quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O que está acontecendo na Igreja?

“O Evangelho vem de Jesus Cristo. A religião não vem de Jesus Cristo. O Evangelho não é religioso. Jesus não fundou nenhuma religião. Não fundou ritos, não ensinou doutrinas, não organizou um sistema de governo. Nada disso. Ele se dedicou a anunciar, a promover o Reino de Deus. Ou seja, uma mudança radical de toda a humanidade em todos os seus aspectos. Uma mudança, e uma mudança cujos autores serão os pobres.” A afirmação é de José Comblin e foi feita em uma conferência sua na Universidade Centro-Americana José Simeón Cañas (UCA), de San Salvador.

A conferência foi proferida por José Comblin em 18 de março de 2010 e foi transcrita por Enrique A. Orellana. Está publicada no sítio Atrio, 17-09-2010. A tradução é do Cepat.

Eis a conferência.

Boa tarde a todas e todos.

Não é a primeira vez que falo neste lugar, mas agradeço muito a amizade de Jon Sobrino. Nós nos conhecemos há muito tempo e eu o estimo como uma das cabeças mais lúcidas deste tempo que renovou completamente a Cristologia.

Bom... As perguntas de ontem me deram a impressão de que em muitas pessoas há um certo desconcerto em relação à situação atual da Igreja. Ou seja, uma sensação de insegurança. Como dizia Santa Teresa, por “não saber nada a respeito, que nada provoque temor”. Quando era jovem eu conheci algo semelhante e, talvez, pior. Era o pontificado de Pio XII. Ele havia condenado todos os teólogos importantes, havia condenado todos os movimentos sociais importantes, por exemplo, a experiência dos padres operários na França, Bélgica e outros países. Aí nós, jovens seminaristas e depois jovens sacerdotes, estávamos mais que desconcertados, perguntando-nos: mas, ainda há futuro? Eu me lembro que naquela época tinha lido uma biografia de um autor austríaco do papa Pio XII. E aí contava algumas palavras que havia escrito o Pe. Liber, jesuíta, professor de História da Igreja na Gregoriana. O Pe. Liber era confessor do Papa. Sabia tudo o que passava na cabeça de Pio XII e então dizia: “Hoje a situação da Igreja católica é igual a um castelo medieval, cercado de água, levantaram a ponte e jogaram as chaves na água. Já não há como sair (risos). Ou seja, a Igreja está cortada do mundo, não tem mais nenhuma possibilidade de entrar”. Isso foi dito pelo confessor do Papa, que tinha motivos para saber essas coisas. Depois disso veio João XXIII e aí, todos os que haviam sido perseguidos, de repente são as luzes no Concílio e de repente todas as proibições são levantadas. Aí renasceu a esperança. Digo isto para que não se perturbem. Algo virá. Algo virá que não se sabe o que, mas algo sempre acontece.

Como explicar essas situações que ainda podem recomeçar? Porque estamos nos aproximando da fase final da cristandade. Já faz muitos séculos que anunciaram a morte da cristandade... que está agonizando já faz cerca de 200 anos, mas ainda pode continuar sua agonia durante algumas décadas ou alguns anos. Ou seja, deixou de ser a consciência do mundo ocidental. Deixou de ser a força que anima, estimula, esclarece, explica a fonte da cultura, da economia, de tudo o que foi durante o tempo da cristandade. Tudo isso foi sendo destruído progressivamente desde a Revolução Francesa e aqui desde a independência, desde a separação do império espanhol. Então, pouco a pouco, apareceram muitos profetas que disseram que a cristandade morreu... já faz 200 anos. Mas agora creio que a cristandade está entrando em suas fases finais. Querem um sinal? A Encíclica Caritas et Veritate. Não sei quantas pessoas aqui leram a Encíclica. Se se vê a repercussão que teve no mundo: impressionante silêncio... Talvez silêncio respeitoso, mas mais provavelmente silêncio de indiferença. A doutrina social da Igreja não importa mais a ninguém, que também deixou de se interessar pelo que acontece na realidade concreta.

Há alguns anos, um sociólogo jesuíta muito importante, o Pe. Calvez, que teve um papel importantíssimo na criação e manutenção da Doutrina Social da Igreja, publicou um livro intitulado: “Os silêncios da Doutrina Social da Igreja”. Ainda está em silêncio. Deixa de entrar com força nos problemas do mundo atual. Fica com teorias tão vagas, tão abstratas, tão genéricas... A carta Caritas in Veritate poderia ser assinada pelo Fundo Monetário Internacional (risos), pelo Banco Mundial... sem nenhum problema. Não há absolutamente nada que incomode esse pessoal. Então, para quê? Esse é o sinal.

Querem outro sinal? A Conferência de Aparecida disse muitíssimas coisas muito boas. Quer transformar a Igreja em uma missão, passar de uma Igreja de “conservação” a uma Igreja de “missão”. Só que pensa que isso será feito pelas mesmas instituições que não são de missão, mas de conservação. Isso será feito pelas dioceses, pela paróquia, pelos seminários, pelas Congregações Religiosas. Estes aqui, de repente e por milagre, vão se transformar em missionários. Já se passaram três anos e o que aconteceu em sua diocese? Como se aplicou a opção pelos pobres? Não sei como é aqui, mas no Brasil não vejo muita transformação. Ou seja, a cristandade está se dissolvendo progressivamente, mas o problema é o depois. O que vem depois? Como? Daí a insegurança porque não sabemos o que vem depois. Isto aconteceu muitas vezes na história e ainda vai acontecer provavelmente muitas vezes. É preciso aprender a resistir, a suportar, a não se deixar desanimar ou perder a esperança pelo que vem acontecendo.

O que acontece é que em Roma não estão convencidos de que a cristandade está morta. Acreditam que as Encíclicas iluminam o mundo, que as instituições eclesiásticas iluminam e conduzem o mundo. Ou seja, é um mundo fechado, que de fato vivem em um castelo medieval, cercado de água. E então, o que acontece? Vamos ver como interpretar, como ver o que está acontecendo. E então ver qual é o “método teológico” que convém para isso.

O Evangelho vem de Jesus Cristo. A religião não vem de Jesus Cristo

É preciso partir de uma distinção básica que agora vários teólogos já propuseram entre o Evangelho e a religião. O Evangelho vem de Jesus Cristo. A religião não vem de Jesus Cristo. O Evangelho não é religioso. Jesus não fundou nenhuma religião. Não fundou ritos, não ensinou doutrinas, não organizou um sistema de governo. Nada disso. Ele se dedicou a anunciar, a promover o Reino de Deus. Ou seja, uma mudança radical de toda a humanidade em todos os seus aspectos. Uma mudança, e uma mudança cujos autores serão os pobres. Dirige-se aos pobres pensando que somente eles são capazes de agir com essa sinceridade, com essa autenticidade para promover um mundo novo. Seria essa uma mensagem política? Não é política no sentido de que propõe um plano, uma maneira... não, para isso a inteligência humana é suficiente; mas como meta política, porque isto é uma orientação dada a toda a humanidade.

E a religião? Aah! Jesus não fundou uma religião, mas seus discípulos criaram uma religião a partir dEle. Por quê? Porque a religião é algo indispensável aos seres humanos. Não se pode viver sem religião. Se a religião atual aqui se desintegra... Há 38.000 religiões registradas nos Estados Unidos! Ou seja, não faltam religiões, elas aparecem constantemente. O ser humano não pode viver sem religião, mesmo que se afaste das grandes religiões tradicionais. Então, a religião é uma criação humana. Entre a religião cristã e as demais religiões, a estrutura é igual. É uma mitologia. Assim como há uma mitologia cristã, há uma mitologia hinduísta, xintoísta, confucionista. Isso é parte indispensável para a humanidade. Ou seja, como interpretar todo o incompreensível da humanidade pela intervenção de seres com entidades sobrenaturais, fora deste mundo, que estão dirigindo esta realidade.

Em segundo lugar, uma religião são ritos. Ritos para afastar as ameaças e para acercar-se dos benefícios. Todas as religiões têm ritos. E todas têm pessoas separadas, preparadas, para administrar os ritos, para ensinar a mitologia. Isto é comum a todas. Então, isto devia acontecer com os cristãos também. Devia acontecer. Como poderiam viver sem religião?

Como começou essa religião? Deve ter começado quando Jesus se transformou em objeto de culto. O que aconteceu bastante cedo, sobretudo entre os discípulos que não o conheceram, que não haviam vivido com ele, que não haviam estado próximos dele. Então, a geração seguinte ou aqueles que viviam mais distantes, mais afastados, para eles Jesus se transformou em objeto de culto. Com isso se desumanizou progressivamente. O culto de Jesus vai substituindo o seguimento de Jesus. Jesus nunca havia pedido aos discípulos um ato de culto. Nunca havia pedido que lhe oferecessem um rito... nunca. Mas queria o seguimento, seu seguimento. Essa dualidade começa a aparecer cedo. 30 anos, 40 anos depois da morte de Jesus, já aparece com força suficiente para que Marcos escrevesse em seu Evangelho precisamente para protestar contra essas tendências de desumanização, ou seja, de fazer de Jesus um objeto de culto. Este Evangelho é precisamente para recordar uma palavra de profeta: Não! Jesus era isso. Jesus fez isso, viveu aqui neste mundo! Viveu aqui nesta terra.

Com o desenvolvimento da religião cristã que se fez – aqui problema para os teólogos –, progressivamente essa tentação reapareceu. Nasceu um começo de doutrina, o Símbolo dos Apóstolos. E o que diz o Símbolo dos Apóstolos sobre Jesus? Aah... diz que nasceu e morreu. Nada mais. Como se as outras coisas não tivessem importância, como se a revelação de Deus não fosse justamente a própria vida de Jesus, seus atos, seus projetos, todo o seu destino terrestre. Essa é a revelação, mas isso já vai se perdendo de vista. Os Símbolos de Niceia e Constantinopla, da mesma maneira: Cristo nasceu e morreu. O Concílio de Calcedônia define que Jesus tem uma natureza divina e uma natureza humana. Mas, o que é uma natureza? Um ser humano não é uma natureza. Um ser humano é uma vida, é um projeto, é um desafio, é uma luta, é uma convivência em meio a muitos outros. Isso é o fundamental se queremos fazer o seguimento de Jesus.



A religião: distinção entre o sagrado e o profano

Progressivamente, aparece a partir dos primeiros Concílios um distanciamento entre a religião que se forma. Com Niceia e Constantinopla já há um núcleo de ensinamento e de teologia e a Igreja vai se dedicar a defender, promover, aumentar essa teologia. Já se organizaram as grandes liturgias de Basílio e outros, e já se organizou um clero. O clero como classe separada é uma invenção de Constantino. Até Constantino não havia distinção entre pessoas sagradas e pessoas profanas. Eram todos leigos. Porque Jesus apartou a classe sacerdotal e não tinha previsto nenhuma maneira que aparecesse outra classe sacerdotal, porque todos são iguais. E não há pessoas sagradas e pessoas não sagradas, porque para Jesus não há diferença entre sagrado e profano. Tudo é sagrado ou tudo é profano.

Agora, na religião há uma distinção básica entre sagrado e profano. Em todas as religiões. E há um clero que se dedica ao que é sagrado. E os outros que estão no profano, na religião são receptores, não são atores. Não têm nenhum papel ativo. Para ter um papel ativo é preciso ser realmente consagrado. Isso começa no tempo de Constantino.

E a partir daquilo vão aparecer duas linhas na história cristã. Os que, como o Evangelho de Marcos quer recordar: Não, Jesus veio para mostrar o caminho, para que o sigamos. Isso é o básico, o fundamental. Uma linha que vai renovar, aplicar em diversas épocas históricas o que foi a vida de Jesus e como ele o ensinou. E em toda a história podemos seguir. Claro que não sabemos tudo, porque a grande maioria dos que seguiu o caminho de Jesus foram pobres, dos quais nunca se falou nos livros de história e, portanto, não deixaram nenhum documento. Mas há pessoas que deixaram documentos e com isso podemos acompanhar onde, na história da Igreja cristã, aparece o Evangelho. Onde se buscou primeiramente a vivência do Evangelho. Os que buscaram radicalmente o caminho do Evangelho foram sempre minorias, como dizia Helder Câmara, “minorias abraãmicas”.

A maioria está no outro pólo, na religião. Ou seja, dedicando-se à doutrina. Ensinando a doutrina, defendendo a doutrina contra os hereges e as heresias... Essa foi uma das grandes tarefas, praticar os ritos e formar a classe sagrada, a classe sacerdotal. Isso nos leva a uma distinção que vai se manifestar em toda a história. O pólo “Evangelho” está em luta com o pólo “religião” e “religião” com o pólo “Evangelho”. Em toda a história. Toda a história cristã é uma contradição permanente e constante entre aqueles que se dedicam à religião e aqueles que se dedicam ao Evangelho. Claro que há intermediários e assim não há pólos totais. Mas na história há visivelmente duas histórias, dois grupos que se manifestam. A história oficial: quando eu era jovem nos davam aulas de História da Igreja que era “história da instituição eclesiástica” e ali só se falava da religião, supondo que a religião era a introdução ao Evangelho. Mas isso é uma suposição: que tudo o que nasceu no sistema católico vem de Jesus, como se dizia na teologia tradicional em tempos da cristandade, que tudo o que existe na Igreja Católica Romana, ao final, vem de Jesus. Com muitos malabarismos teológicos se consegue mostrar que tudo tem finalmente sua raiz em Jesus. Não têm sua raiz em outras religiões, em outras culturas. Como se os cristãos que se convertem à Igreja fossem totalmente puros de toda cultura e toda religião. Todos trazem sua cultura e sua religião, e introduzem em sua vida cristã elementos que são de sua religião e cultura anterior e por isso resulta uma religião que é sempre ambígua, complexa. É inevitável, porque os seres humanos que entram na Igreja não são anjos. Eles estão carregados de séculos e séculos de história e de transmissão cultural e tudo isso entra, naturalmente, na Igreja. Daí uma oposição que em matéria política, por exemplo, se mostra claramente. Se diz: o Evangelho procede de Deus e, portanto, não pode mudar. A religião é criação humana, portanto, pode e deve mudar segundo a evolução da cultura, das condições de vida dos povos em geral. Se a religião fica apegada ao seu passado, ela é pouco a pouco abandonada a favor de outra religião mais adaptada. O que é muito compreensível.

O Evangelho é vivido na vida concreta, material, social. A religião vive em um mundo simbólico. Tudo é simbólico – doutrina, ritos, sacerdotes... –, todos são entidades simbólicas, que não entram na realidade material. O Evangelho é universal, porque não traz nenhuma cultura e não está associado a nenhuma cultura, a nenhuma religião. As religiões estão sempre associadas a uma cultura. Por exemplo, a religião católica atual está ligada à subcultura clerical romana que a modernidade marginalizou, que está em plena decadência porque seus membros não quiseram entrar na cultura moderna. O Evangelho é renúncia ao poder e a todos os poderes que existem na sociedade. A religião busca o poder e o apoio do poder em todas as formas de poder. E são tão visíveis!

O poder... Lembro que na época da prisão dos bispos em Riobamba o núncio dizia: “se a Igreja não tem o apoio dos governantes, não pode evangelizar” (risos). Pode-se pensar o contrário: que caso se tenha o apoio dos poderes será difícil evangelizar. Mas essa é uma mentalidade que ainda é remanescente na cristandade entre a Igreja fundida em uma realidade político-religiosa e então naturalmente estavam unidas todas as autoridades: o clero e o governo; o clero e o Exército – tudo unido. Renunciar a isso é muito difícil. Renunciar à associação com o poder é muito difícil. Vou dar um exemplo. Meu atual bispo na Bahia é um franciscano, se chama Luis Flavio Cappio. Ficou famoso no Brasil por duas greves de fome que fez para protestar contra um projeto faraônico do governo, baseado em uma imensa mentira. Não há tempo para contar toda a história, mas se tornou conhecido e foi convidado para o Kirchentag da Igreja alemã. Depois do convite falou em várias cidades da Alemanha. Um grupo se aproximou dizendo que vinham para entregar-lhe uma doação, uma ajuda para as suas obras. E era bastante: cerca de 100 mil dólares. Ele perguntou: “De onde vem esse dinheiro?” Disseram-lhe que são algumas empresas, alguns executivos que o recolheram. Então disse: “Não aceito. Não quero aceitar o dinheiro que foi roubado dos trabalhadores, dos compradores de material”. Não aceitou nenhuma aliança com o poder econômico. Eu não sei quantos no clero não aceitariam (aplausos). Esse bispo é um franciscano igual a São Francisco. Toda a sua vida foi assim. Por isso fui morar ali para santificar-me um pouquinho em contato com uma pessoa tão evangélica...

Então, como nasceu a Igreja? A Igreja de que se fala: essa realidade histórica, concreta de que temos experiência. Para o povo em geral a Igreja é o Papa, os bispos, os padres, as religiosas, religiosos... esse conjunto institucional de que se fala e que provoca também tanta incerteza, como vimos. Como nasceu a Igreja? Jesus não fundou nenhuma igreja. O próprio Jesus se considerava um judeu. Era o povo de Israel renovado e os primeiros discípulos também; Os doze apóstolos são os patriarcas da Igreja do Israel renovado. A primeira consciência era que a continuação de Israel, a perfeição, a correção de Israel. Mas uma vez que o Evangelho penetrou no mundo grego, aí Israel não significava muitas coisas para eles e então Paulo inventa outro nome. Dá às comunidades que funda nas cidades o nome de “ekklesia”, o que se traduziu por “igreja”. O que é a ekklesia? O único sentido que tem no grego é “a assembleia do povo reunido que governa a cidade”. Na prática eram as pessoas mais poderosas, mas enfim é que na cidade grega o povo se governa a si mesmo e o faz em reuniões que são “ecclesias”. Paulo não dá nenhum nome religioso às comunidades; os vê como um grupo destinado a ser a animação. A mensagem de transformação de todas as cidades, de tal maneira que estão constituindo o começo de uma humanidade nova. E é uma humanidade onde todos são iguais, todos governam a todos. Depois vem a Carta aos Efésios em que se fala da Igreja como tradução de “kahal” dos judeus, ou seja, é o novo Israel. E a ecclesia é aí também o novo Israel. Ou seja, todos os discípulos de Jesus unidos em muitas comunidades, mas não unidos institucionalmente, mas unidos pela mesma fé. Todos constituem a “ecclesia”, a grande Igreja que é o corpo de Cristo. Ainda não existem instituições.

Mas, naturalmente, não podia continuar assim. Os judeus que aceitaram o cristianismo não abandonaram todos o judaísmo. E quando o número de cristãos cresceu, o número de comunidades, ali começaram a penetrar algumas estruturas. No tempo de Paulo ainda não há presbíteros, mesmo que São Lucas diga o contrário. Mas São Lucas não tem nenhum valor histórico; isso todo o mundo já sabe. Atribui a Paulo o que se fazia em seu tempo. Então imagina que Paulo fundou presbíteros, conselhos presbiterais. Como se justificaria um bispo sem ordenar sacerdotes? Então, parece evidente um começo de separação ainda muito simples, porque ainda não há sacralidade, não há nada sagrado. Os presbíteros não são sagrados, assim como os presbíteros das sinagogas não eram sagrados. Eles tinham uma função, uma missão de governo, de administração, mas não uma função ritual, ou uma função de ensino de uma doutrina.

Depois apareceram os bispos. No final do século II se estima que o esquema episcopal esteja generalizado, mas demorou bastante. Clemente de Roma, quando publica e escreve sua Carta aos Coríntios, diz “presbíteros”, o que não é bispo. Ainda em Roma não há bispo, só presbíteros. Mas se organizou o esquema episcopal. É provável que para as lutas contra as heresias, contra o gnosticismo, se necessitasse de uma autoridade mais forte, para poder enfrentar o gnosticismo e todas as novas religiões sincréticas que aparecem naquele tempo.

E a Igreja como instituição universal, quando aparece? Houve, no século III, Concílios regionais: bispos de várias cidades que se reuniam. Mas uma entidade para institucionalizar tudo não existia. Quem inventou esta Igreja universal foi o imperador Constantino. Ele reuniu todos os bispos que havia no mundo com viagens pagas por ele, alimentação também paga por ele, e toda a organização do Concílio foi dirigida pelo imperador e os delegados do imperador. Isto constitui um precedente histórico. Até hoje não estamos livres disso: que a Igreja universal como instituição tenha nascido com o imperador.



Depois, na história ocidental caiu o imperador romano e então progressivamente o papa conseguiu chegar à função imperial. Houve muitas lutas na Idade Média entre o papa e o imperador, mas sempre o papa se estimava superior ao imperador. Nas cruzadas, o papa era generalíssimo de todos os exércitos cristãos. Era uma personalidade militar – comandante em chefe do exército cristão. E dentro da linha dos Estados pontifícios, isto ainda se mantém.

Quando o papa perdeu o poder temporal, reforçou seu poder sobre as Igrejas: e governa as igrejas como um imperador, ou seja, todos os poderes são centralizados em uma única mão e com todas as vantagens de uma corte. Por que se não há nada de democracia na Igreja, quem são aqueles que orientam o papa? A corte! Os cortesãos, os que estão ali próximos. Claro que ele não pode fazer tudo, mas enfim uma corte separada do povo cristão. Ainda estamos sofrendo as consequências daquilo. O Papa Paulo VI disse em alguns momentos que realmente teria que mudar a função atual do Papa, ou seja, o que o Papa faz. João Paulo II na “Unum sint” disse também que é preciso dar-se conta de que o grande obstáculo no mundo de hoje é essa concentração de todos os poderes no Papa. Seria preciso encontrar uma outra maneira de exercer isso. Isso para dizer que tudo isto pertence à religião.



Tarefa da teologia: no Evangelho e na religião

A partir disso, qual é a tarefa da teologia? É complexa, justamente porque tem uma tarefa no Evangelho e uma tarefa na religião. A teologia foi durante séculos a ideologia oficial da Igreja. Seu papel era justificar tudo o que a Igreja diz e faz com argumentos bíblicos, com argumentos da tradição, liturgia, e um monte de coisas que eu aprendi quando estava no seminário. Claro que não acreditava nisso (risos), mas a maioria ainda crê nisso. Então, o que acontece?

Primeira tarefa: o que diz o Evangelho?

Primeira tarefa: o que diz o Evangelho? O que é de Jesus? O que é penetração do judaísmo, de outra cultura, de outro tipo de religião? O que vem de Jesus segundo o Novo Testamento? Todo o Novo Testamento não vem de Jesus? Não, as Epístolas pastorais que falam, por exemplo, dos presbíteros, isso não vem de Jesus. Então, a tarefa da teologia consistirá em dizer o que é de Jesus, o que realmente quis, o que realmente fez e em que consiste realmente o seguimento de Jesus.

Vendo a história, quais foram as manifestações, onde, em formas diferentes – porque as situações culturais eram diferente –, onde podemos reconhecer a continuidade dessa linha Evangélica? Porque se quisermos penetrar no mundo de hoje e apresentar o cristianismo ao mundo de hoje, tudo o que é religioso não interessa. O que pode interessar é justamente o Evangelho e o testemunho evangélico. Ninguém vai se converter pela teologia. Você pode fazer todas as melhores aulas, ninguém vai se fazer cristão por causa da teologia. Por isso, me pergunto: por que nos seminários se crê que a formação sacerdotal é ensinar a teologia? Eu não entendo, não entendo. Não há outra coisa necessária para evangelizar? Não é muito mais complexo? Por isso faz 30 anos que decidi, na presença de Deus, nunca mais trabalhar em seminários (risos).


Então, a linha evangélica é essa – São Francisco. São Francisco era um extremista. Não queria que seus irmãos tivessem livros: nada de livros. Com o Evangelho basta, não se necessita nada mais. Ele próprio dizia: “Eu, o que ensino, não aprendi de ninguém, nem do papa; o aprendi de Jesus diretamente, por seu Evangelho”. Bom, isso é o que pode convencer o mundo de hoje que está em uma perturbação completa e que se afasta sempre mais das Igrejas institucionais antigas, tradicionais. Quase todas as grandes religiões nasceram entre os anos 1.000 e 500 antes de Cristo, salvo o Islã que apareceu depois, mas que é um ramo da tradição judeu-cristã.

O que fazer com a religião?

Segundo, a religião. O que fazer com a religião? É preciso examinar em todo o sistema de religião, o que ajuda, o que realmente ajuda a entender, a compreender, a agir segundo o Evangelho. Isso terá nascido por inspiração do Espírito em monges, por exemplo? Se você olha a vida dos monges do deserto no Egito, isso não é uma mensagem. Não é uma mensagem e também não vem do Evangelho. Ou seja, muitas coisas vêm não se sabe de que tradição, talvez pode ter sido do budismo ou outras coisas assim. Então, examinar o que é o que ainda vale hoje, e sinceramente.

Jesus não instituiu 7 sacramentos. Até o século XII se discutia se eram 10, 7, 5, 9, 4. Não havia acordo. Finalmente, decidiram que havia 7. Bom, por motivos dos 7 dias do Gênesis, 7 planetas, o número 7... mas há coisas que visivelmente já não falam para as pessoas de hoje. Por exemplo, o sacramento da penitência com confissão a um sacerdote. Quantos se confessam atualmente? Há 20 anos, eu atendia na Semana Santa, em uma paróquia popular, 2.000 confissões, e o pároco outras tantas. Atualmente, 20, 30, ou seja, as pessoas já não respondem mais. Isso foi definido no século XII, XIII. Por que manter algo que já não tem nenhum significado e, ao contrário, provoca muita recusa? Ou seja, que alguém necessite falar com alguém, que o pecador goste de falar com alguém, mas não justamente ao sacerdote. Há muitas pessoas, muitas mulheres, que podem exercer esse ofício muito melhor, com mais equilíbrio, sem atemorizar como fazem os sacerdotes. Isso é uma coisa.

Mas há um monte de coisas que é necessário revisar porque não tem futuro. É inútil querer defender ou manter algo que já é obstáculo para a evangelização e que não ajuda absolutamente em nada. Nas liturgias há muitas coisas que mudar. A teoria do sacrifício foi introduzida pelos judeus, naturalmente. No templo se oferece sacrifícios, os sacerdotes são pessoas sagradas que oferecem o sacrifício. Toda essa teoria, atualmente não significa absolutamente nada. Que o padre seja dedicado ao sagrado para oferecer o sacrifício e que a Eucaristia seja um sacrifício, tudo isto vem de Jesus? Ah, não vem de Jesus. Então, é preciso ver se isso vale ou não vale. Para que manter algo que não vale?

E depois há também a outra parte: o que não ajuda, o que tem sido infiltração de outras tendências, outras correntes. Por exemplo, a vida ascética dos monges irlandeses. A Irlanda foi a ilha dos monges. Ali os bispos não tinham autoridade. Serviam apenas para ordenar sacerdotes, mas para as outras coisas podiam descansar. Quem mandava eram os monges. Os mosteiros eram os centros, o que é a diocese atualmente. Esses monges irlandeses viviam uma vida ascética, mas tão extraordinariamente desumana para nós que isso é impossível que venha de Jesus, é impossível que isso ajude, porque esses homens ali eram super-homens, mas não existem mais homens assim hoje. Um exercício de penitência que faziam, por exemplo, era entrar no rio – na Irlanda os rios são frios – e ficar nu para rezar todos os salmos (risos)... Essa maneira de entender a vida, não, não devemos considerar que isso seja cristão. Também não é marca de santidade. Não é assim que a santidade se manifesta. Examinar tudo o que vem de lá.

Todas as congregações femininas sabem o quanto é preciso lutar para mudar costumes, tradições que não são evangélicos. Quantos debates! Eu conheço uma série de congregações femininas e quanto tempo se gasta em discussões, disputas entre aquelas que querem conservar tudo e aquelas que querem abandonar o que não serve mais e encontrar outro modo de viver mais adaptado à situação atual! Então, a tarefa da teologia, claro que é mudar, isso muda a tradição, deixa de ser a ideologia de todo o sistema romano, mas essa não tem futuro. Esse tipo de teologia já faz tempo que foi progressivamente abandonado.

Na América Latina apareceu algo. Conhecemos um novo franciscanismo, ou seja, uma nova etapa, mas radical, de vida evangélica. Quando nasceu? Falei dos bispos que participaram disso e que animaram Medellín e da opção pelos pobres, dos santos padres da América Latina. E vocês os conhecem. Se for preciso marcar a origem do novo evangelismo da Igreja latino-americana, eu diria – não se esqueçam – dia 16 de novembro de 1965. Nesse dia, em uma catacumba de Roma, 40 bispos, a maioria latino-americanos, incitados por Helder Câmara, se juntaram e assinaram o que se chamou de “Pacto das Catacumbas”. Ali se comprometeram a viver pobres, na alimentação. Se comprometeram e, de fato o fizeram depois, uma vez que chegaram às suas dioceses. E depois, priorizar em todas as suas atividades o que é dos pobres, ou seja, deixando muitas coisas para se dedicar prioritariamente aos pobres e uma série de coisas que vão no mesmo sentido. Foram eles que animaram a Conferência de Medellín. Ou seja, nasceu aqui.

E tiveram um contexto favorável. O Espírito Santo já naquele tempo havia suscitado uma série de pessoas evangélicas. As Comunidades Eclesiais de Base já tinham nascido. Já havia religiosas inseridas nas comunidades populares. Mas, eram poucos e se sentiam um pouco marginalizados no meio dos outros. Medellín lhes deu como que legitimidade e ao mesmo tempo uma animação muito grande, e se expandiu. Foi toda a Igreja latino-americana? Claro que não. Sempre é uma minoria. Um dia, me lembro, um jornalista perguntou ao cardeal Arns – um santo, com quem vivemos muito boas relações de amizade: “você, senhor cardeal, aqui em São Paulo tem muita sorte, toda a Igreja se fez Igreja dos pobres, as monjas todas a serviço dos pobres, que coisa magnífica!”. Aí, Dom Paulo disse: “Sim, pois, aqui em São Paulo 20% das religiosas foram às comunidades pobres; 80% ficaram com os ricos”. Era muito. Atualmente, não há 20%.

Isto foi uma época de criação, uma dessas épocas em que há, às vezes, na história com uma efusão muito grande do Espírito. Mas temos que viver essa herança. É uma herança que é preciso manter, conservar preciosamente porque isso não vai reaparecer. Às vezes me perguntam: Por que hoje os bispos não são como naquele tempo? Porque aquele tempo foi uma exceção, ou seja, na história da Igreja é exceção. De vez em quando o Espírito Santo manda exceções.

E quem vai evangelizar o mundo de hoje? Para mim, são os leigos. E já aparecem muitos grupinhos de jovens que justamente praticam uma vida muito mais pobre, livre de toda organização exterior, vivendo em contato permanente com o mundo dos pobres. Já existem. Haveria mais se se falasse mais, se fossem mais conhecidos. Pode ser uma tarefa também auxiliar da teologia: divulgar o que está realmente acontecendo, onde o Evangelho está sendo vivido neste momento, para dá-lo a conhecer, para que se conheçam mutuamente, porque do contrário podem perder ânimo ou não ter muitas perspectivas. Uma vez que se unam, formem associações, cada qual com sua tendência, seu modo de espiritualidade. Não espero muito do clero. Então é uma situação histórica nova.

Mas acontece que os leigos deixaram de ser analfabetos; isso já faz tempo. Eles têm uma formação humana, uma formação cultural, uma formação de sua personalidade que é muito superior ao que se ensina nos seminários. Ou seja, têm mais preparação para agir no mundo, mesmo que não tenham muita teologia. Se poderia dar mais teologia, mas isso é outro assunto. Agora, não vamos pensar que amanhã quem vai colocar em prática o programa de Aparecida serão os sacerdotes. Eu não conheço tudo, mas levando em conta os seminários que eu conheço, as dioceses que eu conheço, seriam necessários 30 anos para formar um clero novo. E quem vai formá-lo? Para os leigos é diferente. Há muitíssimas pessoas dispostas, e pessoas com formação humana, com capacidade de pensar, de refletir, de entrar em relação e contatos, de dirigir grupos, comunidades... Mas muitos ainda não se atrevem, não se atrevem. Mas aí está o futuro.

Para terminar, uma anedota: me chamaram para ir a Fortaleza, no nordeste do Brasil. Atualmente, Fortaleza é uma cidade muito grande – um milhão de habitantes. A Santa Sé havia afastado, marginalizado o cardeal Aloísio Lorscheider, mandando-o ao exílio em Aparecida, que é um lugar de castigo para os bispos que não agradam. Então, veio um sucessor, Dom Cláudio Hummes, que agora é cardeal em Roma. Cláudio Hummes suprimiu tudo o que havia de social na diocese, despediu todos: 300 pessoas com a longa trajetória de serviço, com capacidade humana. Um dia me chamaram: eram 300, chorando, lamentando: “e agora não podemos fazer nada. E agora, o que vai acontecer?”. Eu lhes disse: “mas, vocês são pessoas perfeitamente humanizadas, desenvolvidas, com uma personalidade forte. Tiveram êxito em sua família, tiveram êxito em suas carreiras, em seus trabalhos profissionais. Do que agora se preocupam se o bispo quer ou não quer? Por que se preocupam se o pároco quer ou não quer? Vocês têm formação suficiente e a capacidade. Por que não agem, não formam uma associação, um grupo, de forma independente? Porque o Direito Canônico – o que muitos católicos não sabem – permite a formação de associações independentes do bispo, independentes do pároco. Isso não se ensina muito nas paróquias, mas é justamente algo que é importante. Então, vocês podem muito bem reunir 4, 5 pessoas para organizar um sistema de comunicação, um sistema de espiritualidade, um sistema de organização de presença na vida pública, na vida política, na vida social: 300 pessoas com esse valor. Se paga, tem que pagar a 5, cada um vai gastar nem sequer 2% do que ganha, ou seja, podem muito bem manter 5 pessoas dedicadas a isso. E vão escolhê-los entre 25 e 30 anos porque essa é a época criativa. Até os 25 o ser humano se busca. A partir deste momento termina seus estudos e já conseguiu um trabalho. Então já quer definir sua vida: estes são os que têm capacidade de inventar. Todas as grandes invenções se deram por gente com essa idade”. Mas não o fizeram. Por quê? O que acontece? Por que tanta timidez? “Vocês que são tão capazes no mundo, na Igreja nada!” Não se sentiam capazes, necessitavam do bispo que lhes dissesse o que fazer, necessitam de sacerdotes que lhes digam o que fazer. Como é possível? Certamente, não se lhes ensinou. Podem ser adultos na vida civil e crianças na vida religiosa.

Mas nós podemos! Nós podemos fazê-lo e multiplicá-lo em todas as regiões que vamos conhecer. Então, o futuro depende de grupos de leigos semelhantes, que já existem mesmo que ainda estejam muito dispersos. O futuro está aí, é tarefa de todos, começando pelos jovens. No Brasil há neste momento seis milhões de estudantes universitários. Dois milhões, são de famílias pobres – são pobres os que ganham menos de três salários mínimos, porque com menos disso não se pode viver decentemente. Dois milhões. E qual é a presença do clero? Pouquíssima. Alguns religiosos. Das dioceses? Nada. E ali está o futuro. São jovens que estão descobrindo o mundo. Claro, há alguns que entram no mundo das drogas, que se corrompem, mas é uma minoria. Ou seja, o conjunto são pessoas que querem fazer algo na vida. Se não conhecem o Evangelho não vão viver como cristãos. É preciso explicar, mas não explicar com cursos de teologia, mas explicar fazendo, participando de atividades que de fato são realmente serviços aos pobres. Isso é possível fazer.

Tarefa da teologia. Então será preciso mudar um pouquinho: menos acadêmico, mais orientado para o mundo exterior... com todos os que não estão mais na rede de influxo da Igreja, que não recebem. Mas, presença nisso. E uma teologia que se possa ler, sem ter formação escolástica, porque anteriormente se não se tinha formação aristotélica não se podia entender nada dessa teologia tradicional. Bom, a filosofia aristotélica morreu, ou seja, os filósofos do século XX a enterraram. Agora temos liberdade para ver no mundo como nos abrimos.


Obrigado pela atenção de vocês (aplausos).


Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

‘A sagrada herança de Ir. Dorothy precisa ser defendida e multiplicada’


Entrevista especial com Zenilda Petry, Margarida Pantoja e Jane Dwyer.

"Um martírio é sempre gerador de ressurreição”. É com essas palavras de entusiasmo e esperança que a presidente da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) – Regional de Belém, Pará, Ir. Zenilda Petry, lembra os seis anos do falecimento da missionária católica Dorothy Stang, assassinada em 12 de fevereiro de 2005, depois de sofrer diversas ameaças de morte de grileiros e madeireiros da região. Dorothy foi morta com tiros a queima-roupa, aos 73 anos de idade, em Anapu.

Embora o martírio da Ir. Dorothy tenha evidenciado "ainda mais a força e a ganância cobiçosa de grupos e pessoas movidas por projetos opostos, por outro lado, esta morte despertou também a consciência, talvez um tanto adormecida de muitas pessoas. Isto resultou em resistência, solidariedade e certeza do caminho a prosseguir daquelas famílias e de uma rede maior de solidariedade. Igualmente, fortifica o povo de Anapu”, constata Zenilda, em entrevista à IHU On-Line concedida por e-mail.

Ir. Jane Dwyer trabalha na Comissão Pastoral da Terra (CPT) e conviveu com Dorothy em 2005. Hoje, ela acompanha as famílias nos PDS, em Anapu, e diz que a situação na região é complicada. "Em 2010, tentaram tomar conta do projeto, desfazer o PDS e aproveitar a madeira para fins pessoais. (...) No Pará é difícil a lei ser observada e comprida. O poder local se une com o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais, cujo tesoureiro é também o presidente da Câmara Municipal. O poder público, junto com o sindicato, aliou-se com os madeireiros do município, principalmente o vice-prefeito, que é madeireiro e fazendeiro”.

Ir. Margarida Pantoja, coordenadora do Comitê Dorothy Stang, também conversou com a IHU On-Line, por e-mail, e se diz motivada e impotente, seis anos após o martírio da amiga. "Ir. Dorothy não é para ser lembrada; é para ser imitada. Ela nos deu lições de organização, parceiras, persistência. (...) Impotente. Sim, impotente por perceber que ainda temos pessoas praticando a exploração ilegal de madeira sem uma preocupação com o futuro do planeta”.

Na semana passada, religiosos e religiosos de Anapu e cidades da região participam de celebrações e atividades em memória à morte de Ir. Dorothy Stang. A programação completa está disponível nesta página.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A senhora conheceu pessoalmente Ir. Dorothy ou trabalhou com ela?

Zenilda Petry – Sim, conheci Ir. Dorothy já no período final de sua vida, quando vinha sofrendo ameaças de forma mais permanente e sistemática. A sua atuação em Anapu era partilhada por suas colegas de Congregação que atuavam na mesma comunidade onde eu vivia na época. Nas suas diversas vindas a Belém, fui conhecendo-a e me inteirando do significado de sua vida e missão em Anapu.

IHU On-Line – Que imagem guarda dela?

Zenilda Petry – De uma mulher consagrada convicta e feliz. Com seu olhar voltado sempre para a defesa da vida dos pobres, da luta pela dignidade e cidadania dos despossuídos, ela encarnou um modo de ser e de viver de forma totalmente despojada que deixava a gente até constrangida e questionada. Despojamento e simplicidade, aliada a uma alegria permanente e uma fé inquebrantável são traços de sua imagem que guardo.

IHU On-Line - Qual é a atual situação do PDS Esperança, hoje, seis anos após a morte da Ir. Dorothy Stang?

Jane Dwyer – A situação do PDS Esperança está precária. No ano 2009, o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais, com o apoio da prefeitura local, fez uma intervenção na Associação do PDS Esperança, desmontando toda sua diretoria eleita e os trabalhos que vinham sendo feito durante estes últimos anos. Até dezembro de 2009, não havia invasão de madeireiro no PDS. O povo caminhava e trabalhava junto.
Sem conhecimento da diretoria do PDS, em 2010, tentaram tomar conta do projeto, desfazer o PDS e aproveitar a madeira para fins pessoais. O PDS Esperança tem mais de 15 mil hectares de floresta virgem, com madeiras nobres e boas. O solo também é o melhor em Anapu, próprio para cacau. Além do mais, é limite com a floresta do PDS, a floresta da Trincheira Bacaja, ou seja, terras indígenas. O PDS Esperança dá acesso a esta floresta indígena e, devido à invasão que acontece desde dezembro de 2009, a floresta também está invadida.

IHU On-Line – Quais são as maiores dificuldades encontradas por vocês para dar continuidade ao projeto de desenvolvimento sustentável na floresta?

Jane Dwyer – Falta de apoio do Incra, do Ibama, do Sema e de autoridades federais, estaduais e locais. O ano 2010 foi o primeiro em que o Incra realmente conseguiu tomar uma posição eficiente e em favor do povo na superintendência de Santarém, dando apoio aos seus técnicos no trabalho de Anapu.

No Pará é difícil a lei ser observada e comprida. O poder local se une com o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais, cujo tesoureiro é também o presidente da Câmara Municipal. O poder público, junto com o sindicato, aliou-se com os madeireiros no município, principalmente o vice-prefeito que é madeireiro e fazendeiro. Os assentados que defendem o Projeto de Desenvolvimento Sustentável Esperança se confrontam então com madeireiros, a direção do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais, o presidente da Câmara Municipal e a Prefeitura.

Margarida Pantoja – Um sonho do tamanho do "Sonho de Dorothy” precisa da implementação ágil de políticas públicas voltadas para o campo da região Amazônica; precisa de estradas em boas condições; de equipamentos e capacitação para desenvolver a agricultura com qualidade. Isto só para citar algumas dificuldades existentes que há para quem quiser levar adiante este grande sonho.

Em Anapu, houve ainda a cooptação e a divisão dos trabalhadores dos PDS e, acima de tudo, a impunidade. Insisto com isto, pois, acredito que, se os culpados diretos e indiretos dos assassinatos de Dorothy, Adelaide, Dema, Dezinho e muitos outros tivessem sido investigados profundamente, eles teriam ajudado a destruir o consórcio que ainda amedronta e ameaça as pessoas impedindo-as de realizar o grande sonho da Ir. Dorothy.

IHU On-Line – Qual sua avaliação dos conflitos ocorridos recentemente no PDS Esperança?

Jane Dwyer – Acompanhamos um grupo de 40 famílias que realmente entendem, abraçam e defendem o Projeto de Desenvolvimento Sustentável Esperança – entendido no Incra como um "jeito amazônico de fazer a reforma agrária”. Estas famílias fecharam a vicinal que dá entrada ao PDS Esperança. Empatou somente a entrada e saída de caminhões madeireiros. Houve uma audiência pública patrocinada e dirigida pela Ouvidoria Agrária Federal, 25 de janeiro em Anapu.

As decisões apóiam a posição e as reivindicações dos assentados do PDS que ainda estão acampados na beira da estrada. Ficarão no acampamento até a construção das guaritas empatada a passagem de caminhões madeireiros. Nossa avaliação é que as autoridades competentes do Incra de Anapu, de Santarém e Federal, o mistério Público Federal e as autoridades todas que acompanharam o ouvidor agrário, Gercino, deram apoio aos assentados e suas reivindicações. Este apoio ainda está no papel. O povo espera e trabalha para que este apoio se tornar realidade.

IHU On-Line – Em que sentido o martírio de Ir. Dorothy tem sido um símbolo de resistência e perseverança para a população de Anapu?

Zenilda Petry – A população de Anapu, como todas as populações, é constituída de pessoas com visões e compreensões diversificadas. Em se tratando do grupo de famílias que aderiu à mística do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS), o martírio de Ir. Dorothy evidenciou ainda mais a força e a ganância cobiçosa de grupos e pessoas movidas por projetos opostos. Por outro lado, esta morte despertou também a consciência, talvez um tanto adormecida de muitas pessoas. Isto resultou em resistência, solidariedade e certeza do caminho a prosseguir daquelas famílias e de uma rede maior de solidariedade. Igualmente, fortifica o povo de Anapu. Um martírio é sempre gerador de ressurreição. Ir. Dorothy foi assassinada, mas está muito viva na vida de quem comunga de seu sonho.

IHU On-Line – Há outros religiosos ameaçados de morte no Pará?

Zenilda Petry – Quem continua a luta de Ir. Dorothy em Anapu sofre ameaças, difamações e fortes oposições. Em todos os lugares onde há conflitos de terras, existência de trabalho escravo, implantação de grandes projetos de barragens e mineradoras, madeireiras e agronegócio e há pessoas da Igreja, bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos, lideranças leigas que se opõem, as ameaças de morte são permanentes. Há uma lista muito grande de pessoas ameaçadas de morte.


IHU On-Line – Quais são os principais desafios pastorais na região?

Zenilda Petry – Como em todas as regiões do Brasil, os desafios pastorais, neste tempo que se chama hoje, são muito grandes. Nossa sociedade sempre mais distanciada dos valores evangélicos, seduzida pelo consumismo, individualismo, competição, lucro, vive a dimensão religiosa mais voltada para um sentir emocional. Nossa região vive este desafio de uma verdadeira e renovada evangelização, com os agravantes da realidade: distâncias geográficas, dificuldade de acesso, populações isoladas, escassez de agentes de pastoral e tantas outras. Há, porém, muita vida que circula em meio a estes desafios. Deus continua a passear com a mulher e o homem na "brisa da tarde” (Gn 3,8) neste imenso paraíso Amazônico. O que continua ocorrendo é que a nudez de valores evangélicos leva a muitos a se esconderem da presença do divino (cf Gn 3,8).


IHU On-Line – Qual seu sentimento, seis anos após a morte de Ir. Dorothy?

Zenilda Petry – Um sentir renovado de que a sagrada herança de Ir. Dorothy precisa ser defendida e multiplicada. Esta morte não foi em vão. Os tiros emblemáticos que tiraram sua vida continuam a ecoar.

Uma bala assassina atingiu sua cabeça, outra seu peito e outra seu ventre. Tentaram matar suas ideias, seu modo de amar e sentir, sua forma de gerar vida. Esta herança precisa ser cultivada: pensar além dos horizontes da ordem estabelecida, cultivar sentimentos de bondade, de gratidão, de generosidade, gerar formas novas de organização social e religiosa.

Margarida Pantoja – Motivada. Acho que temos motivos para celebrar, fazer memória. Afinal, esta mulher deixou um legado de esperança e ousadia! Ir. Dorothy não é para ser lembrada, é para ser imitada. Ela nos deu lições de organização, parceiras, persistência.

Impotente. Sim, impotente por perceber que ainda temos pessoas praticando a exploração ilegal de madeira sem uma preocupação com o futuro do planeta. Não percebem que o hoje compromete o futuro de seus netos e gerações futuras.

IHU On-Line – Qual a importância de recordar a morte de Ir. Dorothy?

Zenilda Petry – Recordar é trazer novamente ao coração (re+cordar); é fazer memória viva e afetiva de algo ou de alguém que soube intuir o coração da existência, que soube colocar seu projeto nas estrelas, que penetrou no mistério mais profundo do ser e do fazer. Recordar a morte de Ir. Dorothy é fazer memória de sua trajetória e de sua ação em defesa da vida de tudo e de todos.

Margarida Pantoja – Dorothy Stang é símbolo de luta e resistência, celebrar sua memória é, portanto, gritar ao mundo que ainda existem pessoas que apostam em seus sonhos e acreditam na possibilidade de uma Amazônia ambientalmente sustentável.



IHU On-Line – O que a Igreja e a sociedade podem aprender a partir da luta de Ir. Dorothy?

Margarida Pantoja – Eu sempre me surpreendo com a capacidade organizacional de Dorothy e posso até pontuar algumas características que acho bem importante para a sociedade e a Igreja. São elas:

1. Mapeou toda área de seu interesse e andava com estes mapas sempre em sua "boroca” (sacola de pano).

2. Fez levantamento dos possíveis donos dos lotes, descobriu onde havia grilagens e denunciou aos órgãos competentes.

3. Não trabalhava sozinha.

4. Descobriu o Projeto, Plano de Desenvolvimento Sustentável – PDS, que foi elaborado pelo governo FHC. Portanto, PDS não é invenção de Dorothy, é coisa de governo, pensado por uma equipe técnica. Ela descobriu isso que estava guardadinho em algum lugar e fez o governo executá-lo.

5. Escrevia tudo que acontecia, mesmo documentos, tudo com sua letrinha trêmula de idosa, mas, "tá tudo lá registrado, pra quem quiser ver e comprovar”, até citando nomes de seus algozes com muita antecedência.

6. Informava aos interessados toda caminhada feita pelo seu povo e pelos fazendeiros e madeireiros.

7. Ia à delegacia, ao Ibama, no MPF e estadual e onde pudesse denunciar os crimes.

8. Fazia parcerias com entidades e pessoas estratégicas para suas lutas e para realizar seus sonhos.

9. Sempre se colocava ao lado do povo e do meio ambiente.

10. Andava somente com o necessário em suas viagens.

11. Conhecia muito bem o alvo de sua luta.

12. Era minuciosa em suas anotações.

13. Era uma grande mística que, aliada a seu espírito de luta, fez dela uma grande mulher, soube unir ação e oração.


IHU On-Line – Como vê a continuidade do trabalho de Dorothy em prol dos trabalhadores e do meio ambiente?

Margarida Pantoja – A Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Anapu, as Irmãs de Notre Dame de Namur (congregação da qual Dorothy participava), os trabalhadores e trabalhadoras dos PDS, e tantas pessoas que continuam acreditando neste sonho dorothyano traçam um novo perfil. Agora não só há uma Dorothy, mas agora "todos somos Dorothy”. Portanto, a continuidade deste trabalho é fundamental para que se garanta de fato a vida saudável no planeta e a dignidade para as gerações futuras, não só humanas mas de todos os seres vivos. Anapu precisa de nossa solidariedade, de nosso apoio, de nossa assinatura nas horas de colher assinaturas para cobrar direitos.

Enfim, Dorothy "trabalhou em movimentos sociais no Pará com projetos de desenvolvimento sustentável, ultrapassando as fronteiras do município de Anapu, ganhando reconhecimento nacional e internacional”. A continuidade desta missão está acontecendo de forma muito mais ágil, porque a causa ganhou centenas de milhares de adeptos no mundo inteiro. Por isso, Dorothy vive sempre, sempre, sempre.

Fonte: www.ihu.unisinos.br

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Ante os novos fascismos que estão em marcha


A indiferença

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.


Bertolt Brecht


Carta sobre Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa



Caros irmãos e irmãs, Paz e bem! A parábola do Bom Samaritano ajusta-se bem à reflexão sobre "quem é o meu próximo". Nesta parábola, Jesus quis demonstrar que a caridade, a salvação da alma independe do credo religioso que se professa. O que importa é auxiliar o próximo, independentemente dele professar ou não a nossa religião.

Na história das grandes religiões monoteístas -cristianismo, islamismo e judaísmo- temos momentos de convivência harmoniosa e respeitosa, mas também períodos de grande intolerância e violência, seja entre as diversas religiões, ou mesmo no contexto intra-religioso. A humanidade tem passado por grandes transformações, mas estas não conseguiram superar o preconceito e a intolerância. O respeito às diferenças é fundamental. Como diz Aristóteles, enquanto o respeito constitui uma virtude que nunca pode pecar por excesso, porque quanto mais respeito se tem mais se ama, a tolerância é o exemplo de uma virtude que se obriga ao meio termo porque, em excesso, resulta em indiferença, e, em falta, traz o sabor da intolerância.

No século XX, ocorreram muitas guerras e conflitos religiosos, e o holocausto sofrido pelos judeus manchou indelevelmente a história da humanidade com o manto da intolerância. No mundo globalizado do século XXI, o preconceito e a intolerância se apresentam em novas formas, procurando legitimação sob o manto de luta contra o terrorismo. Os movimentos de migrações humanas, em que vemos inúmeros campos de refugiados espalhados pelo mundo, nos colocam frente a frente com a crise do modelo econômico capitalista, que aumenta a desigualdade social, e amplia a tensão entre diferentes culturas. Neste contexto, aparece um campo minado no qual os preconceitos e intolerâncias se potencializam e crescem.

No Brasil a situação não é diferente. Sofremos o impacto das transformações que ocorrem no mundo, e carregamos ainda uma enorme dívida social e histórica, que juntos geram o preconceito de classe e a discriminação racial. Nestas condições, o preconceito e a intolerância tendem a se perdurar nos mais variados espaços: no trabalho, nas escolas, nas universidades, nos meios de comunicação em geral e, infelizmente, também dentro dos vários segmentos religiosos.






O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado no dia 21 de janeiro, quer contribuir para transformar esta realidade. De acordo com o IBGE, os brasileiros se declaram praticantes de mais de 30 religiões diferentes. A diversidade é uma das nossas grandes riquezas e precisamos estimular na sociedade a convivência pacífica dentro das diferenças religiosas. Infelizmente, desde a colonização, quando os negros foram trazidos à força como mão-de-obra escrava para o Brasil, e seus valores, sua cultura e sua religião lhes foram arrancadas, ou quando os judeus, fugindo da Inquisição na Europa, foram obrigados a se converter ao cristianismo, tendo de adotar o Brasil como pátria, que convivemos com a intolerância religiosa em nosso país. Cristo pregou o amor ao próximo e podemos afirmar, como cristãos, que a base da tolerância está calcada na figura de Cristo, que nos passou todos os ensinamentos de como amar o próximo como a nós mesmos. Ao renunciar a si mesmo em favor da humanidade, ele nos deu o exemplo do que devemos fazer. Em suas pregações, nos alerta de que devemos ser severos para conosco mesmos e indulgentes para com o próximo, e não o contrário.

A intolerância religiosa ainda está presente no cotidiano de milhões de brasileiros e brasileiras, e deve ser denunciada e combatida. Não podemos permitir, que em nome de Deus, perseguições e desrespeito à dignidade humana sejam perpetrados. O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil quer conclamar toda a sociedade e religiões do Brasil a celebrar, no próximo dia 21 de janeiro, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Somos chamados a colocar em prática o mandamento de Jesus de amar teu próximo como a ti mesmo. Em assim fazendo, estaremos ajudando a construir um futuro melhor e mais inclusivo para todos, em que a diversidade religiosa seja respeitada e garantida para todas as pessoas.

Rev. Luiz Alberto Barbosa

Secretário Geral Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil

fonte: www. noticias.cancaonova.com

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Alterações podem enfraquecer Lei Maria da Penha

No fim de 2010, a Lei Maria da Penha voltou a figurar nos noticiários e rodas de conversa com a aprovação de projetos de lei que modificam seu texto em duas comissões da Câmara dos Deputados. Um dos projetos afirma que a Lei se aplica para namorados. O outro estabelece que não é necessário o pronunciamento da vítima para que os agressor seja processado por crimes de lesão corporal leve.

Ambos tentam sanar falhas que não estão no texto da Lei, e sim na forma como ela vem sendo aplicada pelos operadores de direito.

No âmbito do Poder Judiciário, observamos comportamentos díspares: alguns juízes são grandes aliados das mulheres, enquanto outros se recusam a aplicar a Lei e continuam a classificar a violência doméstica como "crime de menor potencial ofensivo”. Esta negligência coloca a vida das mulheres em risco e desrespeita direitos assegurados.

Decisões recentes do Superior Tribunal de Justiça (STJ) têm sido favoráveis para o cumprimento da Lei. Além disso, o Ministério Público Federal impetrou uma ação com o objetivo de determinar que o crime de lesão corporal contra mulheres não exija pronunciamento da vítima para prosseguimento da ação penal. A matéria aguarda apreciação do Supremo Tribunal Federal.

A resistência que a Lei Maria da Penha enfrenta em alguns tribunais tem motivado a apresentação de um sem-número de projetos de lei. Atualmente, o CFEMEA acompanha 23 projetos com este teor que tramitam no Congresso Nacional. Produzidos às pressas, após casos de grande repercussão ganharem a mídia, a maioria deles é redundante e não alteraria em nada o funcionamento da Lei. Alguns propõem retrocessos e um deles criminaliza a violência doméstica contra os homens, que não é fenômeno documentado em nossa sociedade e que já dispõe de mecanismos legais para tratar dos casos existentes.

Ao analisarmos a Lei, entretanto, notamos que seu texto é bastante completo. Por exemplo: o artigo 5º, que define violência doméstica e familiar, considera crimes cometidos: "III) em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação”. O inciso III foi inserido exatamente para que fosse possível enquadrar casos de agressão de namorados, ficantes, amantes e qualquer outra forma de relacionamento que venha a ser popularizada e na qual a violência ocorra.

Por outro lado, é notável a carência de debates e dados empíricos que orientem a produção dos projetos de lei. O texto da Lei não deixa margem para dúvidas e a resistência em aplicá-la decorre do machismo entranhado nas instituições públicas no país. Sem sua superação, a aprovação de cerca de 20 projetos inócuos certamente dará projeção midiática para alguns parlamentares, mas pode vir a minar a consolidação da Lei junto a tribunais e à opinião pública. Os novos textos voltarão a ser contestados e usados contra as mulheres.

Mais de 40% das brasileiras já sofreram violência de gênero em ambiente doméstico e familiar. A cada 15 segundos uma mulher é espancada no país. A sociedade está disposta a enfrentar o problema: segundo o IPEA, 91% da população quer que este tipo de crime seja investigado, mesmo sem a representação (queixa) da vítima; 80% afirmam que a Lei Maria da Penha pode evitar ou diminuir a violência contra as mulheres.

Milhares de pessoas já se beneficiaram dos avanços proporcionados pela Lei, mas é necessário expandir e aprimorar as políticas públicas de apoio: faltam recursos orçamentários para delegacias especializadas, casas abrigo, atendimento psicológico e jurídico, pessoal para assegurar o cumprimento das medidas protetivas, etc.

A reversão deste quadro passa pela erradicação do machismo vigente na sociedade e requer o compromisso de parlamentares, do Poder Executivo e de operadores de direito. Precisamos de recursos, não de mudanças. Neste sentido, o Parlamento pode desempenhar um papel importante no aporte de recursos orçamentários para a implementação da Lei no PLOA 2011 e no cumprimento de sua função constitucional de fiscalização do uso destes recursos.

A implementação da Lei Maria da Penha é mais urgente, e será atingida com vontade política, aumento de dotações orçamentárias e expansão de políticas públicas. Quaisquer alterações devem ser objeto de debates aprofundados, a exemplo do processo que deu origem à Lei, que contou com a participação de acadêmicas, juristas, advogadas, parlamentares e militantes feministas.


[* Ana Claudia Jaquetto Pereira é consultora do CFEMEA (Centro Feminista de Estudos e Assessoria) para Enfrentamento à Violência contra as Mulheres



Fonte:www.adital.com.br

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A biodiversidade e o feminismo. Entrevista especial com Neide Miele

Devido ao papel de mãe que assume, a mulher, no geral, é aquele que protege a biodiversidade, que tem uma relação mais íntima com o meio ambiente. Embora essa seja uma verdade, a professora Neide Miele diz que “o problema da proteção à biodiversidade não pode ser colocado mecanicamente na polaridade homem x mulher, mas na predominância de um determinado princípio sobre o outro. Neste sentido, eu diria que o princípio feminino protege mais a natureza, visto que o cuidado em relação ao outro é sua característica predominante”. Em entrevista à IHU On-Line, realizada por email, Miele analisa a compreensão que a mulher tem da biodiversidade e a forma como ela se posiciona nas decisões sobre meio ambiente e agricultura.

Miele afirma também que o ecofeminismo “é um passo importante e necessário na luta pela preservação da natureza para as futuras gerações, mas não é o objetivo final. A luta será vencida quando homens e mulheres se conscientizarem do mea culpa e se reconhecerem opressores”.

A assistente social Neide Miele é mestre em Sociologia Rural pela Universidade Federal da Paraíba e doutora em Sociologia pela Université de Picardie Jules Verne (França). Atualmente, é professora na UFPB. Entre seus livros, destacamos: Relações de Gênero – Um olhar diferente (João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2004).

Confira a entrevista

IHU On-Line – Como você vê a compreensão feminina da biodiversidade?


Neide Miele – “As mulheres sustentam metade do céu”, diz um provérbio chinês. O céu é uma totalidade sustentada por duas forças em equilíbrio, o princípio masculino e o princípio feminino. O mesmo se pode dizer do ser humano, ele também é uma totalidade. Assim como o céu, ele também é um amálgama dos princípios feminino e masculino. O problema é que o ser humano foi submetido a uma “cirurgia cultural”, da qual resultou um ser fragmentado, enfraquecido, desequilibrado, metade da totalidade que ele já foi. Homens e mulheres foram igualmente vítimas da cultura, da história, dos preconceitos sexistas.

Certamente isto se reflete na compreensão que temos hoje da biodiversidade, sejamos homens ou mulheres. Biodiversidade significa diversidade da vida, e a vida não é prerrogativa da mulher ou do homem, nem mesmo de ambos. A vida não se sustenta a não ser em contato profundo e respeitoso com a natureza, com o mundo que nos cerca. Embora óbvia, esta realidade foi sendo esquecida pelo homem ao longo da história, no seu afã de conquistar, de dominar, de possuir, não apenas a mulher mas a Mãe-natureza, e o resultado é este que temos aí: catastrófico.


IHU On-Line – As mulheres protegem a biodiversidade mais do que os homens?

Neide Miele – No geral sim, certamente devido ao seu papel de mãe, mas há que se tomar cuidado com esse tipo de resposta para não cairmos numa caricatura. Quantos de nós conhecemos mulheres capazes de matar a própria prole e homens que cuidam da mesma melhor do que uma mãe? O problema está em tomar o princípio feminino como mulher e o princípio masculino como o homem. Tais princípios são forças definidoras de aspectos da personalidade do ser humano e não podem ser confundidas com o sexo biológico.

Eles são aquilo que Carl Gustav Jung [1] definiu como anima-animus, ou seja, anima é a contraparte feminina da personalidade masculina e animus a contraparte masculina da psique feminina. Anima e animus são contrapartes que fazem da psique uma totalidade. A contraparte anima-animus poderia ser comparada a uma folha de papel, ela é o verso da folha, a parte não aparente, mas está lá e cumpre uma função.

Assim como é impossível eliminar o verso da folha de papel sem destruí-la, é impossível eliminar a contraparte da personalidade de qualquer ser humano. Entretanto, muitas vezes ocorre que a contraparte atua como parte, fazendo com que as atitudes e escolhas ganhem um caráter tido como bizarro. Nem toda mulher tem o princípio feminino como o preponderante, assim como nem todo homem é regido exclusivamente pelo princípio masculino. Observe que não estou me referindo apenas às escolhas sexuais de cada um, mas ao comportamento como um todo.

O princípio feminino é o fluido que organiza, dá forma e cuida, assim como o princípio masculino é a centelha de criação, que impõe a ordem e domina. O desvio está em considerar que o único detentor do princípio masculino é o homem, assim como o princípio feminino é exclusividade da mulher. Isso não é verdade! Por exemplo, quando a Mãe-natureza distribuiu os hormônios nos corpos humanos, ela não o fez separando: Hormônios masculinos para os homens, hormônios femininos para as mulheres. Seja homem ou mulher, circu1am no corpo de cada ser humano, hormônios femininos e masculinos. O que varia é a proporção, sendo o equilíbrio entre ambos a garantia da saúde.

Neste sentido, podemos afirmar que homem e mulher não existem. Eles são apenas uma construção cultural. Como duas faces da mesma moeda, o homem e a mulher estão para o SER, assim como o meio-dia e a meia-noite estão para o DIA, ou como as duas metades dos cromossomos estão para o DNA, ou como frente e verso estão para a folha de papel. Segundo o físico David Bohm [2], “a realidade é um inteiro não dividido”. Esta maneira de conceber a realidade exige que ultrapassemos a velha noção de homem versus mulher para enxergarmos o SER HUMANO, único. Sob este prisma, o problema da proteção à biodiversidade não pode ser colocado mecanicamente na polaridade homem x mulher, mas na predominância de um determinado princípio sobre o outro. Neste sentido, eu diria que o princípio feminino protege mais a natureza, visto que o cuidado em relação ao outro é sua característica predominante.


IHU On-Line – Como você analisa a posição das mulheres na tomada de decisões sobre agricultura e biodiversidade?

Neide Miele – Mais uma vez temos que procurar fugir dos rótulos. O fato de pertencer ao sexo feminino não é garantia de maior consciência em relação à agricultura sustentável ou à proteção da biodiversidade. Homens e mulheres que conseguiram desenvolver em si mesmos o princípio feminino, relacionado com o cuidado ao outro, estão mais aptos a construir uma relação harmoniosa para com a natureza. Obviamente o homem tem mais dificuldade visto que a sociedade exigiu dele um comportamento agressivo e dominador fazendo com que ele atrofiasse seu lado “cuidador”. Mas isto está mudando.

O homem já deixou de ser o provedor em exclusividade da família, as conquistas femininas no mercado de trabalho trouxeram para a mulher, não apenas sua independência financeira, mas um novo papel no seio da família. Os homens têm sentido a necessidade de dar alguns passos em direção à conquista do espaço da paternidade responsável e participativa. Assim como as mulheres conquistaram espaços públicos, os homens já começaram a empreender uma viagem para o interior do lar e, principalmente, de si mesmos.

Dentro do novo paradigma, dos novos relacionamentos e da nova sociedade, não há mais sentido lutar apenas pela libertação feminina. A tônica agora é a libertação do ser humano, buscada por homens e mulheres. Às denúncias feministas de opressão da mulher seguiu-se a conscientização de que, finalmente, todos os seres humanos foram vítimas do modelo imposto pela cultura machista. Ao oprimir a mulher, o homem não se tomou um vencedor, ao contrário, ele apenas revelou o que havia de pior em si mesmo, seu lado negro. Igualmente nefasta, a predominância feminina sobre o homem não faria mais do que substituir o opressor por uma mulher. A salvação do planeta, da agricultura e da biodiversidade está na cooperação entre homens e mulheres, livres, independentes, inteiros, conscientes.


IHU On-Line – Há diferenças entre mulheres dos países em desenvolvimento e em países desenvolvidos na relação com a biodiversidade?

Neide Miele – Se tomarmos a atitude de proteger os recursos naturais oferecidos pelo planeta Terra como a característica fundamental do princípio feminino, que pode ser definido como o “cuidado em relação ao outro”, veremos que a preocupação com a biodiversidade não pode ser configurada na disputa entre homem/mulher para saber quem cuida mais. E ainda menos na separação entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos. Em ambos os casos, encontraremos homens e mulheres muito ricos profundamente preocupados com a biodiversidade, assim como homens e mulheres pobres sem a menor consciência suas ações destrutivas. O inverso é igualmente verdadeiro.


IHU On-Line – Qual a sua avaliação sobre o ecofeminismo?

Neide Miele – Estando o princípio feminino associado unicamente à mulher é natural interpretar que a mulher tem uma consciência maior que a do homem quando se trata da preservação da Natureza. Isto é parcialmente verdadeiro. No geral, as mulheres têm o sentimento de cuidado em relação ao outro mais do que os homens. Porém, isto não pode ser tomado como regra, sobretudo porque as exceções são abundantes.

É inegável a importância do movimento feminista para a tomada de consciência da opressão machista e na luta pela conquista dos direitos da mulher. Entretanto, décadas depois de 1968, entendo que é chegada a hora de darmos mais um passo na luta contra o machismo. Sem deixar de lutar pela libertação da mulher, deveríamos partir para a libertação do ser humano. Ser opressor não faz bem a ninguém, seja homem ou mulher. E, infelizmente, as pesquisas mais recentes demonstram que as mulheres (sobretudo as mães) exercem esse nefasto papel em relação aos filhos. Os homens batem nas mulheres e estas nos filhos. Um menino que cresceu apanhando, baterá. Um menino que foi violentado, violentará. Este mesmo menino que apanhou de sua mãe baterá em sua esposa. Embora tenha exceções, esta é a regra. É contra isso que temos que lutar.

Entendo que a bandeira do ecohumanismo é mais abrangente do que a do ecofeminismo. Este último é um passo importante e necessário na luta pela preservação da Natureza para as futuras gerações, mas não é o objetivo final. A luta será vencida quando homens e mulheres se conscientizarem do mea culpa e se reconhecerem opressores. Este é o primeiro passo para a mudança em relação a si mesmo, ao outro, à sociedade e à Natureza.

Notas:

[1] Carl Gustav Jung foi um psiquiatra suíço e fundador da psicologia analítica, também conhecida como psicologia junguiana.

[2] David Joseph Bohm foi um físico quântico norte-americano. Viveu no Brasil onde ocupou uma cátedra em Física na USP. Em 1955 mudou-se para Israel, onde ficou dois anos e conheceu sua esposa Saral, que teria papel importante no desenvolvimento de suas ideias. Em 1957 mudou-se para a Grã-Bretanha. Obteve uma bolsa de pesquisa na Universidade de Bristol até 1961, quando se tornou professor de Física Teórica na Universidade de Londres, onde ficou até sua aposentadoria em 1987.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Precisamos voluntários/as para a Pastoral da Mulher de BH


Pessoas que tenham 3 ou 4 horas disponíveis por semana (nas tardes de 2ª a 6ª feira).

A Associação da Pastoral da Mulher Marginalizada é uma Pastoral Social da Igreja Católica, que desenvolve um trabalho acompanhamento e promoção das mulheres que se encontram em situação de prostituição no hipercentro de Belo Horizonte.

A missão da Pastoral da Mulher não poderia realizar-se sem a colaboração de voluntários e voluntarias. Para este ano 2011 queremos seguir ampliando e aprofundando nossas ações e vamos continuar precisando de novos agentes para distintas atividades, fundamentalmente:

• Agentes de pastoral para as visitas, procurando a criação de vínculo para iniciar o processo de despertar da consciência, e sendo presença solidária nos ambientes de maior exploração.

• Agentes para acolhida, que tenha dom para o acolhimento, a escuta, e a atenção pastoral. Dentro deste setor, seria essencial que soubesse desenvolver atividades ligadas à arte (pintura, música, teatro, etc.) ou oficinas (como bijuteria) para trabalhar com as mulheres as dimensões biofísica, psicológica e espiritual.

As pessoas selecionadas participaram do curso de formação de novos voluntários que acontecerá os dias 21 e 22 de fevereiro na sede da Pastoral (Av Santos Dumont 664, sala 327- Centro-BH)

Os interessados/as podem entrar em contato com a Pastoral da Mulher através dos telefones 32727349 e 32727135, ou por email: apmmbh@yahoo.com.br

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A pedagogia do grande irmão platinado



Elaine Tavares



Outro dia li um artigo de alguém criticando o que chamava de pseudo-esquerda que fica falando mal do BBB, mas que também dá sua espiadinha. E também li outras coisas de pessoas falando sobre o quanto há de baixaria no "show de realidade” da Globo. Fiquei por aí a matutar. E fui observar um pouco deste zoológico humano que a platinada oferece na suas noites. Agora é importante salientar que a gente nem precisa assistir para saber tudo o que se passa. É só estar vivo para saber. As notícias estão no jornal, no ônibus, no elevador, em todos os lugares. Então esse papo de que quem critica é hipócrita porque também vê não tem qualquer sentido. As coisas da indústria cultural nos são impostas de forma quase que totalitária. É praticamente impossível fugir destes saberes. Mesmo no terminal, esperando o ônibus, lá está o anúncio luminoso onde buscamos o horário do busão, dando as "notícias” dos broders. É invasivo e feroz.

Mas enfim, sou um bicho televisivo, e gosto de ficar feito uma couve em frente ao aparelho de TV analisando o que é que anda engravidando as gentes deste grande país que se alfabetiza por esta janelinha. Lá fiquei acompanhando alguns episódios do triste programa. Deveras, me causa espécie. Mas não falo pelo quê de promíscuo ou imoral possa ter o "show”, já que coisas do tipo que se vêem ali também são possíveis de ver na novela, nos filmes, etc... O que me apavora é capacidade de ser tão perverso e desestruturador de consciências. Está bem, as pessoas estão ali porque querem, elas mandam vídeos, se oferecem, morrem até para estar naquela casa, em busca do que pensar ser seu lugar ao sol. Mas, ainda assim, é perverso demais o que os "inventores” fazem com aquelas tristes criaturas.

Sempre pensei que a coisa nunca poderia ficar pior. Mas fica. Cada ano a violência fica maior. E o que me espanta é que não há gente a gritar contra isso. Agora inventaram a figura de um sabotador. Pois já não bastava colocar a possibilidade concreta de alguém (o espectador) eliminar outro (o broder "????”), o que, obviamente inaugura uma possibilidade por demais perversa de se apertar um botão e destruir o sonho de alguém, com requintes de crueldade. Uma coisa de uma maldade abissal. Então, o tal do sabotador é uma pessoa, do grupo, que precisa sabotar os seus companheiros para poder se safar. Inaugura-se assim mais uma instância da estúpida violência, a qual é parte intrínseca do "show”. Vi a cara do rapazinho. Estava em completo desespero. Precisava sabotar seus amigos. E o fez. Em nome do milhão.

Depois, um outro, ao atender ao telefone que sempre ordena uma sequência de maldades, obrigou-se a mandar sua colega para uma solitária, coisa que, nas cadeias, é motivo de grandes lutas dos grupos de direitos humanos. O garoto disse o nome da sentenciada, e seu rosto se cobriu de desespero. No dia em que ela saiu do castigo, enquanto os demais a abraçavam, ele se deixava cair, escorregando pela parede, chorando. Sabia, é claro, que aquela ação o colocava na mira da outra e na condição de um desgraçado que entrega seus colegas.

E assim vai o "grande irmão” propondo maldades e violências aos pobres sujeitos que ali entram em busca de um espaço na grande vitrine da vida. Confesso que a mim pouco se me dá se são homossexuais, trans, bi, héteros tarados, loucas, putas ou santas. Cada uma daquelas criaturas que ali estão quebrando todas as regras da ética do bem viver são pobres seres humanos, perdidos num mundo que exige da juventude bunda, músculo, peito e cabeça vazia. Não são eles os "imorais”. São vítimas. Querem mais do que as migalhas do banquete. Querem pegar com as unhas a promessa que o sistema capitalista traz na sua pedagogia da sedução: "‘qualquer um pode neste mundo livre”.

Tampouco me surpreende que um jornalista como Pedro Bial, dono de um texto refinado, esteja cumprindo o triste papel de fomentar a perda de todo o sentido ético que um ser humano pode ter. Ele, também buscando vencer nesse mundo que o capitalismo aponta como o melhor possível, fez a sua escolha. Optou por ser um sacerdote destes tempos vis. Um sacerdote muito bem pago.

O que me entristece é saber que essa pedagogia capitalista seguirá se fazendo todos os dias nas casas das gentes, que muitas vezes assistem ao programa porque simplesmente não têm outra opção. O melhor sinal é o da platinada. Pega em qualquer lugar deste grande país. Há os que vêem e nem gostam, mas ocorre que estas "lições” em que se eliminam pessoas, em que se traem os amigos, em que vale tudo, passam meio que por osmose. É a lavagem cerebral. É a violência extrema sendo praticada entre risos e apupos de "meus heróis”. Tudo pela "plata”.

Enquanto isso, como bem já levantaram alguns blogueiros, a Globo, junto com as companhias telefônicas, lucra rios de dinheiro com as ligações que as pessoas fazem para eliminar os "irmãos”. É galera, brother quer dizer irmão em inglês. E olha só o que se faz com um irmão? Essa é a "ética”. Os empresários globais lambem seus bigodes.

Então, fazer a crítica a esse perverso programa não é coisa de pseudo-esquerda. Deve ser obrigação de qualquer um que pensa o país. A questão do "grande irmão” não é moral. É ética. Trata-se da consolidação, via repetição, de uma pedagogia, típica do capitalismo, que pretender cristalizar como verdade que para que um seja feliz, outro tenha que ser "eliminado”. O show da Globo é uma violência explícita, cruel, nefanda, sinistra e miserável. É coisa ruim, malcheirosa. Penso que há outras formas de a gente se divertir, sem que para isso alguém tenha de se ferrar! Até mesmo os mais importantes cientistas mundiais já alardearam a verdade inconteste: vence quem coopera. Onde as pessoas, juntas, buscam o bem viver, ele vem...


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Campanha Ponto Final será apresentada em audiência pública na próxima segunda

Na próxima segunda-feira (22) a Rede Feminista de Saúde apresentará a Campanha "Ponto Final na Violência contra Mulheres e Meninas" para órgãos governamentais, ONGs, movimentos sociais, agências multilaterais, parlamentares e outros, durante uma audiência pública será realizada a partir das 17h, no auditório da Secretaria de Políticas para as Mulheres, em Brasília. A reunião será coordenada pela Ministra Nilcea Freire.

O evento integra as ações do Dia Internacional da Não - Violência contra as mulheres, celebrado em 25 de novembro. A ação é coordenada pela Rede de Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe - RSMLAC em nível continental, e no Brasil é impulsionada pela Rede Feminista de Saúde.

No encontro serão apresentadas as propostas e os resultados da Ponto Final no seu primeiro ano de atividade. Télia Negrão, coordenadora da campanha, explicou que a proposta deste programa é diferente de outros que incentivam a punição do agressor, por exemplo. Segundo ela, o objetivo da campanha Ponto Final é "chamar a atenção da sociedade para refletir sobre a violência contra mulheres e meninas".

"Estamos questionando os padrões culturais e morais que fizeram com que as pessoas se acostumassem com a violência de gênero. A meta da campanha é criar uma mobilização social de pessoas que condenam e que digam Não! à violência de gênero, raça e etnia contra as mulheres", ressaltou.

Télia esclareceu que a campanha tem caráter internacional já que é originária da África e da Ásia e está sendo desenvolvida em outros três países, além do Brasil: Bolívia, Guatemala e Haiti. Ela disse que a campanha foi trazida para o Brasil em 2008 e que desde então, foram feitos estudos, planejamento e adaptações, de acordo com a realidade brasileira. "Em 2009 foi feito um trabalho para sensibilizar possíveis parceiros", completou.

Depois deste trabalho preparatório, a campanha começou a ser desenvolvida, no início deste ano, em diversas localidades. Um exemplo é o da comunidade Campo da Toca, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Segundo Télia, neste bairro com trinta mil habitantes, foi feito um mapeamento do perfil da comunidade, além de um trabalho de conscientização. "O resultado é que toda a comunidade está envolvida. Esta é a prevenção primária", salientou.

Ela enfatizou que a campanha já foi lançada em 14 estados brasileiros, em sessões de assembleias legislativas, câmara de vereadores, universidades, através de palestras e oficinas de formação.

A coordenadora explicou que a campanha é aberta à adesão de qualquer pessoa interessada em defender a causa. Para isso, basta divulgar o material de campanha através de reuniões, palestras, oficinas, rodas de discussão. O material que inclui folder, banner, cartaz, vídeos e estudos, está disponível no site:

http://www.campanhapontofinal.com.br/.

Fonte: http://www.adital.com.br/

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O preço de não escutar a natureza


Leonardo Boff

O cataclisma ambiental, social e humano que se abateu sobre as três cidades serranas do Estado do Rio de Janeiro, Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, na segunda semana de janeiro, com centenas de mortos, destruição de regiões inteiras e um incomensurável sofrimento dos que perderam familiares, casas e todos os haveres tem como causa mais imediata as chuvas torrenciais, próprias do verão, a configuração geofísica das montanhas, com pouca capa de solo sobre o qual cresce exuberante floresta subtropical, assentada sobre imensas rochas lisas que por causa da infiltração das águas e o peso da vegetação provocam frequentemente deslizamentos fatais.

Culpam-se pessoas que ocuparam áreas de risco, incriminam-se políticos corruptos que destribuíram terrenos perigosos a pobres, critica-se o poder público que se mostrou leniente e não fez obras de prevenção, por não serem visíveis e não angariarem votos. Nisso tudo há muita verdade. Mas nisso não reside a causa principal desta tragédia avassaladora.

A causa principal deriva do modo como costumamos tratar a natureza. Ela é generosa para conosco pois nos oferece tudo o que precisamos para viver. Mas nós, em contrapartida, a consideramos como um objeto qualquer, entregue ao nosso bel-prazer, sem nenhum sentido de responsabilidade pela sua preservação nem lhe damos alguma retribuição. Ao contrario, tratamo-la com violência, depredamo-la, arrancando tudo o que podemos dela para nosso benefício. E ainda a transformamos numa imensa lixeira de nossos dejetos.

Pior ainda: nós não conhecemos sua natureza e sua história. Somos analfabetos e ignorantes da história que se realizou nos nossos lugares no percurso de milhares e milhares de anos. Não nos preocupamos em conhecer a flora e a fauna, as montanhas, os rios, as paisagens, as pessoas significativas que ai viveram, artistas, poetas, governantes, sábios e construtores.

Somos, em grande parte, ainda devedores do espírito científico moderno que identifica a realidade com seus aspectos meramente materiais e mecanicistas sem incluir nela, a vida, a consciência e a comunhão íntima com as coisas que os poetas, músicos e artistas nos evocam em suas magníficas obras.

O universo e a natureza possuem história. Ela está sendo contada pelas estrelas, pela Terra, pelo afloramento e elevação das montanhas, pelos animais, pelas florestas e pelos rios. Nossa tarefa é saber escutar e interpretar as mensagens que eles nos mandam.

Os povos originários sabiam captar cada movimento das nuvens, o sentido dos ventos e sabiam quando vinham ou não trombas d'água. Chico Mendes com quem participei de longas penetrações na floresta amazônica do Acre sabia interpretar cada ruído da selva, ler sinais da passagem de onças nas folhas do chão e, com o ouvido colado ao chão, sabia a direção em que ia a manada de perigosos porcos selvagens. Nós desaprendemos tudo isso. Com o recurso das ciências lemos a história inscrita nas camadas de cada ser. Mas esse conhecimento não entrou nos currículos escolares nem se transformou em cultura geral. Antes, virou técnica para dominar a natureza e acumular.

No caso das cidades serranas: é natural que haja chuvas torrenciais no verão. Sempre podem ocorrer desmoronamentos de encostas. Sabemos que já se instalou o aquecimento global que torna os eventos extremos mais freqüentes e mais densos. Conhecemos os vales profundos e os riachos que correm neles. Mas não escutamos a mensagem que eles nos enviam que é: não construir casas nas encostas; não morar perto do rio e preservar zelosamente a mata ciliar. O rio possui dois leitos: um normal, menor, pelo qual fluem as águas correntes e outro maior que dá vazão às grandes águas das chuvas torrenciais. Nesta parte não se pode construir e morar.

Estamos pagando alto preço pelo nosso descaso e pela dizimação da mata atlântica que equilibrava o regime das chuvas. O que se impõe agora é escutar a natureza e fazer obras preventivas que respeitem o modo de ser de cada encosta, de cada vale e de cada rio.

Só controlamos a natureza na medida em que lhe obedecemos e soubermos escutar suas mensagens e ler seus sinais. Caso contrário teremos que contar com tragédias fatais evitáveis.


Fonte: http://www.adital.com.br/

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

OMS: violência contra mulher é prioridade de saúde pública


Nova York (Rádio ONU) - A Organização Mundial da Saúde, OMS, afirmou que a violência contra a mulher representa uma prioridade urgente de saúde pública.

A declaração faz parte de um boletim da agência, publicado no início deste mês. Segundo o documento do Departamento de Saúde Reprodutiva e Pesquisa, a "violência contra mulheres é talvez a mais vergonhosa das violações de direitos humanos".

Parceiros

A pesquisa sobre o crime, em especial sobre a violência praticada por parceiros das mulheres, tem aumentado. Desde 2005, a prevalência de estudos subiu de 80 para mais de 300, em 2008.

A OMS tem agora dados de mais de 90 países. A agência tem dificuldade, no entanto, para receber informações do Oriente Médio e do oeste da África.

A violência contra mulheres é geralmente direta através de homicídios ou indireta com casos de suicídios e de doenças como a Aids.

A pesquisa da ONU também indica que a violência feminina tem custos altos. Em 2002, a organização Saúde Canadá informou que os gastos diretos com tratamento médico era de mais de 1 bilhão de dólares canadenses, o equivalente a cerca de US$ 1 bilhão.

Fonte: http://www.oreporter.com/



quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Celebrar a Vida

por Fernanda Priscila Alves da Silva

Celebrar a vida


Ah! Celebrar...


Supõe tantas coisas


Pede para trás olhar


Nossa, quanta coisa!


Quanta vida!


Celebrar a vida


É ter coragem...


De parar,


De ir além


E até chorar...


Deixar escorrer as lágrimas, a dor,


Deixá-las falar, palpitar.


Celebrar a vida...


É olhar o álbum.


Fotos ver,


Sentimentos reviver,


Abrir o diário


E ousar perder,


Temer o mistério das palavras escritas


E se alegrar com doces cantigas


Celebrar a vida...


Ah! Celebrar...


Quão bom é!


Só tenho saudades



(Poema de Fernanda Priscila Alves da Silva, extraído do livro "Estações do crer", publicado pelo CEBI em 2010)