sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Ante os novos fascismos que estão em marcha


A indiferença

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.


Bertolt Brecht


Carta sobre Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa



Caros irmãos e irmãs, Paz e bem! A parábola do Bom Samaritano ajusta-se bem à reflexão sobre "quem é o meu próximo". Nesta parábola, Jesus quis demonstrar que a caridade, a salvação da alma independe do credo religioso que se professa. O que importa é auxiliar o próximo, independentemente dele professar ou não a nossa religião.

Na história das grandes religiões monoteístas -cristianismo, islamismo e judaísmo- temos momentos de convivência harmoniosa e respeitosa, mas também períodos de grande intolerância e violência, seja entre as diversas religiões, ou mesmo no contexto intra-religioso. A humanidade tem passado por grandes transformações, mas estas não conseguiram superar o preconceito e a intolerância. O respeito às diferenças é fundamental. Como diz Aristóteles, enquanto o respeito constitui uma virtude que nunca pode pecar por excesso, porque quanto mais respeito se tem mais se ama, a tolerância é o exemplo de uma virtude que se obriga ao meio termo porque, em excesso, resulta em indiferença, e, em falta, traz o sabor da intolerância.

No século XX, ocorreram muitas guerras e conflitos religiosos, e o holocausto sofrido pelos judeus manchou indelevelmente a história da humanidade com o manto da intolerância. No mundo globalizado do século XXI, o preconceito e a intolerância se apresentam em novas formas, procurando legitimação sob o manto de luta contra o terrorismo. Os movimentos de migrações humanas, em que vemos inúmeros campos de refugiados espalhados pelo mundo, nos colocam frente a frente com a crise do modelo econômico capitalista, que aumenta a desigualdade social, e amplia a tensão entre diferentes culturas. Neste contexto, aparece um campo minado no qual os preconceitos e intolerâncias se potencializam e crescem.

No Brasil a situação não é diferente. Sofremos o impacto das transformações que ocorrem no mundo, e carregamos ainda uma enorme dívida social e histórica, que juntos geram o preconceito de classe e a discriminação racial. Nestas condições, o preconceito e a intolerância tendem a se perdurar nos mais variados espaços: no trabalho, nas escolas, nas universidades, nos meios de comunicação em geral e, infelizmente, também dentro dos vários segmentos religiosos.






O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado no dia 21 de janeiro, quer contribuir para transformar esta realidade. De acordo com o IBGE, os brasileiros se declaram praticantes de mais de 30 religiões diferentes. A diversidade é uma das nossas grandes riquezas e precisamos estimular na sociedade a convivência pacífica dentro das diferenças religiosas. Infelizmente, desde a colonização, quando os negros foram trazidos à força como mão-de-obra escrava para o Brasil, e seus valores, sua cultura e sua religião lhes foram arrancadas, ou quando os judeus, fugindo da Inquisição na Europa, foram obrigados a se converter ao cristianismo, tendo de adotar o Brasil como pátria, que convivemos com a intolerância religiosa em nosso país. Cristo pregou o amor ao próximo e podemos afirmar, como cristãos, que a base da tolerância está calcada na figura de Cristo, que nos passou todos os ensinamentos de como amar o próximo como a nós mesmos. Ao renunciar a si mesmo em favor da humanidade, ele nos deu o exemplo do que devemos fazer. Em suas pregações, nos alerta de que devemos ser severos para conosco mesmos e indulgentes para com o próximo, e não o contrário.

A intolerância religiosa ainda está presente no cotidiano de milhões de brasileiros e brasileiras, e deve ser denunciada e combatida. Não podemos permitir, que em nome de Deus, perseguições e desrespeito à dignidade humana sejam perpetrados. O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil quer conclamar toda a sociedade e religiões do Brasil a celebrar, no próximo dia 21 de janeiro, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Somos chamados a colocar em prática o mandamento de Jesus de amar teu próximo como a ti mesmo. Em assim fazendo, estaremos ajudando a construir um futuro melhor e mais inclusivo para todos, em que a diversidade religiosa seja respeitada e garantida para todas as pessoas.

Rev. Luiz Alberto Barbosa

Secretário Geral Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil

fonte: www. noticias.cancaonova.com

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Alterações podem enfraquecer Lei Maria da Penha

No fim de 2010, a Lei Maria da Penha voltou a figurar nos noticiários e rodas de conversa com a aprovação de projetos de lei que modificam seu texto em duas comissões da Câmara dos Deputados. Um dos projetos afirma que a Lei se aplica para namorados. O outro estabelece que não é necessário o pronunciamento da vítima para que os agressor seja processado por crimes de lesão corporal leve.

Ambos tentam sanar falhas que não estão no texto da Lei, e sim na forma como ela vem sendo aplicada pelos operadores de direito.

No âmbito do Poder Judiciário, observamos comportamentos díspares: alguns juízes são grandes aliados das mulheres, enquanto outros se recusam a aplicar a Lei e continuam a classificar a violência doméstica como "crime de menor potencial ofensivo”. Esta negligência coloca a vida das mulheres em risco e desrespeita direitos assegurados.

Decisões recentes do Superior Tribunal de Justiça (STJ) têm sido favoráveis para o cumprimento da Lei. Além disso, o Ministério Público Federal impetrou uma ação com o objetivo de determinar que o crime de lesão corporal contra mulheres não exija pronunciamento da vítima para prosseguimento da ação penal. A matéria aguarda apreciação do Supremo Tribunal Federal.

A resistência que a Lei Maria da Penha enfrenta em alguns tribunais tem motivado a apresentação de um sem-número de projetos de lei. Atualmente, o CFEMEA acompanha 23 projetos com este teor que tramitam no Congresso Nacional. Produzidos às pressas, após casos de grande repercussão ganharem a mídia, a maioria deles é redundante e não alteraria em nada o funcionamento da Lei. Alguns propõem retrocessos e um deles criminaliza a violência doméstica contra os homens, que não é fenômeno documentado em nossa sociedade e que já dispõe de mecanismos legais para tratar dos casos existentes.

Ao analisarmos a Lei, entretanto, notamos que seu texto é bastante completo. Por exemplo: o artigo 5º, que define violência doméstica e familiar, considera crimes cometidos: "III) em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação”. O inciso III foi inserido exatamente para que fosse possível enquadrar casos de agressão de namorados, ficantes, amantes e qualquer outra forma de relacionamento que venha a ser popularizada e na qual a violência ocorra.

Por outro lado, é notável a carência de debates e dados empíricos que orientem a produção dos projetos de lei. O texto da Lei não deixa margem para dúvidas e a resistência em aplicá-la decorre do machismo entranhado nas instituições públicas no país. Sem sua superação, a aprovação de cerca de 20 projetos inócuos certamente dará projeção midiática para alguns parlamentares, mas pode vir a minar a consolidação da Lei junto a tribunais e à opinião pública. Os novos textos voltarão a ser contestados e usados contra as mulheres.

Mais de 40% das brasileiras já sofreram violência de gênero em ambiente doméstico e familiar. A cada 15 segundos uma mulher é espancada no país. A sociedade está disposta a enfrentar o problema: segundo o IPEA, 91% da população quer que este tipo de crime seja investigado, mesmo sem a representação (queixa) da vítima; 80% afirmam que a Lei Maria da Penha pode evitar ou diminuir a violência contra as mulheres.

Milhares de pessoas já se beneficiaram dos avanços proporcionados pela Lei, mas é necessário expandir e aprimorar as políticas públicas de apoio: faltam recursos orçamentários para delegacias especializadas, casas abrigo, atendimento psicológico e jurídico, pessoal para assegurar o cumprimento das medidas protetivas, etc.

A reversão deste quadro passa pela erradicação do machismo vigente na sociedade e requer o compromisso de parlamentares, do Poder Executivo e de operadores de direito. Precisamos de recursos, não de mudanças. Neste sentido, o Parlamento pode desempenhar um papel importante no aporte de recursos orçamentários para a implementação da Lei no PLOA 2011 e no cumprimento de sua função constitucional de fiscalização do uso destes recursos.

A implementação da Lei Maria da Penha é mais urgente, e será atingida com vontade política, aumento de dotações orçamentárias e expansão de políticas públicas. Quaisquer alterações devem ser objeto de debates aprofundados, a exemplo do processo que deu origem à Lei, que contou com a participação de acadêmicas, juristas, advogadas, parlamentares e militantes feministas.


[* Ana Claudia Jaquetto Pereira é consultora do CFEMEA (Centro Feminista de Estudos e Assessoria) para Enfrentamento à Violência contra as Mulheres



Fonte:www.adital.com.br

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A biodiversidade e o feminismo. Entrevista especial com Neide Miele

Devido ao papel de mãe que assume, a mulher, no geral, é aquele que protege a biodiversidade, que tem uma relação mais íntima com o meio ambiente. Embora essa seja uma verdade, a professora Neide Miele diz que “o problema da proteção à biodiversidade não pode ser colocado mecanicamente na polaridade homem x mulher, mas na predominância de um determinado princípio sobre o outro. Neste sentido, eu diria que o princípio feminino protege mais a natureza, visto que o cuidado em relação ao outro é sua característica predominante”. Em entrevista à IHU On-Line, realizada por email, Miele analisa a compreensão que a mulher tem da biodiversidade e a forma como ela se posiciona nas decisões sobre meio ambiente e agricultura.

Miele afirma também que o ecofeminismo “é um passo importante e necessário na luta pela preservação da natureza para as futuras gerações, mas não é o objetivo final. A luta será vencida quando homens e mulheres se conscientizarem do mea culpa e se reconhecerem opressores”.

A assistente social Neide Miele é mestre em Sociologia Rural pela Universidade Federal da Paraíba e doutora em Sociologia pela Université de Picardie Jules Verne (França). Atualmente, é professora na UFPB. Entre seus livros, destacamos: Relações de Gênero – Um olhar diferente (João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2004).

Confira a entrevista

IHU On-Line – Como você vê a compreensão feminina da biodiversidade?


Neide Miele – “As mulheres sustentam metade do céu”, diz um provérbio chinês. O céu é uma totalidade sustentada por duas forças em equilíbrio, o princípio masculino e o princípio feminino. O mesmo se pode dizer do ser humano, ele também é uma totalidade. Assim como o céu, ele também é um amálgama dos princípios feminino e masculino. O problema é que o ser humano foi submetido a uma “cirurgia cultural”, da qual resultou um ser fragmentado, enfraquecido, desequilibrado, metade da totalidade que ele já foi. Homens e mulheres foram igualmente vítimas da cultura, da história, dos preconceitos sexistas.

Certamente isto se reflete na compreensão que temos hoje da biodiversidade, sejamos homens ou mulheres. Biodiversidade significa diversidade da vida, e a vida não é prerrogativa da mulher ou do homem, nem mesmo de ambos. A vida não se sustenta a não ser em contato profundo e respeitoso com a natureza, com o mundo que nos cerca. Embora óbvia, esta realidade foi sendo esquecida pelo homem ao longo da história, no seu afã de conquistar, de dominar, de possuir, não apenas a mulher mas a Mãe-natureza, e o resultado é este que temos aí: catastrófico.


IHU On-Line – As mulheres protegem a biodiversidade mais do que os homens?

Neide Miele – No geral sim, certamente devido ao seu papel de mãe, mas há que se tomar cuidado com esse tipo de resposta para não cairmos numa caricatura. Quantos de nós conhecemos mulheres capazes de matar a própria prole e homens que cuidam da mesma melhor do que uma mãe? O problema está em tomar o princípio feminino como mulher e o princípio masculino como o homem. Tais princípios são forças definidoras de aspectos da personalidade do ser humano e não podem ser confundidas com o sexo biológico.

Eles são aquilo que Carl Gustav Jung [1] definiu como anima-animus, ou seja, anima é a contraparte feminina da personalidade masculina e animus a contraparte masculina da psique feminina. Anima e animus são contrapartes que fazem da psique uma totalidade. A contraparte anima-animus poderia ser comparada a uma folha de papel, ela é o verso da folha, a parte não aparente, mas está lá e cumpre uma função.

Assim como é impossível eliminar o verso da folha de papel sem destruí-la, é impossível eliminar a contraparte da personalidade de qualquer ser humano. Entretanto, muitas vezes ocorre que a contraparte atua como parte, fazendo com que as atitudes e escolhas ganhem um caráter tido como bizarro. Nem toda mulher tem o princípio feminino como o preponderante, assim como nem todo homem é regido exclusivamente pelo princípio masculino. Observe que não estou me referindo apenas às escolhas sexuais de cada um, mas ao comportamento como um todo.

O princípio feminino é o fluido que organiza, dá forma e cuida, assim como o princípio masculino é a centelha de criação, que impõe a ordem e domina. O desvio está em considerar que o único detentor do princípio masculino é o homem, assim como o princípio feminino é exclusividade da mulher. Isso não é verdade! Por exemplo, quando a Mãe-natureza distribuiu os hormônios nos corpos humanos, ela não o fez separando: Hormônios masculinos para os homens, hormônios femininos para as mulheres. Seja homem ou mulher, circu1am no corpo de cada ser humano, hormônios femininos e masculinos. O que varia é a proporção, sendo o equilíbrio entre ambos a garantia da saúde.

Neste sentido, podemos afirmar que homem e mulher não existem. Eles são apenas uma construção cultural. Como duas faces da mesma moeda, o homem e a mulher estão para o SER, assim como o meio-dia e a meia-noite estão para o DIA, ou como as duas metades dos cromossomos estão para o DNA, ou como frente e verso estão para a folha de papel. Segundo o físico David Bohm [2], “a realidade é um inteiro não dividido”. Esta maneira de conceber a realidade exige que ultrapassemos a velha noção de homem versus mulher para enxergarmos o SER HUMANO, único. Sob este prisma, o problema da proteção à biodiversidade não pode ser colocado mecanicamente na polaridade homem x mulher, mas na predominância de um determinado princípio sobre o outro. Neste sentido, eu diria que o princípio feminino protege mais a natureza, visto que o cuidado em relação ao outro é sua característica predominante.


IHU On-Line – Como você analisa a posição das mulheres na tomada de decisões sobre agricultura e biodiversidade?

Neide Miele – Mais uma vez temos que procurar fugir dos rótulos. O fato de pertencer ao sexo feminino não é garantia de maior consciência em relação à agricultura sustentável ou à proteção da biodiversidade. Homens e mulheres que conseguiram desenvolver em si mesmos o princípio feminino, relacionado com o cuidado ao outro, estão mais aptos a construir uma relação harmoniosa para com a natureza. Obviamente o homem tem mais dificuldade visto que a sociedade exigiu dele um comportamento agressivo e dominador fazendo com que ele atrofiasse seu lado “cuidador”. Mas isto está mudando.

O homem já deixou de ser o provedor em exclusividade da família, as conquistas femininas no mercado de trabalho trouxeram para a mulher, não apenas sua independência financeira, mas um novo papel no seio da família. Os homens têm sentido a necessidade de dar alguns passos em direção à conquista do espaço da paternidade responsável e participativa. Assim como as mulheres conquistaram espaços públicos, os homens já começaram a empreender uma viagem para o interior do lar e, principalmente, de si mesmos.

Dentro do novo paradigma, dos novos relacionamentos e da nova sociedade, não há mais sentido lutar apenas pela libertação feminina. A tônica agora é a libertação do ser humano, buscada por homens e mulheres. Às denúncias feministas de opressão da mulher seguiu-se a conscientização de que, finalmente, todos os seres humanos foram vítimas do modelo imposto pela cultura machista. Ao oprimir a mulher, o homem não se tomou um vencedor, ao contrário, ele apenas revelou o que havia de pior em si mesmo, seu lado negro. Igualmente nefasta, a predominância feminina sobre o homem não faria mais do que substituir o opressor por uma mulher. A salvação do planeta, da agricultura e da biodiversidade está na cooperação entre homens e mulheres, livres, independentes, inteiros, conscientes.


IHU On-Line – Há diferenças entre mulheres dos países em desenvolvimento e em países desenvolvidos na relação com a biodiversidade?

Neide Miele – Se tomarmos a atitude de proteger os recursos naturais oferecidos pelo planeta Terra como a característica fundamental do princípio feminino, que pode ser definido como o “cuidado em relação ao outro”, veremos que a preocupação com a biodiversidade não pode ser configurada na disputa entre homem/mulher para saber quem cuida mais. E ainda menos na separação entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos. Em ambos os casos, encontraremos homens e mulheres muito ricos profundamente preocupados com a biodiversidade, assim como homens e mulheres pobres sem a menor consciência suas ações destrutivas. O inverso é igualmente verdadeiro.


IHU On-Line – Qual a sua avaliação sobre o ecofeminismo?

Neide Miele – Estando o princípio feminino associado unicamente à mulher é natural interpretar que a mulher tem uma consciência maior que a do homem quando se trata da preservação da Natureza. Isto é parcialmente verdadeiro. No geral, as mulheres têm o sentimento de cuidado em relação ao outro mais do que os homens. Porém, isto não pode ser tomado como regra, sobretudo porque as exceções são abundantes.

É inegável a importância do movimento feminista para a tomada de consciência da opressão machista e na luta pela conquista dos direitos da mulher. Entretanto, décadas depois de 1968, entendo que é chegada a hora de darmos mais um passo na luta contra o machismo. Sem deixar de lutar pela libertação da mulher, deveríamos partir para a libertação do ser humano. Ser opressor não faz bem a ninguém, seja homem ou mulher. E, infelizmente, as pesquisas mais recentes demonstram que as mulheres (sobretudo as mães) exercem esse nefasto papel em relação aos filhos. Os homens batem nas mulheres e estas nos filhos. Um menino que cresceu apanhando, baterá. Um menino que foi violentado, violentará. Este mesmo menino que apanhou de sua mãe baterá em sua esposa. Embora tenha exceções, esta é a regra. É contra isso que temos que lutar.

Entendo que a bandeira do ecohumanismo é mais abrangente do que a do ecofeminismo. Este último é um passo importante e necessário na luta pela preservação da Natureza para as futuras gerações, mas não é o objetivo final. A luta será vencida quando homens e mulheres se conscientizarem do mea culpa e se reconhecerem opressores. Este é o primeiro passo para a mudança em relação a si mesmo, ao outro, à sociedade e à Natureza.

Notas:

[1] Carl Gustav Jung foi um psiquiatra suíço e fundador da psicologia analítica, também conhecida como psicologia junguiana.

[2] David Joseph Bohm foi um físico quântico norte-americano. Viveu no Brasil onde ocupou uma cátedra em Física na USP. Em 1955 mudou-se para Israel, onde ficou dois anos e conheceu sua esposa Saral, que teria papel importante no desenvolvimento de suas ideias. Em 1957 mudou-se para a Grã-Bretanha. Obteve uma bolsa de pesquisa na Universidade de Bristol até 1961, quando se tornou professor de Física Teórica na Universidade de Londres, onde ficou até sua aposentadoria em 1987.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Precisamos voluntários/as para a Pastoral da Mulher de BH


Pessoas que tenham 3 ou 4 horas disponíveis por semana (nas tardes de 2ª a 6ª feira).

A Associação da Pastoral da Mulher Marginalizada é uma Pastoral Social da Igreja Católica, que desenvolve um trabalho acompanhamento e promoção das mulheres que se encontram em situação de prostituição no hipercentro de Belo Horizonte.

A missão da Pastoral da Mulher não poderia realizar-se sem a colaboração de voluntários e voluntarias. Para este ano 2011 queremos seguir ampliando e aprofundando nossas ações e vamos continuar precisando de novos agentes para distintas atividades, fundamentalmente:

• Agentes de pastoral para as visitas, procurando a criação de vínculo para iniciar o processo de despertar da consciência, e sendo presença solidária nos ambientes de maior exploração.

• Agentes para acolhida, que tenha dom para o acolhimento, a escuta, e a atenção pastoral. Dentro deste setor, seria essencial que soubesse desenvolver atividades ligadas à arte (pintura, música, teatro, etc.) ou oficinas (como bijuteria) para trabalhar com as mulheres as dimensões biofísica, psicológica e espiritual.

As pessoas selecionadas participaram do curso de formação de novos voluntários que acontecerá os dias 21 e 22 de fevereiro na sede da Pastoral (Av Santos Dumont 664, sala 327- Centro-BH)

Os interessados/as podem entrar em contato com a Pastoral da Mulher através dos telefones 32727349 e 32727135, ou por email: apmmbh@yahoo.com.br

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A pedagogia do grande irmão platinado



Elaine Tavares



Outro dia li um artigo de alguém criticando o que chamava de pseudo-esquerda que fica falando mal do BBB, mas que também dá sua espiadinha. E também li outras coisas de pessoas falando sobre o quanto há de baixaria no "show de realidade” da Globo. Fiquei por aí a matutar. E fui observar um pouco deste zoológico humano que a platinada oferece na suas noites. Agora é importante salientar que a gente nem precisa assistir para saber tudo o que se passa. É só estar vivo para saber. As notícias estão no jornal, no ônibus, no elevador, em todos os lugares. Então esse papo de que quem critica é hipócrita porque também vê não tem qualquer sentido. As coisas da indústria cultural nos são impostas de forma quase que totalitária. É praticamente impossível fugir destes saberes. Mesmo no terminal, esperando o ônibus, lá está o anúncio luminoso onde buscamos o horário do busão, dando as "notícias” dos broders. É invasivo e feroz.

Mas enfim, sou um bicho televisivo, e gosto de ficar feito uma couve em frente ao aparelho de TV analisando o que é que anda engravidando as gentes deste grande país que se alfabetiza por esta janelinha. Lá fiquei acompanhando alguns episódios do triste programa. Deveras, me causa espécie. Mas não falo pelo quê de promíscuo ou imoral possa ter o "show”, já que coisas do tipo que se vêem ali também são possíveis de ver na novela, nos filmes, etc... O que me apavora é capacidade de ser tão perverso e desestruturador de consciências. Está bem, as pessoas estão ali porque querem, elas mandam vídeos, se oferecem, morrem até para estar naquela casa, em busca do que pensar ser seu lugar ao sol. Mas, ainda assim, é perverso demais o que os "inventores” fazem com aquelas tristes criaturas.

Sempre pensei que a coisa nunca poderia ficar pior. Mas fica. Cada ano a violência fica maior. E o que me espanta é que não há gente a gritar contra isso. Agora inventaram a figura de um sabotador. Pois já não bastava colocar a possibilidade concreta de alguém (o espectador) eliminar outro (o broder "????”), o que, obviamente inaugura uma possibilidade por demais perversa de se apertar um botão e destruir o sonho de alguém, com requintes de crueldade. Uma coisa de uma maldade abissal. Então, o tal do sabotador é uma pessoa, do grupo, que precisa sabotar os seus companheiros para poder se safar. Inaugura-se assim mais uma instância da estúpida violência, a qual é parte intrínseca do "show”. Vi a cara do rapazinho. Estava em completo desespero. Precisava sabotar seus amigos. E o fez. Em nome do milhão.

Depois, um outro, ao atender ao telefone que sempre ordena uma sequência de maldades, obrigou-se a mandar sua colega para uma solitária, coisa que, nas cadeias, é motivo de grandes lutas dos grupos de direitos humanos. O garoto disse o nome da sentenciada, e seu rosto se cobriu de desespero. No dia em que ela saiu do castigo, enquanto os demais a abraçavam, ele se deixava cair, escorregando pela parede, chorando. Sabia, é claro, que aquela ação o colocava na mira da outra e na condição de um desgraçado que entrega seus colegas.

E assim vai o "grande irmão” propondo maldades e violências aos pobres sujeitos que ali entram em busca de um espaço na grande vitrine da vida. Confesso que a mim pouco se me dá se são homossexuais, trans, bi, héteros tarados, loucas, putas ou santas. Cada uma daquelas criaturas que ali estão quebrando todas as regras da ética do bem viver são pobres seres humanos, perdidos num mundo que exige da juventude bunda, músculo, peito e cabeça vazia. Não são eles os "imorais”. São vítimas. Querem mais do que as migalhas do banquete. Querem pegar com as unhas a promessa que o sistema capitalista traz na sua pedagogia da sedução: "‘qualquer um pode neste mundo livre”.

Tampouco me surpreende que um jornalista como Pedro Bial, dono de um texto refinado, esteja cumprindo o triste papel de fomentar a perda de todo o sentido ético que um ser humano pode ter. Ele, também buscando vencer nesse mundo que o capitalismo aponta como o melhor possível, fez a sua escolha. Optou por ser um sacerdote destes tempos vis. Um sacerdote muito bem pago.

O que me entristece é saber que essa pedagogia capitalista seguirá se fazendo todos os dias nas casas das gentes, que muitas vezes assistem ao programa porque simplesmente não têm outra opção. O melhor sinal é o da platinada. Pega em qualquer lugar deste grande país. Há os que vêem e nem gostam, mas ocorre que estas "lições” em que se eliminam pessoas, em que se traem os amigos, em que vale tudo, passam meio que por osmose. É a lavagem cerebral. É a violência extrema sendo praticada entre risos e apupos de "meus heróis”. Tudo pela "plata”.

Enquanto isso, como bem já levantaram alguns blogueiros, a Globo, junto com as companhias telefônicas, lucra rios de dinheiro com as ligações que as pessoas fazem para eliminar os "irmãos”. É galera, brother quer dizer irmão em inglês. E olha só o que se faz com um irmão? Essa é a "ética”. Os empresários globais lambem seus bigodes.

Então, fazer a crítica a esse perverso programa não é coisa de pseudo-esquerda. Deve ser obrigação de qualquer um que pensa o país. A questão do "grande irmão” não é moral. É ética. Trata-se da consolidação, via repetição, de uma pedagogia, típica do capitalismo, que pretender cristalizar como verdade que para que um seja feliz, outro tenha que ser "eliminado”. O show da Globo é uma violência explícita, cruel, nefanda, sinistra e miserável. É coisa ruim, malcheirosa. Penso que há outras formas de a gente se divertir, sem que para isso alguém tenha de se ferrar! Até mesmo os mais importantes cientistas mundiais já alardearam a verdade inconteste: vence quem coopera. Onde as pessoas, juntas, buscam o bem viver, ele vem...


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Campanha Ponto Final será apresentada em audiência pública na próxima segunda

Na próxima segunda-feira (22) a Rede Feminista de Saúde apresentará a Campanha "Ponto Final na Violência contra Mulheres e Meninas" para órgãos governamentais, ONGs, movimentos sociais, agências multilaterais, parlamentares e outros, durante uma audiência pública será realizada a partir das 17h, no auditório da Secretaria de Políticas para as Mulheres, em Brasília. A reunião será coordenada pela Ministra Nilcea Freire.

O evento integra as ações do Dia Internacional da Não - Violência contra as mulheres, celebrado em 25 de novembro. A ação é coordenada pela Rede de Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe - RSMLAC em nível continental, e no Brasil é impulsionada pela Rede Feminista de Saúde.

No encontro serão apresentadas as propostas e os resultados da Ponto Final no seu primeiro ano de atividade. Télia Negrão, coordenadora da campanha, explicou que a proposta deste programa é diferente de outros que incentivam a punição do agressor, por exemplo. Segundo ela, o objetivo da campanha Ponto Final é "chamar a atenção da sociedade para refletir sobre a violência contra mulheres e meninas".

"Estamos questionando os padrões culturais e morais que fizeram com que as pessoas se acostumassem com a violência de gênero. A meta da campanha é criar uma mobilização social de pessoas que condenam e que digam Não! à violência de gênero, raça e etnia contra as mulheres", ressaltou.

Télia esclareceu que a campanha tem caráter internacional já que é originária da África e da Ásia e está sendo desenvolvida em outros três países, além do Brasil: Bolívia, Guatemala e Haiti. Ela disse que a campanha foi trazida para o Brasil em 2008 e que desde então, foram feitos estudos, planejamento e adaptações, de acordo com a realidade brasileira. "Em 2009 foi feito um trabalho para sensibilizar possíveis parceiros", completou.

Depois deste trabalho preparatório, a campanha começou a ser desenvolvida, no início deste ano, em diversas localidades. Um exemplo é o da comunidade Campo da Toca, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Segundo Télia, neste bairro com trinta mil habitantes, foi feito um mapeamento do perfil da comunidade, além de um trabalho de conscientização. "O resultado é que toda a comunidade está envolvida. Esta é a prevenção primária", salientou.

Ela enfatizou que a campanha já foi lançada em 14 estados brasileiros, em sessões de assembleias legislativas, câmara de vereadores, universidades, através de palestras e oficinas de formação.

A coordenadora explicou que a campanha é aberta à adesão de qualquer pessoa interessada em defender a causa. Para isso, basta divulgar o material de campanha através de reuniões, palestras, oficinas, rodas de discussão. O material que inclui folder, banner, cartaz, vídeos e estudos, está disponível no site:

http://www.campanhapontofinal.com.br/.

Fonte: http://www.adital.com.br/

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O preço de não escutar a natureza


Leonardo Boff

O cataclisma ambiental, social e humano que se abateu sobre as três cidades serranas do Estado do Rio de Janeiro, Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, na segunda semana de janeiro, com centenas de mortos, destruição de regiões inteiras e um incomensurável sofrimento dos que perderam familiares, casas e todos os haveres tem como causa mais imediata as chuvas torrenciais, próprias do verão, a configuração geofísica das montanhas, com pouca capa de solo sobre o qual cresce exuberante floresta subtropical, assentada sobre imensas rochas lisas que por causa da infiltração das águas e o peso da vegetação provocam frequentemente deslizamentos fatais.

Culpam-se pessoas que ocuparam áreas de risco, incriminam-se políticos corruptos que destribuíram terrenos perigosos a pobres, critica-se o poder público que se mostrou leniente e não fez obras de prevenção, por não serem visíveis e não angariarem votos. Nisso tudo há muita verdade. Mas nisso não reside a causa principal desta tragédia avassaladora.

A causa principal deriva do modo como costumamos tratar a natureza. Ela é generosa para conosco pois nos oferece tudo o que precisamos para viver. Mas nós, em contrapartida, a consideramos como um objeto qualquer, entregue ao nosso bel-prazer, sem nenhum sentido de responsabilidade pela sua preservação nem lhe damos alguma retribuição. Ao contrario, tratamo-la com violência, depredamo-la, arrancando tudo o que podemos dela para nosso benefício. E ainda a transformamos numa imensa lixeira de nossos dejetos.

Pior ainda: nós não conhecemos sua natureza e sua história. Somos analfabetos e ignorantes da história que se realizou nos nossos lugares no percurso de milhares e milhares de anos. Não nos preocupamos em conhecer a flora e a fauna, as montanhas, os rios, as paisagens, as pessoas significativas que ai viveram, artistas, poetas, governantes, sábios e construtores.

Somos, em grande parte, ainda devedores do espírito científico moderno que identifica a realidade com seus aspectos meramente materiais e mecanicistas sem incluir nela, a vida, a consciência e a comunhão íntima com as coisas que os poetas, músicos e artistas nos evocam em suas magníficas obras.

O universo e a natureza possuem história. Ela está sendo contada pelas estrelas, pela Terra, pelo afloramento e elevação das montanhas, pelos animais, pelas florestas e pelos rios. Nossa tarefa é saber escutar e interpretar as mensagens que eles nos mandam.

Os povos originários sabiam captar cada movimento das nuvens, o sentido dos ventos e sabiam quando vinham ou não trombas d'água. Chico Mendes com quem participei de longas penetrações na floresta amazônica do Acre sabia interpretar cada ruído da selva, ler sinais da passagem de onças nas folhas do chão e, com o ouvido colado ao chão, sabia a direção em que ia a manada de perigosos porcos selvagens. Nós desaprendemos tudo isso. Com o recurso das ciências lemos a história inscrita nas camadas de cada ser. Mas esse conhecimento não entrou nos currículos escolares nem se transformou em cultura geral. Antes, virou técnica para dominar a natureza e acumular.

No caso das cidades serranas: é natural que haja chuvas torrenciais no verão. Sempre podem ocorrer desmoronamentos de encostas. Sabemos que já se instalou o aquecimento global que torna os eventos extremos mais freqüentes e mais densos. Conhecemos os vales profundos e os riachos que correm neles. Mas não escutamos a mensagem que eles nos enviam que é: não construir casas nas encostas; não morar perto do rio e preservar zelosamente a mata ciliar. O rio possui dois leitos: um normal, menor, pelo qual fluem as águas correntes e outro maior que dá vazão às grandes águas das chuvas torrenciais. Nesta parte não se pode construir e morar.

Estamos pagando alto preço pelo nosso descaso e pela dizimação da mata atlântica que equilibrava o regime das chuvas. O que se impõe agora é escutar a natureza e fazer obras preventivas que respeitem o modo de ser de cada encosta, de cada vale e de cada rio.

Só controlamos a natureza na medida em que lhe obedecemos e soubermos escutar suas mensagens e ler seus sinais. Caso contrário teremos que contar com tragédias fatais evitáveis.


Fonte: http://www.adital.com.br/

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

OMS: violência contra mulher é prioridade de saúde pública


Nova York (Rádio ONU) - A Organização Mundial da Saúde, OMS, afirmou que a violência contra a mulher representa uma prioridade urgente de saúde pública.

A declaração faz parte de um boletim da agência, publicado no início deste mês. Segundo o documento do Departamento de Saúde Reprodutiva e Pesquisa, a "violência contra mulheres é talvez a mais vergonhosa das violações de direitos humanos".

Parceiros

A pesquisa sobre o crime, em especial sobre a violência praticada por parceiros das mulheres, tem aumentado. Desde 2005, a prevalência de estudos subiu de 80 para mais de 300, em 2008.

A OMS tem agora dados de mais de 90 países. A agência tem dificuldade, no entanto, para receber informações do Oriente Médio e do oeste da África.

A violência contra mulheres é geralmente direta através de homicídios ou indireta com casos de suicídios e de doenças como a Aids.

A pesquisa da ONU também indica que a violência feminina tem custos altos. Em 2002, a organização Saúde Canadá informou que os gastos diretos com tratamento médico era de mais de 1 bilhão de dólares canadenses, o equivalente a cerca de US$ 1 bilhão.

Fonte: http://www.oreporter.com/



quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Celebrar a Vida

por Fernanda Priscila Alves da Silva

Celebrar a vida


Ah! Celebrar...


Supõe tantas coisas


Pede para trás olhar


Nossa, quanta coisa!


Quanta vida!


Celebrar a vida


É ter coragem...


De parar,


De ir além


E até chorar...


Deixar escorrer as lágrimas, a dor,


Deixá-las falar, palpitar.


Celebrar a vida...


É olhar o álbum.


Fotos ver,


Sentimentos reviver,


Abrir o diário


E ousar perder,


Temer o mistério das palavras escritas


E se alegrar com doces cantigas


Celebrar a vida...


Ah! Celebrar...


Quão bom é!


Só tenho saudades



(Poema de Fernanda Priscila Alves da Silva, extraído do livro "Estações do crer", publicado pelo CEBI em 2010)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Natal 2010

É difícil detectar O Anúncio

em meio a tantos anúncios que nos invadem.

 
Ainda existe Natal?

Natal é a Boa Nova?

Natal é também Páscoa?


Sabemos que «não há lugar para eles».

Sabemos que há lugar para todos,

até para Deus...


 
O boi e a mula,

fugindo do latifúndio,

se refugiaram nos olhos desta Criança.



A fome não é só um problema social,

é um crime mundial.



Contra o Agro-Negócio capitalista,

a Agro-Vida, o Bem Viver.



Tudo pode ser mentira,

menos a verdade de que Deus é Amor

e de que toda a Humanidade

é uma só família.



Deus continua entrando por debaixo,

pequeno, pobre, impotente,

mas trazendo-nos a sua Paz.



A dona Maria e o seu José

continuam na comunidade.

A Veva continua sendo tapirapé.

O sangue dos mártires

continua fecundando a primavera alternativa.

Os cajados dos pastores

(e do Parkinson também),

as bandeiras militantes,

as mãos solidárias

e os cantos da juventude

continuam alentando a Caminhada.



As estrelas só se enxergam de noite.

E de noite surge o Ressuscitado.



«Não tenhais medo».

 
Em coerência, com teimosia e na Esperança,

sejamos cada dia Natal,

cada dia sejamos Páscoa.

 
Amém, Axé, Awire, Aleluia.



Pedro Casaldáliga,



Natal 2010, ano novo 2011.

Fonte: http://www.adital.org/


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Direitos das mulheres da batalha

Entrevista com Isabel Brandão Furtado[1]




Dia 11 de dezembro de 2010, Delze dos Santos Laureano e Gilvander Luís Moreira entrevistaram a psicóloga Isabel Brandão Furtada, que pertence à coordenação da Pastoral da Mulher Marginalizada, de Belo Horizonte – BH -, MG. O assunto foi o Direito Fundamental da Dignidade da Pessoa Humana e os Direitos das Mulheres Marginalizadas que estão na prostituição no centro da capital mineira e em todas as cidades do Brasil e do mundo. A entrevista irá ao ar pela TV Comunitária, de Belo Horizonte – TVC/BH - e será disponibilizada, em breve, na internet, via www.youtube.com – Transcrevemos, abaixo, os principais pontos da entrevista.



1) Para início de conversa, gostaríamos que você falasse um pouco sobre a sua trajetória de vida. Por que optou pela psicologia como profissão? Por que e como abraçou a causa das mulheres que estão sobrevivendo na prostituição no centro de Belo Horizonte?



Isabel Brandão: Formei-me há 30 anos atrás. Tenho um grande desejo de conhecer o ser humano, de cuidar. Tenho uma certeza: gosto muito de estar com pessoas, amo gente.



O trabalho da Pastoral da Mulher Marginalizada é um longo e contínuo caminho de conversão que começou quando fui trabalhar como voluntária na Casa Madre Teresa (que está no centro de Belo Horizonte), que é uma associação que cuida de mulheres com trajetória de rua. Ali fiquei conhecendo tio Maurício[2] e através dele cheguei à Pastoral. Para mim é muito importante a dimensão da espiritualidade e este é o jeito que encontrei de me aproximar de Deus. Para mim Deus tem o rosto dessas mulheres. Então é tudo uma questão de amor. Eu sou apaixonada pelo meu trabalho.



A Pastoral da Mulher Marginalizada é uma associação sem fins lucrativos, existe a mais de 25 anos. Começou como iniciativa de um grupo de religiosas e leigas sensibilizados ante a situação das mulheres que batalhavam na Lagoinha e no Bonfim (centro velho de Belo Horizonte). Hoje é apoiada pelas Irmãs Oblatas do Santíssimo Redentor, que a cerca de 150 anos foram fundadas na Espanha para cuidar das mulheres em situação de prostituição e atualmente realizam este trabalho em várias partes do mundo. Está composta por uma equipe interdisciplinar que recolhe essa herança e assume essa missão.


2) Atualmente, a região central de Belo Horizonte é o local onde se concentra o maior número de mulheres que exercem a prostituição na capital mineira, sendo marcada pela presença dos “hotéis de alta rotatividade” e pela prostituição de rua localizada na Praça da Rodoviária. Qual é a realidade das mulheres que estão na prostituição no centro de BH?

Isabel Brandão: O público da Pastoral é as mulheres que batalham no hipercentro de BH. Elas se autoreconhecem como “mulheres da batalha”. Essa é a realidade com a qual trabalhamos, mas em BH existem inúmeros pontos de prostituição: boates, casas de massagem, saunas, o alto da Afonso Pena, os books dos hotéis de luxo.

Não podemos esquecer que estamos focando na prostituição feminina. Existem também os garotos de programa e os travestis, porém esta é uma realidade que não conheço.

O que observo é que as cerca de 2000 mulheres que estão no hipercentro de BH, antes de serem mulheres em situação de prostituição, são mulheres pobres, são mães de família lutando sozinhas pela manutenção de seus filhos. Se ampliarmos o nosso olhar e enxergarmos para além do estigma imposto a essas mulheres, vamos ver um universo em comum. São pessoas que desde muito cedo convivem com a pobreza crônica e suas implicações: moradia, alimentação, saúde, escolaridade precárias; famílias desestruturadas. Observo que os pais que não conseguem prover os filhos reagem a essa frustração com violência; a raiva que sentem pela situação de penúria em que vivem é deslocada para os filhos. Então, foram crianças que conviveram com violência, alcoolismo, abusos sexuais por parte dos cuidadores, que nem sempre são os pais. São mães muito jovens já que iniciam muito precocemente a vida sexual. Geralmente, o pai não está presente e devem cuidar sozinhas dos filhos. O mais comum é que conheçam a prostituição através de uma amiga. Posso citar o caso de uma mulher que estava passando grande dificuldade com os filhos e uma amiga a aconselhou a se prostituir. Ela reagiu dizendo que de forma nenhuma faria isto, porque sentia muita vergonha. A amiga lhe disse: “vergonha é seus filhos morrendo de fome”. Não quero que estes comentários reforcem a idéia de que a mulher é apenas “uma vítima do sistema”. Quero antes destacar que é uma mulher de luta, da batalha como elas mesmas dizem e que, por mais estranho que seja, lutam com os recursos que tem.

3) Existe, de fato, uma realidade comercial no mundo da prostituição no centro de BH? Diárias, preços dos programas, condições de trabalho, seleção de mulheres etc? Enfim, quem ganha com a prostituição?

Isabel Brandão: Há mais de 50 anos a região central de Belo Horizonte é conhecida como área de prostituição. São cerca de 20 hotéis onde batalham aproximadamente 2000 mulheres. Há uma estimativa informal, baseada no consumo de preservativos de que ali ocorrem 300 mil relações sexuais por mês. O preço médio do programa é de 10 reais e a diária em torno de 60 reais. Quer dizer que 60% do total arrecadado é distribuído para os 20 proprietários de hotéis e os 40% restante para as 2000 mulheres. Há proprietários que são donos de vários hotéis. Além de pagar a diária, as mulheres devem levar o material de trabalho: camisinha, papel higiênico, gel lubrificante, a roupa de cama e banho e mais a alimentação e o transporte. E mais: são responsáveis pela limpeza do quarto. Os hotéis são prédios antigos com infra-estrutura muito precária. Geralmente a cama é de alvenaria, há somente um bidê ou um vaso sanitário, o chuveiro é coletivo, um por andar, o ambiente é mal iluminado, pouca ventilação e a limpeza é precária. Além disso, os hotéis costumam vender os materiais necessários ao trabalho e alugar as roupas de cama, caso a mulher não leve a sua. Enquanto trabalha, se a mulher precisar comprar ou pagar algo na cidade, deve pagar uma pessoa para fazer este serviço. Apesar de tudo as mulheres costumam dizer que o dinheiro não é fácil, mas é rápido. Enfim, quando a mulher começa sua batalha diária, ela inicia devendo acima de 100 reais, ou seja, somente após fazer dez programas, ela ganhará algo para si e para sua família.


4) Qual o objetivo da Pastoral da Mulher Marginalizada? Ainda existe hoje a velha tentativa de retirar as mulheres da prostituição, como se todas estivessem neste trabalho por falta de opção?

 
Isabel Brandão: A pergunta que sempre nos fazem é se pretendemos tirar a mulher da prostituição. Nós, porém, acolhemos indistintamente as que desejam deixar a batalha e as que não desejam. Oferecemos capacitações nas áreas de seu interesse, independentemente da decisão que tomem. Nós temos cursos de inclusão digital, costura, cabeleireira, culinária e orientação educacional para as que desejam retomar os estudos. Temos também um pequeno grupo que trabalha nos princípios da Economia Popular Solidária produzindo bolsas de tecido. Contudo, o mais importante para nós não é a capacitação e sim os conteúdos formativos que trabalhamos com as mulheres. Damos ênfase especial aos temas relacionados a gênero, cidadania, educação e saúde. Entendemos que assim podemos fortalecer sua auto-estima, o conhecimento de si mesma e de seus direitos resgatando sua dignidade.

Este ano, o de 2010 em especial, firmamos parceria com a Defensoria Pública Estadual e discutimos algumas questões relativas à revitalização do hipercentro de BH que é um projeto da prefeitura. Até o momento não temos informações concretas. O que constatamos é que não existe preocupação com a situação das mulheres. Lançamos também uma cartilha em parceria com a Faculdade de Enfermagem da UFMG[3]. A cartilha “Quem vê cara não vê contaminação” aborda DST/AIDS e foi elaborada a partir de dúvidas das próprias mulheres. Quer dizer, o seu conteúdo é bem específico para o público em questão. A cartilha, inclusive recebeu o prêmio “UFMG Conhecimento e Cultura 2010” . Temos também parceria com o Centro de Saúde Carlos Chagas (localizado à Al. Ezequiel Dias, 345, Centro de Belo Horizonte, MG) que atende muito bem as mulheres que encaminhamos. Com isso tentamos minimizar a absoluta falta de políticas públicas voltadas para as mulheres em situação de prostituição.


5) Isabel, você fez especialização, inclusive com monografia, sobre o mundo das mulheres que estão na prostituição no centro de BH. Você deve ter feito pesquisa e estudou muito. Quais foram as principais descobertas?

Isabel Brandão: Acho duas questões fundamentais. Primeiro, a prostituição é um tema complexo e não podemos pensá-lo fora de um contexto sócio-político-econômico, transversalizado pelas questões do patriarcado e de gênero. A história de opressão das mulheres é antiga. Passamos da condição de deusas na Antiguidade para bruxas na Idade Média. Nosso corpo, secularmente tem sido colocado como propriedade do homem e servido para a procriação. Com a desculpa de nossa pouca força física e da necessidade de cuidar da prole nos excluíram da vida produtiva e da vida pública. Homem de vida pública é político. E a mulher da vida pública quem é?


Outra questão: estamos num mundo capitalista, neoliberal, pautado pelo individualismo e pelo consumismo, onde consumir é existir. A roupa que vestimos, o celular que usamos, o bairro onde moramos, o nosso corpo fala de quem somos, de onde viemos. O bolso é o mais profundo que se vê das pessoas. Quem está fora não pertence, não é. Quem vai calar essa dor? Porém, o que me encanta é que no exercício da prostituição existe uma ética. A mulher decide qual o cliente atenderá, que tipo de programa realizará e quanto cobrará. Assim, ela pode exercer minimamente seu poder de decisão. Pode parecer estranho, mas a transgressão é a possibilidade que tem de confrontar a sociedade excludente na qual vive.


6) As mulheres que estão na prostituição no centro de BH sofrem violência? Há ocorrência de mortes?

Isabel Brandão: A violência é constante tanto por parte dos clientes quanto por parte dos gerentes, funcionários e proprietários dos hotéis. Além disso, a violência simbólica impede que a mulher assuma inclusive seu nome verdadeiro. Um de seus maiores temores é de que seja reconhecida. Assim está constantemente acuada. Estamos lançando um jornalzinho e criamos um blog – http://coisasdehomensdebh.blogspot.com/ - visando conhecer quem são esses homens que freqüentam a zona e sensibilizá-los para a realidade das mulheres. Neste jornal publicamos o texto de uma mulher que participa da Pastoral onde ela relata o que seria o cliente ideal, “um Cavalheiro: Aquele que nos trata com afeto mesmo sabendo que somos profissionais; aquele cara que nos procura pelo nosso trabalho e nos respeita; aquele que se alivia conosco do estresse do dia-a-dia, nos agradecendo por existirmos; aquele cliente que chama-nos para beber e não usa isso como vantagem; aquele que nos convida para um almoço pelo simples prazer da nossa companhia; aquele homem que vem limpinho e cheiroso para nós que fazemos de tudo para estarmos limpinha e cheirosa para ele; aquele que pode ser operário, peão, comerciante, estudante, professor, doutor..., mas demonstra educação; aquele que mesmo tendo trabalhado tanto, o dia todo, estando tão cansado não desconta em nós; aquele antes de tudo, este homem seja um gentleman.”

7) Como é a atuação dos poderes públicos em vista do desrespeito à dignidade da pessoa humana, em especial o direito dessas mulheres?

Isabel Brandão: Conhece o ditado “a corda sempre arrebenta do lado mais fraco”? Infelizmente é isso que acaba acontecendo. As mulheres da batalham são tratadas como objeto, como mercadoria, e não como sujeitos de direito, como tendo dignidade humana.

8) A COPA vem aí, em 2014. As mulheres que estão na prostituição no centro de BH serão atingidas pela COPA também? Como?

Isabel Brandão: Bom, entre as mulheres corre a notícia de que BH é um bom lugar para se ganhar dinheiro já que não há o cafetão. Acredito que a Copa atrairá muitas mulheres. Por outro lado, os donos dos hotéis já se mobilizam maquiando a dura e triste insalubridade dos hotéis. Tem feito pequenas reformas, oferecido plano de saúde a umas poucas e estão associados entre si e articulados com o poder público. Pretendem o tombamento da região como patrimônio histórico a exemplo do que aconteceu com o bairro da Lapa, no Rio de Janeiro. Buscam dar uma aparência de legalidade ao lugar. De fato não se comportam como cafetões com aparência paternalista, mas como homens de negócio que procuram o máximo lucro a qualquer preço. Já percebemos a seleção de mulheres. As mais idosas, as que estão fora dos padrões estéticos preestabelecidos e as que usam algum tipo de droga estão sendo excluídas. Provavelmente, porque darão menos lucro; podem não conseguir o suficiente para pagar a diária que deve ser paga impreterivelmente no final da jornada. Se não pagar, não entra no dia seguinte.

9) A “revitalização” do hipercentro de BH trará mais impactos e conseqüências na vida das mulheres que sobrevivem da prostituição?


Isabel Brandão: As mulheres consideram o que fazem como um trabalho e é dali que retiram seu sustento e o de sua família. Em conversas com as mulheres elas relatam que uma das maiores tristezas é não ter a chave de um quarto parar trabalhar. Imagine as contas vencendo, os mantimentos acabando e não ter o dinheiro para pagar? Para onde irão essas mulheres? É uma situação preocupante. Por outro lado sabemos que é um negócio rentável e constatamos que os donos de hotéis estão empenhados em mantê-lo. Temos notícias de que nas cidades onde cresce a mineração cresce também a prostituição.

10) Essas mulheres são consideradas como sujeitos de direito, inclusive porque auferem a renda para manter as suas vidas nessa atividade, na elaboração e decisão das políticas públicas que atingem o hipercentro de BH?


Elas não são consideradas pela sociedade e pelo poder público como sujeito de direito e elas mesmas desconhecem quais são seus direitos. Isso aumenta as dificuldades de reivindicar.


11) As mulheres da prostituição do centro de BH estão organizadas? Lutam pelos seus direitos? Como?

Isabel Brandão: Lutam do jeito delas. Não há uma organização como a que existiu em outros lugares onde lutaram pelos direitos previdenciários e trabalhistas das mulheres da batalha. É muito difícil a organização das mulheres da batalha no centro de Belo Horizonte. Primeiro, porque muitas são de fora e passam aqui 2 ou 3 meses e retornam para seus lugares de origem. A rotatividade é grande. A outra questão está relacionada ao preconceito e estigma que pesa sobre elas. È muito difícil que uma mulher assuma a sua condição de trabalho. Como uma já me disse: como vou dizer que sou prostituta? E aquelas que têm atitudes mais reivindicativas encontram maior dificuldade de encontrar quarto.

12) Isabel, você participou recentemente de um Seminário em Salvador, Bahia, sobre a realidade das mulheres que estão na prostituição no Brasil. O que foi apresentado, discutido e planejado?

Isabel Brandão: O seminário aconteceu em Salvador nos dias 10, 11 e 12 de novembro de 2010, para celebrar os 10 anos do Projeto Força Feminina que também é coordenado pelas irmãs Oblatas. O tema do seminário foi “Mulheres na Batalha pela cidadania: dialogando sobre a mercantilização dos corpos”. Várias questões foram abordadas, mas quero ressaltar o que se refere ao tráfico de seres humanos. Os últimos dados nos dão conta de que a rentabilidade desse tipo de negócio superou a das drogas. Primeiro está o comércio de armas, segundo o tráfico de seres humanos e depois as drogas. A justificativa é que armas e drogas são vendidas somente uma vez, enquanto o ser humano pode ir passando de mão em mão. Em Portugal 40% das mulheres em situação de prostituição são brasileiras e na Espanha 80%. Segundo a ONU há no mundo 140 mil mulheres nessa situação. O faturamento desta “indústria” está estimado em 35 milhões de dólares. Vale lembrar que nos dias 8, 9 e 10 de novembro de 2010 aconteceu em BH o 1º Encontro Nacional da Rede de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, promovido pela Secretaria Nacional de Justiça do Ministério da Justiça, visando estruturar o 2º Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas. Além da maior vigilância dos poderes públicos, medidas preventivas são necessárias. Primeiro, sensibilizar e informar a sociedade de maneira geral sobre essa questão. E para aquelas pessoas que estão mais vulneráveis à situação informar e alertar incisivamente.

13) Isabel, no evangelho de Mateus, Jesus diz a alguns fariseus: “as prostitutas vos precederão no Reino dos céus.” (Mateus 21,31). Há uns 5 meses frei Gilvander escreveu uma parábola intitulada “Jesus num hotel de prostituição”. Isabel, você é uma pessoa cristã. Logo podemos perguntar: Na prostituição, onde está Deus? Onde está Deus entre as mulheres que batalham? Jesus está no meio das prostitutas? Como?

Isabel Brandão: Deus está no corpo abusado e machucado de cada mulher. Está também na coragem de cada uma em enfrentar os desafios de cada dia. Está também na alegria e bom humor com que enfrentam situações constrangedoras e nas iniciativas de ajuda mútua para superar as adversidades. Devemos acolher o convite que está no evangelho: “vinde e vede” (Jo 1,39). Aproxime, ouça, veja, dialogue, e você verá que em toda mulher que está na prostituição esconde Deus, está ali uma infinita dignidade humana que não pode ser desrespeitada. Elas estão clamando por respeito e solidariedade.


14) Isabel, certamente, conviver com as mulheres que sobrevivem da prostituição deve ser um grande desafio. O que você aprendeu e aprende com essas mulheres? Como você vê o ser humano e o mundo hoje a partir da perspectiva dessas mulheres que vivem à margem da sociedade, já que são vítimas de toda forma de abuso em vista do trabalho que exercem?


Isabel Brandão: Todo dia aprendo que ainda tenho muito para aprender e me surpreendo com a capacidade de superação do ser humano. Tenho um pacto comigo mesma de nunca me acostumar com essa situação e me indignar sempre.


15) Como é a relação das mulheres da batalha com a Polícia, de um modo geral?


Isabel Brandão: Podemos perceber que ao longo dos anos o relacionamento das mulheres com policiais tem melhorado dado que há maior respeito entre ambos. Ainda assim, persiste alguma desconfiança, especialmente quando há batidas policiais nos hotéis para apreensão de drogas ou traficantes e quando a mulher sofre agressões e tem que denunciar. Pesa o estigma “é prostituta, você procurou”.


16) Qual o caminho a ser trilhado para combater os preconceitos e a discriminação que se tem contra as mulheres da prostituição?


Isabel Brandão: Bom, o caminho só existe quando você passa, não é assim? Então, não devemos julgar sem conhecer e sem nos perguntar pelas raízes históricas desses fatos. Devemos saber que somos co-responsáveis por essa situação. Como nos diz Hannah Arendt ninguém tem culpa da situação na qual nasceu, mas todos temos responsabilidade e devemos nos comprometer com a construção de um mundo justo, solidário, ecumênico e sustentável ecologicamente.

Obs.: Quem quiser assistir à entrevista, via internet, busque em www.youtube.com.br “Direitos das mulheres marginalizadas” ou “Pastoral da Mulher Marginalizada, de Belo Horizonte, MG”.

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[1] Psicóloga integrante da Coordenação da Pastoral da Mulher Marginalizada, de Belo Horizonte, BH – www.pastoraldamulher.blogspot.com – e-mail: apmmbh@yahoo.com.br


[2] Membro da Pastoral do Menor da Arquidiocese de Belo Horizonte, MG. Tio Maurício é um “místico militante nas ruas do Brasil”, cercado de uma espiritualidade encarnada na vida que busca contemplar o rosto sofrido de Jesus Cristo no rosto desfigurado dos pobres e mendigos da rua. É também autor do livro “O Beijo de Deus”, no qual narra sua experiência junto aos moradores da rua. Sobre tio Maurício, cf. o link: http://www.catolicanet.com/?system=news&action=read&id=54156&eid=293

[3] Universidade Federal de Minas Gerais.