1848, em Seneca Falls, para tratar "da condição e dos direitos sociais, civis e religiosos das mulheres". Os povos indígenas também não têm tido esses direitos. Até 1967, os aborígenes australianos eram juridicamente classificados como "flora e fauna", isto é, como incapazes de passar da natureza para a cultura.

e) Essa desvalorização das mulheres e dos povos indígenas aconteceu numa cultura secular dominada por uma imagem dos seres humanos (ou, mais precisamente, dos homens) como "mentes", e numa cultura religiosa dominada por homens que entendiam que seu "espírito" e sua mente controlavam não só seus próprios corpos, mas também, por extensão, os corpos das mulheres, das crianças, dos povos indígenas e, naturalmente, de toda a Natureza material. Isto remonta ao mito da criação de Platão, o Timeu. Sua desvalorização da corporalidade se arraigou no ensino cristão e atingiu seu ápice no conceito do pecado supostamente corporificado em Eva. A mentalidade platônica e a cristã se juntam numa passagem do Apocalipse (lida na festa do dia de Todos os Santos) a respeito dos 144 mil que serão salvos (Apocalipse 7, 1ss.; 14, 1-5). A passagem de Apocalipse 14, 4 sintetiza o ideal a que todos e todas nós deveríamos supostamente aspirar! Entretanto, sabemos que o espiritual só está vivo em nós onde o espírito e a matéria, a mente e o corpo fazem todos parte do mesmo organismo vivo. Nenhum aspecto tem precedência sobre outro, pois eles só podem funcionar juntos como um todo vivo.

f) Há um outro fator nessa história, "a regra dos fisicamente mais fortes", que liga a sujeição das mulheres com a sujeição da Terra até o presente. Eu o chamo de "militarismo econômico". Bismarck estava descrevendo o militarismo quando disse que a única realidade política prática é o poder e a única fonte do poder é a força física, ou seja, a capacidade de matar e ferir. Essa "capacidade" era e é um importante e ainda crescente produto de exportação dos países do Norte econômico para os do Sul econômico, a maioria dos quais são ex-colônias. Pois ela era a força física que estava por trás da colonização europeia de outros continentes e sua concomitante cristianização. Atualmente assume a forma de um complexo militar-industrial que continua a crescer, a consumir recursos em todos os sentidos e a deixar a destruição ambiental em sua esteira. Mais uma vez, as mulheres, as crianças, os povos indígenas, os pobres e suas terras são as principais vítimas. O Conselho Mundial de Igrejas, em sua preparação para a Cúpula das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992, estabeleceu ligações explícitas entre essas questões em seu programa Justiça, Paz e Integridade da Criação. As ligações delas com a Terra foram ignoradas no programa católico romano Justiça e Paz.

g) Em termos religiosos, o modelo do domínio dos mais fortes é apoiado pelo conceito de hierarquia ou "domínio sagrado", que é endêmico no cristianismo e nas instituições culturais do Ocidente. De forma literal ou figurada, ele assume a forma de uma pirâmide ou da "Grande Cadeia do Ser". Em ambas, o Espírito, Deus ou Inteligência não material (mas masculino!) constitui o pináculo e a fonte do poder. O poder flui dele para os homens, e deles para as mulheres, as crianças e os povos indígenas. "Debaixo" de todos esses seres e sujeita a todos os "de cima" está a Terra.

h) As sociedades e instituições hierárquicas valorizam os seres de acordo com a posição que ocupam na pirâmide ou cadeia: Deus/Espírito/Inteligência no topo, e as mulheres, as crianças e a Terra na parte de baixo. Elas estão sujeitas, em termos religiosos e institucionais, ao poder vindo "de cima", exercido em nome de um Deus todo-poderoso.

Implicações

Todas as características descritas acima ainda podem ser discernidas em nossa atual cultura secular e religiosa. Elas causam impacto sobre nossa autocompreensão e sobre o que é tido como opiniões e comportamentos aceitáveis. Uma conhecida afirmação de Dom Helder Câmara serve como forma de ilustrar esse efeito. Disse ele: "Se dou comida aos pobres, chamam-me de santo. Se pergunto por que os pobres não têm comida, chamam-me de comunista/marxista".

Isso pode servir de base metodológica para as críticas ecofeministas:

• se trabalho pelos direitos das mulheres, sou uma militante em defesa dos direitos humanos. Se pergunto por que as mulheres, as crianças e os escravos não têm esses direitos, sou uma filósofa feminista;

• se crio refúgios para mulheres vítimas de maus-tratos ou para vítimas da guerra, sou uma assistente social. Se pergunto por que os abrigos são necessários, sou uma filósofa ética feminista;

• se estudo a posição das mulheres ao longo da história do cristianismo, sou uma historiadora da Igreja. Se pergunto por que elas foram mantidas nessa posição, sou uma teóloga feminista;

• se estudo as inter-relações entre mulheres, povos indígenas e movimentos ecológicos, sou uma cientista social. Se pergunto por que essa inter-relação se baseou na desvalorização e na violência para com os corpos das mulheres e dos povos indígenas e contra o corpo da Terra, sou uma filósofa ecofeminista;

• se faço todas essas perguntas e pergunto que papel o cristianismo desempenhou nisso, sou uma teóloga ecofeminista.

O patriarcado, o domínio dos Pais [Padres], não foi acrescentado à formulação da doutrina cristã. Ele foi introduzido na formulação das próprias doutrinas.

Nós agora temos de lidar com os efeitos do patriarcado e da desvalorização religiosa dos "corpos", não só sobre as mulheres, crianças e povos indígenas, mas também sobre o corpo da Terra. Esses efeitos são o que passamos a conhecer como "mudança climática". Eles também exigem uma mudança no clima religioso.

Fonte: IHU-Unisinos

''A credibilidade da CNBB está sendo colocada em xeque''

Entrevista especial com Dom Luiz Demétrio Valentini

''A credibilidade da CNBB está sendo colocada em xeque''.

"Serra, como Ministro da Saúde, referendou medidas concretas de prática do aborto", constata o bispo de Jales e presidente da Cáritas Brasileira. "De acordo com o rigor dos acusadores de Dilma, ele pode ser acusado de abortista".


Confira a entrevista.

“A credibilidade da CNBB está sendo colocada em xeque”, alerta Dom Luiz Demétrio Valentini, bispo da Diocese de Jales-SP, ao comentar o episódio de que a instituição teria aconselhado os católicos a não votarem na candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff. Em entrevista concedida, por telefone, à IHU On-Line, Dom Valentini esclarece que em torno do assunto “existe uma falácia que precisar ser desmontada”.

Para ele, o nome da CNNB foi invocado com posições “que não são dela (...) foi feito um estratagema para vincular opiniões pessoais de alguns bispos à imagem da CNBB”. Ele explica: “O equívoco maior se deu no Regional Sul I da CNBB: a presidência recomendou que todos lessem e, levassem em consideração, uma manifestação de duas comissões diocesanas, onde se manifestava, claramente, posições preconceituosas contra Dilma e o PT. A solicitação de que esse documento deveria ser levado em conta, comprometeu o posicionamento do Regional. Com isso, se criou a ambiguidade e o equivoco de que todo o Regional estava de acordo com esse posicionamento, o que não é verdade”.

A segunda falácia, aponta, é ainda mais difícil de ser compreendida. “O fato de lançar a condição de abortistas a todos aqueles que propõem políticas sociais que levem em conta a situação do aborto para melhorar a legislação e as providências para favorecer a vida e evitar situações de aborto”.

Na avaliação dele, instituição que “sempre marcou presença na realidade brasileira”, a CNBB deve se pronunciar diante deste fato, “esclarecendo que ela não tem posição partidária, não tem restrições a nenhum dos dois candidatos”.

Licenciado em Letras pela Faculdade de Palmas, no Paraná, Dom Valentini fez o curso de Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e foi ordenado presbítero em 1965. Foi professor no Centro Universitário de Erexim e na Universidade de Passo Fundo. Durante muitos anos foi pároco na diocese de Erexim, RS quando foi nomeado bispo de Jales, SP, em 1982. Durantes muitos anos foi responsável pelo Setor Pastoral Social da CNBB, período no qual se realizaram as Semanas Sociais Brasileiras. Atualmente é também presidente da Cáritas Brasileira.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – No primeiro turno, alguns bispos aconselharam a sociedade a não votar na candidata do PT, Dilma Rousseff. Qual a postura da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB nessa questão?

Luiz Demétrio Valentini – Esse é um assunto sério e merece muita atenção. Penso que a credibilidade da CNBB está sendo colocada em xeque. A CNBB, tradicionalmente, sempre marcou presença na realidade brasileira como uma entidade responsável que colaborou para a implantação da democracia no Brasil, ciente, claramente, da sua responsabilidade própria. Agora, corre o risco de ser mal interpretada por equívocos acontecidos por manobras em andamento. Existe uma espécie de falácia que precisa ser desmontada e esclarecida. Essa falácia consiste, em primeiro lugar, em invocar o nome da CNBB sobre posições que não são dela. Foram impressos milhares de folhetos com a mensagem: “CNBB proíbe católicos de votarem em Dilma, do PT”. Isso não é verdade. Foi feito um estratagema para vincular opiniões pessoais de alguns bispos à imagem da CNBB. O equívoco maior se deu no Regional Sul I da CNBB: a presidência recomendou que todos lessem e levassem em consideração uma manifestação de duas comissões diocesanas, onde se manifestava, claramente, posições preconceituosas contra Dilma e o PT. A solicitação de que esse documento deveria ser levado em conta comprometeu o posicionamento do Regional. Com isso, se criou a ambiguidade e o equivoco de que todo o Regional estava de acordo com esse posicionamento, o que não é verdade. Isso influenciou o resultado das eleições.

Outra falácia mais séria e difícil de ser compreendida foi o fato de lançar a condição de abortistas a todos aqueles que propõem políticas sociais que levem em conta a situação do aborto para melhorar a legislação e as providências para favorecer a vida e evitar situações de aborto. Foi montada uma acusação, a qual foi vinculada o voto dizendo que quem é católico não pode votar em quem é abortista. Quem disse que determinada pessoa é abortista? O próprio acusador se vê no direito de estabelecer alguém como abortista, sem levar em conta as ponderações que ele faz.

IHU On-Line – Qual o posicionamento da CNBB diante do segundo turno das eleições presidenciais?

Luiz Demétrio Valentini – Enviei um apelo à CNBB. Estou aguardando um pronunciamento da presidência da CNBB. Fiz questão de ressaltar a Dom Geraldo Lyrio Rocha, presidente da CNBB, que se fazia necessária uma clara tomada de decisão da presidência, esclarecendo que ela não tem posição partidária, não tem restrições a nenhum dos dois candidatos, de modo que se torna urgente enfatizar a posição de neutralidade em termos de opções partidárias e eleitorais. Espero que esse pronunciamento seja feito ainda hoje (6-10-2010) e coloque com muita evidência que a posição da presidência do Regional Sul I da CNBB foi fruto de um equívoco, que, me parece, deveria ser esclarecido pelos próprios autores que elaboraram a declaração.

IHU On-Line – Como percebe o posicionamento de Dilma em relação ao aborto? Ela está tratando o tema de maneira diferente no segundo turno?

Luiz Demétrio Valentini – Penso que ela demorou a se dar conta da gravidade das acusações que eram feitas contra ela e da complexidade do assunto. Percebo que ela tem convicção de que o aborto é um problema de saúde e que não se reduz a isso. Então, deveria ter manifestado de maneira mais enfática o reconhecimento da defesa da vida desde a sua fecundação, como a Igreja afirma. Ela precisava perceber melhor a causa que está em jogo. Dilma tem a oportunidade de esclarecer melhor o seu posicionamento no segundo turno.

IHU On-Line – O que diferencia o posicionamento de Dilma e Serra em relação ao aborto?

Luiz Demétrio Valentini – Serra, como Ministro da Saúde, referendou medidas concretas de prática do aborto. De modo que, aqueles que de maneira tão enfática acusam a Dilma de abortista, deveriam se dar conta de que o outro candidato também teve um posicionamento, o qual pode ser, de acordo com o rigor dos acusadores, acusado de abortista.

IHU On-Line – Como entender que a opinião pública não coincide mais com a opinião publicada? Isso indica que tipo de mudança social?

Luiz Demétrio Valentini – Não é mais a grande imprensa que conduz o processo político. Alguns jornais armaram um esquema de denúncias para inviabilizar uma candidatura, de modo que tentaram, mas obtiveram resultados. Não foi por obra da grande imprensa que a candidatura Dilma diminuiu seu percentual. Dá para sentir que o povo brasileiro começa a formar a sua opinião a partir de fatos próximos e concretos que ele vivência. Quem está a favor da vida? Não são os que gritam contra o aborto e, sim, os que implementam políticas sociais que acabam beneficiando e trazendo mais dignidade para a vida das pessoas. Em termos econômicos, sociais e culturais, o povo está aprendendo a discernir a partir das realidades que ele percebe. Esse é um fato promissor.

Independente do resultado dessas eleições, penso que está indicado um trabalho de cidadania promissor: incentivar o povo a formar a sua opinião a partir, não do que dizem os grandes jornais, mas, a partir de experiências concretas que o povo experimenta e o onde ele se sente sujeito e, não mais, objeto de manobra política.

IHU On-Line – O senhor acredita mesmo que a grande imprensa perdeu o poder de criar opinião pública? O caso Erenice parece ter sido o responsável pela queda de Dilma na reta final?

Luiz Demétrio Valentini – Sem dúvida esse caso ainda conseguiu influenciar a candidatura de Dilma, sobretudo, a partir de situações concretas, visuais. Evidente, o jornal que denunciou tinha “boas intenções” e queria desestabilizar uma candidatura. A grande imprensa ainda é atora. Não sou contra a imprensa, pelo contrário, quanto mais se difunde a possibilidade de comunicação, mais ela está ao alcance da participação popular. A grande imprensa ainda tem a sua parcela de influência, mas não é mais a mesma que forma a opinião pública

IHU On-Line – E as pesquisas eleitorais interferem na formação de opinião e decisão de voto para muitos brasileiros?

Luiz Demétrio Valentini – São instrumentos importantes e indispensáveis, contanto que sejam feitos sem tendências. Foi clara a tentativa de, ao longo do processo eleitoral, apresentar estatísticas que favoreciam mais um candidato do que outro. Houve tentativa de distorcer o resultado das pesquisas, ainda mais quando há institutos de pesquisas que estão comprometidos com uma posição eleitoral.

IHU On-Line – Que fatos relevantes o senhor destaca nesta campanha eleitoral?

Luiz Demétrio Valentini – Penso que a presença da internet é um fator que não estava na contabilidade de ninguém, mas que está emergindo e traz sérias preocupações. Somente o exercício esclarecido da cidadania pode enfrentar os problemas suscitados por esse novo meio de comunicação que possibilita difundir largamente denúncias injustas. Não se trata de coibir, mas de neutralizar a informação com a apresentação de conteúdos verdadeiros, mostrando e desautorizando quem difunde inverdades, posições inventadas e acusações gratuitas.

IHU On-Line - O que leva o senhor a acreditar que estamos caminhando rumo a um processo político promissor no Brasil?

Luiz Demétrio Valentini – Questiono firmemente a tentativa de manipular o outro. O voto é um instrumento melhor, um aprimoramento democrático, quando o eleitor percebe que são eleitos aqueles indicados pelo voto. Por isso, toda a legislação deve fortalecer a liberdade do voto. De modo que, a prática democrática do voto é o melhor instrumento que temos. Precisamos batalhar para que as campanhas sejam oportunidade de esclarecimento da consciência dos eleitores. A batalha pelo voto é a grande batalha pela democracia.

Fonte: IHU - Unisinos