sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Parteiras tradicionais: um retorno à valorização do parto natural


IHU -  Instituto Humanitas Unisinos


Expectativa, medo, curiosidade, angústia, planejamentos... toda mulher grávida vive um misto de sentimentos na esperança de que seu bebê esteja e seja saudável, que seja uma pessoa boa, um ser humano de bom coração, que venha ao mundo de forma tranquila, sem sofrimento. Enquanto algumas mulheres, pensando na segurança do filho, escolhem o parto no hospital, algumas vezes através de cesárea, hoje muitas mães querem um parto mais humanizado e natural e algumas têm optado pelo acompanhamento das parteiras tradicionais. Aproveitando o Encontro Nacional Parteiras Tradicionais: Inclusão e melhoria da qualidade da assistência ao Parto Domiciliar no SUS, a IHU On-Line entrevistou, por telefone, a enfermeira e parteira Paula Viana. "Uma vez, no interior do Amazonas, conversei com uma médica e uma parteira. E a médica perguntou: ‘qual é a diferença do meu atendimento para o seu?’. Desta forma, a parteira respondeu: ‘a diferença é que você tem pressa e eu não’", relatou.

Paula Viana é enfermeira-obstetra em Recife (PE), faz partos domiciliares e coordena o Grupo Curumim, uma organização não governamental feminista que desenvolve projetos de fortalecimento da cidadania das mulheres em todas as fases de suas vidas.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em que sentido a parteira é mais humana do que o médico em relação ao parto?

Paula Viana - A parteira representa o elo entre a comunidade e o Sistema Único de Saúde (SUS). Elas têm um trabalho de atenção integral à saúde da mulher e da criança, pois acompanham toda a gravidez, conhecem a vida das famílias, chamam-nas pelo nome e representam o mesmo nível social e econômico dos clientes, o que aproxima ainda mais a parteira da mãe. Isso é fundamental para o momento da gravidez, do parto e do pós-parto.

O parto não é só um evento médico, é um evento social e familiar que tem a mulher como protagonista. Então a parteira tem essa capacidade de interagir de forma mais humana, no sentido do pensamento mais holístico. Não que não haja médicos que façam assistência desse tipo. Porém há uma distância maior entre médicos e médicas e as mulheres das comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombo, floresta, onde estão as parteiras tradicionais. Elas têm muito o que ensinar para nós.

Uma vez, no interior do Amazonas, conversei com uma médica e uma parteira. E a médica perguntou: "qual é a diferença do meu atendimento para o seu?". Desta forma, a parteira respondeu: "a diferença é que você tem pressa e eu não". As parteiras não têm pressa mesmo, elas acompanham a mãe e isso torna o parto mais humano.

IHU On-Line - Você pode descrever o panorama geral da situação das parteiras tradicionais no mundo?

Paula Viana - Há um movimento internacional das parteiras, que reúne parteiras de vários países da América do Sul, do Canadá, do México, Europa. Esse movimento busca a valorização dessas trabalhadoras em saúde e também respeito às suas tradições. A tecnologia, quando entrou na sala de parto, veio para ajudar. Nós agradecemos porque existe a possibilidade da cesárea para que possamos salvar vidas. No entanto, essa tecnologia afastou a ideia do parto como um evento antropológico e social. A luta do movimento internacional é para que a parteira seja vista como uma aliada. Ela tem que ensinar ao sistema público de saúde, mas ela também tem que aprender.

IHU On-Line - Hoje, quando e como uma mulher se torna parteira?

Paula Viana - Existem alguns tipos de parteiras: tem a enfermeira-obstetra, que é uma parteira. Eu mesma sou uma enfermeira-obstetra, uma parteira domiciliar. Existe a parteira que faz um curso técnico de três anos que é treinada só para o parto normal e tem formações originais diferentes. Já a parteira tradicional é aquela formada pela experiência. Algumas dizem: "eu aprendi no susto". Aqui no encontro há 26 parteiras tradicionais e 34 enfermeiras e médicos. Essas 26 trazem relatos muito interessantes quanto a sua formação. Uma disse que começou aos 12 anos de idade. Ela foi chamada numa primeira ocasião, depois é chamada de novo e com isso vão pegando experiência. A teoria é importante, a parte tecnológica da obstetrícia é fundamental, mas o que conta mesmo é o conhecimento empírico. Um dos intuitos desse encontro é dizer o quanto é importante que essas parteiras tradicionais repassem seus conhecimentos às mais novas.

IHU On-Line - O que acontece quando um parto dá errado? A quem a parteira pode recorrer?

Paula Viana - Esse encontro é a finalização de um processo que dura dez anos. Ao longo desse período percebemos que as complicações não acontecem porque a parteira está atendendo. Os problemas ocorrem porque não existe um sistema de saúde apoiando. A parteira que faz parte dos cursos e recebe material sobre cuidados tem a capacidade de acompanhar fatos que podem complicar na hora do parto. Se a mulher faz um pré-natal de qualidade e a parteira está próxima e ocorre algum problema, ela consegue diagnosticar precocemente. Quando o município dá apoio, certamente dispõe de sistema de transporte que possa levar em tempo a mulher e o bebê ao hospital. Hoje, a mortalidade materna e neonatal não tem relação com o trabalho da parteira tradicional,

IHU On-Line - Qual a sensação quando um parto dá errado?

Paula Viana - Ela se sente muito impotente. Muitas vezes as parteiras, como falei antes, têm um nível econômico muito parecido com o da mulher que está atendendo. Quantas e quantas parteiras que conheci colocam dinheiro do próprio bolso para pagar uma gasolina, o aluguel de um carro para levar a mulher a um hospital ou mesmo levá-la até a casa da grávida. Mas a parteira tem limites. E esse encontro que estamos fazendo em Brasília serve, justamente, para que o SUS, o Ministério da Saúde, os governo municipais e estaduais incluam o trabalho da parteira tradicional nas suas políticas.


IHU On-Line - Como a parteira se prepara para ajudar a mulher no momento do parto?

Paula Viana - Há tantas formas. Há uma diversidade enorme de formações no Brasil. Assim, as mulheres se preparam no embate, no dia a dia, a partir do seu conhecimento. Estados como Amazonas, Pernambuco, Paraíba, Acre, Pará têm dado material para as parteiras. Assim, elas têm bolsa para carregar seus materiais, recebem instruções para esterilização do material e acomodação de equipamento. Elas se preparam na vida e aproveitando esses cursos e encontros que estão sendo realizados.

IHU On-Line - Como foi o processo para tornar responsabilidade do SUS o nascimento domiciliar assistido por parteira?

Paula Viana - Desde 1940 existem políticas que visam tornar a parteira parte do sistema. Em 1991, foi escrito um Programa Nacional de Parteiras Tradicionais e iniciou-se nos estados uma série de ações, capacitações, cursos. Já a partir de 2000, que é o processo que estamos finalizando agora, esse trabalho se voltou muito aos municípios, colocando para eles suas responsabilidades. É preciso saber quem, lá na comunidade, gerencia a saúde da população e o responsável é o município. Está presente aqui no encontro uma representante do Conselho Nacional de Secretários Municipais.

Esse processo é lento. As parteiras reivindicam uma remuneração pelo trabalho e até hoje pouquíssimos municípios tornaram isso realidade. Poucos também forneceram material e as vincularam ao sistema de saúde. Isso tudo faz parte da nossa luta. Nós sabemos que aos poucos vamos superando as barreiras, um dos maiores é o corporativismo médico. As parteiras não querem substituir ninguém, mas elas existem e precisam do apoio do SUS que tem que dar conta tanto de UTIs neonatal de alta tecnologia quanto àquele parto feito na beira do rio feito com luz de candeeiro. Esse é um direito básico nosso como cidadãs brasileiras.

IHU On-Line - Por que está ficando mais forte hoje o retorno às parteiras?

Paula Viana - Esse movimento também se deve às parteiras. Elas sempre existiram. Porém, estão ganhando mais repercussão porque algumas organizações do movimento feminista têm dado mais atenção à questão atualmente uma vez que as parteiras representam um retorno ao parto normal e a valorização do parto natural.





Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Credo da Mulher




Por Rachel C.Wahlberg


Creio em Deus, que criou a mulher e o homem à sua imagem,

que criou o mundo e recomendou aos dois sexos o cuidado da terra.

(Gn 1-2)

Creio em Jesus, filho de Deus, nascido de uma mulher, Maria,

que escutava as mulheres e as apreciava,

que morava em suas casas e falava com elas sobre o Reino,

que tinha mulheres discípulas

que o seguiam e o ajudavam com os seus bens.

(Mt 27.55; Lc 10.38)

Creio em Jesus,

que falou de teologia com uma mulher junto a um poço,

e lhe revelou, pela primeira vez, que ele era o Messias,

que a motivou a ir e contar as grandes novas à cidade.

(Jo 4.7ss)

Creio em Jesus, sobre quem uma mulher derramou perfume em casa de Simão,

que repreendeu aos homens convidados que a criticavam;

creio em Jesus, que disse que essa mulher seria lembrada

pelo que havia feito: servir a Jesus.

(Mt 26)

Creio em Jesus, que curou uma mulher no sábado,

e lhe restabeleceu a saúde, porque era um ser humano.

(Lc 13.10ss)

Creio em Jesus, que comparou Deus

com uma mulher que procurava uma moeda perdida,

com uma mulher que varria, procurando a sua moeda.

(Lc 15.8ss)

Creio em Jesus, que considerava a gravidez e o nascimento com veneração,

não como um castigo, mas como um acontecimento desgarrador,

uma metáfora de transformação, um novo nascer

da angústia para a alegria.

(Mt 24.8; Jo 3.4s)

Creio em Jesus que se comparou à galinha choca

que abriga os seus pintinhos

debaixo de suas asas.

(Mt 22.37)

Creio em Jesus, que apareceu primeiro à Maria Madalena

e a enviou a transmitir a assombrosa mensagem da ressurreição:

Ide e contai.

(Lc 24)

Creio na universalidade do Salvador, em quem não há judeu nem grego,

escravo nem homem livre, homem nem mulher,

porque todos somos um na salvação.

(Gl 3.28)

Creio no Espírito Santo,

que se move sobre as águas da criação e sobre a terra.

Creio no Espírito Santo,

o espírito feminino de Deus,

que nos criou, e nos fez nascer,

e qual uma galinha nos cobre com suas asas.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

JESUS E AS MULHERES


Por Marilyn Adamson


Opiniões feministas têm freqüentemente criticado as diversas religiões devido à maneira como as mulheres são tratadas. E elas estão absolutamente certas. O que muitas opiniões feministas não levam em consideração é que Jesus teria sido um dos maiores aliados dos feministas.

Olhemos para a cultura do Oriente Médio, onde Jesus viveu. Rabinos judaicos iniciavam todos os encontros no templo com as seguintes palavras, "Bendito sejas Tu, Senhor, porque Tu não me fizeste mulher". As mulheres eram excluídas da vida religiosa e raramente lhes ensinavam a Torá em privacidade. Até que Jesus começou publicamente a incluir muitas mulheres como suas discípulas, o que enfurecia os líderes religiosos. Ele ensinou multidões de homens e mulheres, curou e, prontamente, operou muitos milagres tanto em meio aos homens quanto às mulheres.

Jesus também desafiou as leis sociais em relação a ambos os sexos. Naquele tempo, existia uma lei que permitia o marido divorciar-se da sua esposa por qualquer coisa, por exemplo, pelo fato do jantar não está pronto a tempo. Imagine a insegurança e a crueldade que essa lei trazia às mulheres. E, como você já deve prever, a esposa nunca poderia se divorciar do marido. Jesus, no entanto, anunciou que ambos, homens e mulheres, tinham o direito de se divorciar um do outro, mas somente em caso de adultério e mesmo assim ensinou que o divórcio, certamente, estava fora da maneira como Deus criou o casamento pra ser.

Outra lei social dos dias de Jesus era que a mulher que fosse pega em adultério deveria ser apedrejada até a morte. Ao homem, no entanto, não era reservado qualquer pena. Sabendo da maneira como Jesus tratava as mulheres com dignidade, eles queriam saber como Jesus lidaria com isso. Então, certo dia, vários homens arrastaram uma mulher, que foi pega na cama com um outro homem, que não seu marido, provavelmente um amigo deles, até Jesus. E desafiaram Jesus a consentir com o apedrejamento dela. Eles sabiam que tinham colocado Jesus contra a parede. Se ele desse perdão àquela mulher, ele seria um fraco e um inimigo da lei. Se Jesus a apedrejasse, eles confrontariam o tratamento respeitável com o qual Jesus tratava as mulheres e seus ensinamentos sobre misericórdia e perdão.

Jesus respondeu dizendo que se havia alguém naquela multidão que nunca havia pecado deveria jogar a primeira pedra na mulher. Provavelmente, não somente o que Jesus disse, mas também a sua presença que afetou a multidão. Um a um saiu daquele lugar. Jesus olhou pra mulher, que estava arrependida, e a perdoou completamente, como só de Deus poderia fazer.

O autor Philip Yancey comenta: "Para mulheres e outras pessoas oprimidas, Jesus virou de cabeça pra baixo a sabedoria da sua época. De acordo com o grande estudioso bíblico Walter Wink, Jesus violou as morais do seu tempo em todos os seus encontros com mulheres registrados nos quatro Evangelhos".

Faz sentido perceber que foram as mulheres que o amaram e ficaram aos pés da cruz de Cristo, enquanto que a maioria dos discípulos homens fugiram para salvar suas vidas. E foi a uma mulher para quem Jesus primeiro apareceu após ressuscitar da morte depois de sua crucificação. Isso é notável. A ressurreição de Cristo foi uma prova de tudo o que Jesus disse, quando se identificava como igual a Deus. Apesar das mulheres terem pouca influência na cultura daquela época, e nenhuma autoridade religiosa como alguém que falava sobre assuntos religiosos, Jesus deu a elas o papel de falar a outros sobre Sua ressurreição. Porquê? Talvez Jesus queria deixar bem claro que foi pelos pecados das mulheres e dos homens que ele morreu. Talvez Jesus queria que as mulheres e os homens soubessem que ele os oferece completo perdão e pode dá-los direção, paz e vida eterna.

Fonte: http://www.suaescolha.com

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Agora é para valer: cota de 30% de mulheres será exigida nas eleições de 2010

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou que partidos e coligações terão que obedecer a legislação que determina o preenchimento de uma cota mínima de 30% de mulheres entre os candidatos inscritos para a disputa nas eleições proporcionais. Em caso de descumprimento da lei, a legenda pode ser impugnada.

Segundo o tribunal, caso a legenda não tenha atingido o percentual, terá de inscrever novos candidatos do sexo feminino ou retirar o registro de candidaturas masculinas. A regra vale para as candidaturas de deputado federal, deputado estadual e deputado distrital, no caso de Brasília, e terá de ser cumprida já nestas eleições.


Repercussão: O que pensam especialistas e defensores dos direitos das mulheres

"A decisão do TSE de, finalmente, fazer com que os partidos políticos no Brasil cumpram a cota dos 30% para as mulheres candidatas nas eleições deste ano é histórica e fundamental: trata-se de uma decisão tardia e evidentemente JUSTA para uma legislação vigente no país há pelo menos 15 anos e que tem sido burlada, despistada, de forma a tornar o mecanismo afirmativo ineficaz para eleger mais mulheres aos parlamentos brasileiros. Mais mulheres candidatas (ou menos homens, se os partidos continuarem insistindo em não investir efetivamente nas mulheres candidatas) vão significar mais mulheres eleitas. Damos mais um passo significativo para qualificar o processo político-eleitoral no país e atribuir à nossa democracia brasileira um esboço ou um recomeço mais alvissareiro no que tange a dimensões urgentes de maior justiça de gênero."

Marlise Matos, professora adjunta do Departamento de Ciência Política da UFMG
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"A decisão do TSE de exigir o cumprimento da Lei 12.034, de 29 de setembro de 2009, deve ser duplamente comemorada, pois a Lei é para ser cumprida e o país não pode compactuar com esta cultura da 'Lei que não pega'. Houve uma grande mobilização política para mudar a palavra "reserva" pelo verbo "preencher" e a decisão do TSE foi importante para reafirmar o consenso alcançado no Congresso Nacional. Agora os partidos não têm mais desculpas para não investir na formação das mulheres. Para serem competitivos, os partidos precisam investir na formação e no apoio às candidaturas femininas. Só assim o Brasil vai abandonar o bloco da lanterninha do ranking internacional de participação feminina na política. A decisão do TSE vai contribuir para uma maior igualdade de gênero na disputa eleitoral."

José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do Mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas - ENCE/IBGE
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"A decisão do TSE é histórica, pois significa o reconhecimento da mais alta corte eleitoral do Brasil sobre a necessidade de o país superar este constrangedor déficit democrático, assegurando uma participação mais igualitária das mulheres brasileiras no processo político. Esperamos que o mesmo rigor seja aplicado no cumprimento dos outros pontos da minirreforma que beneficiam diretamente as mulheres brasileiras: aplicação de no mínimo 5% dos recursos do Fundo Partidário e de no mínimo 10% do tempo de propaganda partidária na criação e manutenção de programas de promoção e difusão da participação políticas das mulheres."

Sônia Malheiros Miguel, subsecretária da Subsecretaria de Articulação Institucional da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República
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"A decisão do TSE exigindo o cumprimento da lei das cotas para mulheres nas listas partidárias é uma vitória do movimento feminista, mas que transcende em muito a própria luta pelos direitos das mulheres. Esta vitória representa um avanço no processo democrático brasileiro e terá repercussões não só nas eleições de 2010, mas daqui para frente, na forma da participação política e da própria discussão sobre a reforma política no Brasil. Esta não é a vitória de um grupo, nem uma vitória menor no processo democrático brasileiro, é uma forte sinalização do amadurecimento político do pais."

Céli Pinto, feminista, cientista política e professora da UFRGS
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"Os partidos políticos brasileiros criam fortes barreiras à participação de mulheres nos quadros de candidaturas de mulheres. Esta é a causa mais forte para explicar a incompreensível disparidade entre a presença das mulheres na representação política em relação à realidade do país. Até hoje foi possível aos partidos driblarem a lei devido à imprecisão na sua formulação, que determinava a reserva mas não o preenchimento da cota. Modificada a lei, o TSE toma decisão histórica para melhorar um dos déficits de cidadania mais prejudiciais ao país. E a sociedade sabe disso. Não por outro motivo, 83% de brasileiros e brasileiras consideram que a presença de mulheres melhora a política e os espaços de tomada de decisão (Pesquisa Ibope/ Instituto Patrícia Galvão, 2009)."

Fátima Pacheco Jordão, socióloga e especialista em pesquisas de opinião, assessora de pesquisa da TV Cultura e diretora do Instituto Patrícia Galvão
 
Fonte: site http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Quem é voce?


Uma mulher estava agonizando.

De repente, teve a sensação

de que era chamada ao céu e se

apresentava diante do tribunal.



– Quem és? Perguntou uma voz.

– Sou a mulher do prefeito,

respondeu ela.

– Te pergunto quem és,

não com quem estás casada.

– Sou a mãe de quatro filhos.

– Te pergunto quem és,

não quantos filhos tens.

– Sou uma professora.

– Te pergunto quem és,

não qual a tua profissão.



E assim sucessivamente...



Respondesse o que respondesse...

não conseguia dar uma resposta

satisfatória à pergunta “Quem és”?



– Sou uma cristã.

– Te pergunto quem és não qual a

tua religião.

– Sou uma pessoa que todos os

dias ia à igreja e ajudava os

pobres e necessitados.

– Te pergunto quem és, não o que

fazias.



Evidentemente, não passou no

exame e foi enviada de novo à terra.



Quando se recuperou da doença,

tomou a decisão de descobrir quem

era realmente. E tudo foi diferente...



E você mulher o que diz de si mesma?
E você, homem, o que diz de si mesmo?
Quem é você para você?

(Fonte: Dicionário de Gênero: Mujer y Futuro, Bucaramanga. In: Nuevamerica nº 72, dez. 1996, p. 25).

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

As Elizas do Brasil e suas mortes anunciadas

Por Cecilia Sardenberg ( Profa. do Depto. de Antropologia e Pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher NEIM-UFBa. Coord. Nacional do OBSERVE, Observatório de Monitoramento da Aplicação da Lei Maria da Penha)



Neste mês de agosto, quando se comemora o quarto aniversário da promulgação da Lei 11.340/2006 -denominada Lei Maria da Penha em homenagem a Professora Maria da Penha, uma vítima da violência doméstica que denunciou o Brasil por negligência às cortes internacionais- vários casos de mulheres brutalmente assassinadas por seus companheiros ocupam as principais manchetes dos jornais do país e da nossa mídia televisiva, demonstrando a relevância e pertinência dessa nova legislação.


Dentre esses casos, tem chamado atenção especial o da jovem Eliza Samúdio. Além do suposto mandante do crime ser um jogador de futebol de certa projeção, a forma em que a jovem foi assassinada e o corpo "desovado" vem chocando a opinião pública. Seu corpo ainda não foi encontrado, mas depoimentos colhidos pela polícia indicam que Eliza foi esquartejada, seus restos mortais jogados a cachorros e os ossos posteriormente cimentados.

Sem dúvida, esse nível de brutalidade é de causar arrepios, principalmente quando se constata que atinge várias outras mulheres, sem que suas histórias ganhem espaço na mídia por não envolverem gente dita "famosa". O que já nos revela o quanto a violência contra as mulheres no Brasil ainda é banalizada. Além disso, no caso de Eliza, como vem acontecendo também com tantas outras vítimas, estamos diante de mais uma "morte anunciada"- isto é, de mais um caso de negligência por parte dos órgãos do Estado no enfrentamento à violência contra mulheres, mesmo quando as mulheres vitimadas buscam justiça. Senão vejamos:

De acordo com as investigações tornadas públicas, Eliza Samúdio viveu uma relação passageira com o goleiro Bruno do Esporte Clube Flamengo, mas que resultou em uma gravidez por ele rejeitada. Pior que isso, em outubro de 2009, quando estava grávida de cinco meses, Eliza foi seqüestrada por ele e seus comparsas e mantida em cárcere privado, sendo agredida física e verbalmente, ameaçada de morte e forçada a uma tentativa de aborto, conforme queixa registrada pela vítima na Delegacia Especial de Atendimento a Mulher- DEAM de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.

Nessa ocasião, a delegada de plantão, reconhecendo o risco que a jovem corria e a pertinência da Lei Maria da Penha ao caso, solicitou ao Judiciário a aplicação de uma medida protetiva contra o goleiro Bruno, que o proibiria de se aproximar de Eliza por menos de 300 metros. No entanto, a juíza responsável negou o pedido da DEAM, alegando a não existência de um relacionamento entre as partes envolvidas, e acusando a vítima de "tentar punir o agressor" (...) "sob pena de banalizar a finalidade da Lei Maria da Penha". Desconsiderando o fato de Eliza estar grávida de cinco meses do agressor e, desconhecendo que a Lei Maria da Penha foi criada para proteger as mulheres, essa juíza, equivocadamente, afirmou que a referida Lei "tem como meta a proteção da família, seja ela proveniente de união estável ou do casamento, bem como objetiva a proteção da mulher na relação afetiva; e, não, na relação puramente de caráter eventual e sexual".

Esse tipo de interpretação nos revela o quanto no pensar Judiciário -mesmo quando expresso por mulheres- permanece em pauta uma ideologia patriarcal, machista, que categoriza as mulheres como "santas" ou "putas", resguardando as primeiras na "família" e tratando as outras como casos de polícia que "banalizam" a Lei. Não é, pois, ao acaso que a cidadania feminina no Brasil ainda é uma cidadania pela metade, já que os direitos das mulheres continuam a ser subjugados aos da "família", o que contribui para a reprodução das relações patriarcais entre nós e, assim, para o crescimento da violência contra mulheres.

Foi o que aconteceu com Eliza Samúdio. A interpretação da Lei a partir de um viés patriarcal, por parte da juíza fluminense, implicou no envio do processo em questão para uma vara criminal, trazendo consequências ainda mais desastrosas. Ali, por descaso da polícia, que deveria ter levado as investigações adiante com a necessária urgência, só recentemente houve algum avanço nesse sentido. Na verdade, só depois do desaparecimento de Eliza se tornar público e ganhar as manchetes, a polícia deu o devido andamento às investigações.


Em janeiro deste ano, em Belo Horizonte, outra jovem, a cabeleireira Maria Islaine, também foi brutalmente assassinada pelo ex-marido, que disparou nove vezes contra ela, a despeito das várias queixas registradas na DEAM. Aliás, tem-se conta de que Maria Islaine fez oito registros de crime de ameaça, que resultaram em três prisões preventivas decretadas contra seu ex-marido, sem que nenhuma delas fosse cumprida. Por isso, apesar de medida protetiva ter sido expedida, ele continuou a procurá-la, ameaçando-a e agredindo-a em sua casa, uma situação registrada em ligações feitas por Maria Islaine para a polícia pedindo ajuda e socorro - mas tudo em vão. Num desses telefonemas, que foi gravado, a vítima reclama: "Tenho uma intimação que a juíza expediu por causa do meu marido, que me agrediu. Eu o levei na Lei Maria da Penha. Era para ele ser expulso de casa. O oficial veio; tirou-o de casa, só que ele está aqui e ainda está me ameaçando". Em outra gravação, que foi anexada ao inquérito policial, o ex-marido ameaça: "Não vou aceitar perder minha casa. Se perder, você vai estar debaixo da terra. Está decidido isso. Já não vou trabalhar mais. Vou tocar uma vida de vagabundo. Se eu perder minha casa, vou te matar". E cumpriu a ameaça, porque não foi preso como deveria ter sido.

Estudos e pesquisas sendo desenvolvidos pelo OBSERVE - Observatório da Aplicação da Lei Maria da Penha, em quase todas as capitais do país, dão conta de que, apesar dos pactos selados com o Governo Federal, são muitas as instâncias semelhantes de descaso e mesmo negligência por parte dos estados da União no enfrentamento à violência contra mulheres. São juizados e varas de violência doméstica e familiar ainda por ser criados ou em funcionamento precário; DEAMs fisicamente mal equipadas e valendo-se de pessoal sem o treinamento e a capacitação necessários; e autoridades que interpretam e aplicam a lei a seu bel prazer, sem o devido preparo e esclarecimentos cabíveis em prol da proteção de mulheres em situação de violência, como no caso de Eliza.

Embora este ano celebremos quatro anos de Lei Maria da Penha, nosso levantamento revelou que algumas capitais pesquisadas -João Pessoa, Aracaju e Teresina no Nordeste, e Palmas, Boa Vista e Porto Velho na Região Norte, por exemplo-, ainda não dispõem de nenhuma vara ou juizado especializado em violência doméstica e familiar contra mulheres, descumprindo assim o que rege a Lei. E em muitas das que já criaram esses juizados, não existem as equipes multidisciplinares para prestar o necessário apoio às mulheres, tampouco uma articulação eficaz com os demais órgãos que devem compor a rede de atendimento às mulheres em busca do acesso à justiça.

Esse descaso se verifica mesmo no tocante às delegacias especializadas - que constituem a mais antiga política pública de enfrentamento à violência contra as mulheres no país e que, figuram, ainda hoje, como principal referência para as mulheres em situação de violência. Embora a Lei Maria da Penha tenha trazido novas atribuições para essas delegacias -com destaque para a retomada do Inquérito Policial como procedimento e as medidas protetivas de urgência- ampliando sua competência e também as demandas que lhe são encaminhadas diariamente, não parece haver um empenho real por parte da maioria dos Estados -apesar dos "pactos"- em criar condições para que as DEAMs cumpram seu papel.

A precariedade das delegacias contribui para que as delegadas titulares criem suas próprias normas, deliberando, por exemplo, pelo não atendimento de casos de violência de gênero contra mulheres que não se incluam na Lei Maria da Penha. Ou então, para que ofereçam resistência a sua implementação, procurando mediar entre vítimas e agressores e fazer uso das malfadadas "cestas básicas" como pena, tal qual se fazia quando a Lei 9.099/95 - responsável pela criação dos JECRIMs, Juizados Especiais Criminais, que banalizavam a violência contra mulheres ao extremo - permanecia em vigor. Identificamos, também, uma prática preocupante: a exigência de duas testemunhas que atestem a veracidade dos fatos relatados pela mulher. Sem a presença das testemunhas, o Boletim de Ocorrência não é registrado. E se exige o agendamento para compare cimento das vítimas e das pessoas para testemunharem a seu favor, o que incorre na desistência de algumas mulheres, por falta de testemunha. Afinal, casais não costumam levar "testemunhas" para o interior dos seus quartos e para o leito conjugal onde ocorrem, em grande medida, os atos de violência doméstica.

Malgrado essa situação, consultas realizadas nas principais cidades do país com mulheres que registraram queixas nas delegacias têm revelado que, em sua maioria, essas queixantes vêem as DEAMs como porta de entrada na sua busca por justiça e proteção frente às ameaças e maus tratos sofridos. Contrário ao que se propaga em relação às vítimas, são poucas as que buscam as delegacias apenas como "mediadoras" de conflitos entre casais. Como Eliza, também essas queixantes buscam medidas protetivas na aplicação da Lei e uma ação imediata como a situação demanda - mas não têm sido atendidas. Algumas têm sido até aconselhadas nas delegacias a voltarem dali a seis meses, quando se sabe que a queixa perde sua validade jurídica quando registrada fora desse prazo. Outras, como Maria Islaine, conseguem as medidas protetivas e até mesmo a decretação da prisão dos agressores. Mas, lamentavelmente, por negligência das nossas autoridades, eles continuam à solta, colocando a vida das mulheres em sério risco. Como bem concluiu uma de nossas entrevistadas: "Por isso que muitas mulheres estão morrendo".


Por certo, as muitas Elizas do nosso Brasil e suas mortes anunciadas, dia após dia, nas DEAMs e juizados de todo o país, demandam de todos e todas nós muito mais do que arrepios. É mais do que necessário e urgente que exijamos dos nossos governantes e legisladores - e dos candidatos e candidatas a esses postos - o compromisso com a implementação e cumprimento da Lei Maria da Penha nos moldes e normas previstas, denunciando no "Ligue 180" e nas respectivas corregedorias todas as instâncias contrárias. Quando a negligência persistir, sigamos o exemplo da Professora Maria da Penha, apelando para as cortes internacionais. Ademais, é imprescindível que nos organizemos para que se processe uma verdadeira reforma no Sistema Judiciário e nos órgãos de segurança pública - que deve começar com os cursos de Direito - de sorte a livrá-los, de vez, das ideologias patriarcais que acalentam a violência contra nós, mulheres, em nome da "família".

Precisamos, sim, fazer valer nossa cidadania por inteiro o quanto antes: uma vida sem violência é um direito de todas nós, Elizas, Maria Islaines e Marias da Penha!

Fonte: site http://www.adital.com.br/

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O PATRIARCADO ESTÁ DESMORONANDO



Em tempos de Mércia Nakashima e Eliza Samudio, a psicóloga Regina Navarro, autora de A cama na varanda, concedeu uma entrevista à Maíra Kubík Mano, jornalista e editora de Le Monde Diplomatique Brasil, 06-08-2010, na qual comenta as origens da violência contra a mulher e do patriarcado, sistema em que o homem é o chefe dominante do grupo e da família.



Eis a entrevista.


O que existe de passional nos crimes de gênero?


Eu acho que o crime passional faz parte de uma mentalidade patriarcal. Embora existam mulheres que matam, a diferença é absurda em comparação aos homens. Para entendermos isso, é preciso entender a história do patriarcado, como ele se instalou e que mentalidade trouxe.


Hoje já sabemos que existiu uma sociedade de parceria por milênios, onde não havia a opressão do homem sobre a mulher. A arqueologia, que se desenvolveu muito de algumas décadas para cá, constatou que, até um determinado momento da história, possivelmente não houve guerra. Os arqueólogos não encontraram armamentos nem fortificações e supõem que a sociedade era pacífica. E assim teria permanecido até o homem perceber que participava da procriação. Vários estudos defendem isso. Antes as pessoas não faziam uma ligação entre o ato sexual e o nascimento de uma criança. O homem saía para a caça e a mulher ficava; quando ele voltava, ou ela estava grávida ou tinha um neném já em fase de amamentação. Nessa época, em que a luta pela sobrevivência era dificílima, as mulheres eram endeusadas, pois estavam ligadas à fertilidade. Tanto que só existiam deusas mulheres. Não existia um deus masculino.


As coisas começaram a mudar quando os homens domesticaram os animais e observaram o comportamento deles. A partir daí, o homem se deu conta de que participava da procriação e começou a haver uma mudança radical nas mentalidades. Isso foi justamente no período que surgiu a propriedade privada e o homem passou a ficar obcecado pela certeza de paternidade. Até então, se supõem que viviam todos em comunidade e que não havia casais, apenas a linhagem materna. Quando o homem ficou obcecado pela certeza de paternidade, a mulher foi aprisionada e se tornou uma mercadoria valiosa. Elas podiam ser trocadas, vendidas, compradas. E no cenário divino, começaram a surgir cônjuges para as deusas, como Osíris, até que elas foram destronadas.


O patriarcado demorou 2500 anos para se fixar completamente. Começou em 3100 a.C. e ficou totalmente instalado em 600 a.C. em Atenas. Nesse momento, a humanidade foi dividida em duas partes: homem para um lado, mulher para o outro; e definiu-se com muita clareza o que era masculino e o que era feminino.


O homem teria características como força, sucesso, poder, coragem, ousadia; e a mulher tinha que ser meiga, dócil, cordata, competente – enfim, inferior. Dividiu-se, assim, o indivíduo dentre de si mesmo porque durante milênios as pessoas tiveram que reprimir aspectos da sua individualidade que não correspondiam ao ideal criado. Na verdade, masculino e feminino não existem. Acho que esses são conceitos patriarcais para aprisionar ambos os sexos. Todos nós temos todos os aspectos: somos ativos e passivos, corajosos e medrosos, fortes e fracos. O que se sobressai vai depender das características de personalidade de cada um, do momento de vida.


Como se desenvolveu o sistema patriarcal a partir daí?


O sistema patriarcal se sustentou em dois pilares: o controle da fecundidade da mulher e a divisão sexual de tarefas. Nos últimos 5 mil anos, essa foi a divisão maciça. É fato que os valores de uma cultura entram nas pessoas como se fossem um idioma: elas repetem-nos, condicionadas. Tanto que hoje se chega à idade adulta sem saber o que deseja. “Ah, eu não me sinto bem em transar com um homem na primeira noite”, dizem algumas. Mas se estava morrendo de tesão, por que não transar? Porque nós aprendemos a não desejar. Isso é muito forte no sistema patriarcal. A mudança começou a surgir a partir da pílula, que foi o golpe fatal. Como o sistema patriarcal se sustentou em cima do controle da fecundidade da mulher, a pílula foi realmente uma libertação. Inclusive para o movimento gay, pois aproximou a sua prática daquela heterossexual: a do sexo por prazer. Afinal, até então tudo que não levasse à reprodução tinha sido muito reprimido pela Igreja Católica. O cristianismo nos últimos 2 mil anos criou um horror ao sexo, ao corpo.


E quais foram as consequências disso?


O sistema patriarcal estendeu o poder que tinha sobre a mulher a outras esferas, a outros homens. Trata-se de uma estratégia de dominação. O homem se sentia dono da mulher, ela era uma propriedade. Ele sempre se sentiu no direito de agredir a mulher e até de matar, mas ele tinha legalmente esse direito de puni-la severamente. Adultério então, nem se fala. Nos países islâmicos, até hoje a mulher é apedrejada e morta. Isso porque bota em risco a questão financeira do marido. O homem ficou obcecado pela exclusividade da mulher porque ele não queria dividir a herança com os outros. O homem ainda é criado para achar que é superior à mulher.


É por isso então que o homem tem esse histórico de agressão?


Eu acho que estamos vivendo em um momento de profunda transformação das mentalidades. O homem de hoje – claro, a depender da classe social e da instrução – é muito diferente daquele de 40 ou 50 anos atrás. Quando, por exemplo, ele sabe que a mulher transou com alguém, existe uma tendência a perceber e até aceitar as motivações dela. Isso porque o patriarcado está desmoronando. Agora, o homem ainda fica passional e quer matar a mulher porque na cultura patriarcal o menino tem que romper muito cedo com a mãe.


Um exemplo que deixa isso claro é quando uma menina de 7 anos cai no playground e vai chorando para o colo da mãe, ficar agarradinha. Todo mundo em volta acha ela meiga e sensível. Já o menino da mesma idade, se ralar o joelho e chorar será chamado de ‘maricas’, filhinho da mamãe. A sociedade impõe ao menino um rompimento precoce com a mãe, quando ainda necessita de seus cuidados. Para ser aceito no grupo, ele tem que fingir que não precisa da mãe. O menino tem que provar que é macho o tempo todo. Então, por defesa, ele vai desenvolvendo um comportamento de negação da necessidade dos cuidados maternos. E também como defesa ele desvaloriza a mulher em geral. Aí esse menino cresce, se torna um adulto e aparentemente foge do casamento, das relações afetivas. Cria-se o mito de que ele não quer casar, como se só as mulheres quisessem. Mas quando o homem entra numa relação estável, é impressionante como ele baixa a guarda e se torna um bebê perto da mulher.


Eu sempre relato um caso marcante de uma mulher que conheci numa festa. Ela me contou que o marido, um senhor de 60 anos, até hoje pedia para ela dar comida na boca dele. E quando ele não queria mais, não avisava. Fazia só um “buuuu” com a boca e comida voava para todos os lados. Ele regredia à fase anterior à fala. Este é um exemplo extremo, mas não é o único de homem submisso à mulher. Às vezes ele é um executivo que comanda milhares de pessoas, mas a mulher administra a vida dele: escolhe sua roupa, marca o dentista etc.


Mas se o homem, dentro da relação, está dócil e apegado, como ele se torna tão agressivo?


Não é dócil. O que o homem tem é uma grande dependência emocional da mulher. Quando a mulher vai embora ou ele descobre que ela transou com alguém, aperta uma tecla dentro dele de desamparo, que é assustadora. Todos nós somos desamparados: saímos do útero e somos tomados por um sentimento de falta, que é a condição humana. E a nossa cultura, no lugar de contribuir para que as pessoas desenvolvam sua capacidade de ficar bem sozinhas, faz o contrário. Com o amor romântico, a cultura acena com a possibilidade de encontrarmos alguém com que vamos nos sentir tão protegidos como quando estávamos no útero. É a possibilidade da fusão com o ser amado, que faz com que as pessoas busquem alguém que as complete. Estamos condicionados a achar que a única forma de amor é essa: a da dependência, de idealização do outro, de se completar no outro.


Ou seja, o homem já tem toda uma mentalidade patriarcal de que é superior e de que tem que corresponder a esse ideal masculino de força. Isto, somado ao fato de para ele, o abandono é uma agressão, só restaria partir para a violência. Isso está começando a mudar. Durante muito tempo achou-se que a cultura patriarcal só oprimia as mulheres. Quando o feminismo surgiu, os homens fizeram pouco caso. Mas agora eles percebem isso de outra forma. Eles estão em crise porque vêem que corresponder ao ideal masculino é desesperador.


O que você acha que pode ser feito para contribuir com essa transformação?


Eu acho que tem que haver uma contribuição de todos para a mudança das mentalidades. Essa questão das mulheres ganharem menos que os homens ocupando a mesma função é um absurdo. É o resquício da mentalidade patriarcal atuando de uma forma injusta. Teria que haver uma conscientização. Quando eu falo em patriarcado a maioria das pessoas não sabem do que eu estou falando. Os meios de comunicação também podem contribuir para isso.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Palavra da Pastoral da Mulher sobre o texto referente ao PL Nº Lei nº 478/07, publicado neste blog


A respeito da repercussão sobre o texto que aborda o Projeto de Lei que dispõe sobre a proteção do nascituro e retira o direito da mulher, hoje garantido por lei, de abortar em caso de estupro
(publicado dia 18.05.2010, no site do governo http://www.observatoriodegenero.gov.br/menu/noticias/direito-ao-aborto-em-caso-de-estupro-esta-ameacado), nos manifestamos da seguinte forma:

 

O texto foi publicado a título de informação, já que acompanhamos e debatemos questões de gênero e demais assuntos relativos aos direitos, dignidade e bem-estar da mulher. Mesmo sabendo que se trata de um assunto complexo, em nenhum momento nos posicionamos a favor do aborto. Isso é fato.



As pessoas que teceram comentários ofensivos e abusivos em relação ao trabalho da Pastoral da Mulher, poderiam ter usado do diálogo e terem apresentado críticas construtivas, que viessem contribuir. Nosso trabalho é sério, idôneo e está totalmente de acordo com a Pedagogia de Jesus. Nossas portas estão abertas para o diálogo e para quem desejar conhecer a entidade e a realidade que enfrentamos.


Estamos na batalha pela justiça social, em busca de um mundo mais humano, sem violência contra a mulher, sem exploração. Vamos unir forças, nos manifestar e denunciar as estruturas injustas e tudo que atenta contra a vida.

 

Paz e bem!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Por que os homens matam as mulheres




Muitos dos chamados crimes passionais são o sintoma do declínio do império patriarcal. A violência não é só de loucos, monstros, doentes. E pouco importa o contexto social: não se aceita a autonomia feminina.

 


A opinião é de Michela Marzano, filosofa italiana, doutora em filosofia pela Scuola Normale Superiore di Pisa e atual professora da Universidade de Paris V (René Descartes). O artigo foi publicado no portal do jornal La Repubblica, 14-07-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 




Eis o texto.

 


Eles continuam sendo chamados de crimes passionais. Porque o motivo seria o amor. Aquele que não tolera incertezas e falhas. Aquele que é exclusivo e único. Aquele que leva o assassino a matar a mulher ou a companheira justamente porque a ama. Como diz Don José na obra de Bizet antes de matar a amante: "Fui eu que matei a minha amada Carmen".

 


Mas o que resta do amor quando a vítima nada mais é do que um objeto de posse e de ciúmes? Que papel ocupa a mulher dentro de uma relação doente e obsessiva que a priva de toda a autonomia e liberdade?


 

Durante séculos, o "despotismo doméstico", como chamava o filósofo inglês John Stuart Mill no século XIX, foi justificado em nome da superioridade masculina. Dotadas de uma natureza irracional, "uterina", e úteis somente – ou principalmente – para a procriação e para a gestão da vida domésticas, as mulheres tinham que aceitar aquilo que os homens decidiam para elas (e para o seu bem) e submeter-se à vontade do "pater familias".
 
 




Desprovidas de autonomia moral, eram obrigadas a encarnar toda uma série de "virtudes femininas", como a obediência, o silêncio, a fidelidade. Castas e puras, tinham que se preservar para o legítimo esposo. Até à renúncia definitiva. Ao desinteresse, substancialmente, pelo próprio destino. A menos que aceitassem a exclusão da sociedade. Serem consideradas mulheres de má vida. E, em casos extremos, sofrer a morte como punição.

 





As lutas feministas do século passado deveriam ter feito com que as mulheres saíssem desse terrível impasse e deveriam ter esmigalhado definitivamente a divisão entre "mulheres de bem" e "mulheres de má vida". Em nome da paridade homem/mulher, as mulheres lutaram duramente para reivindicar a possibilidade de ser, ao mesmo tempo, mulheres, mães e amantes. Como dizia um slogan de 1968: "Não mais putas, não mais santas, mas apenas mulheres!".








Mas as relações entre os homens e as mulheres mudaram verdadeiramente? Por que os crimes passionais continuam sendo considerados "crimes à parte"? Como é possível que as violências contra as mulheres aumentem e sejam quase transversais a todos os âmbitos sociais?






Quanto mais a mulher busca se afirmar como igual em dignidade, valor e direitos ao homem, mais o homem reage de modo violento. Só o medo de perder algumas migalhas de poder o torna vulgar, agressivo, violento. Graças a algumas pesquisas sociológicas, hoje sabemos que a violência contra as mulheres não é mais só o único modo em que um louco, um monstro, um doente pode se expressar. Um homem que provém necessariamente de um círculo social pobre e inculto.



O homem violento pode ser de boa família e ter um bom nível de instrução. Pouco importa o trabalho que ele faça ou a posição social que ocupe. Trata-se de homens que não aceitam a autonomia feminina e que, muitas vezes por fraqueza, querem controlar a mulher e submetê-la à sua própria vontade. Às vezes são inseguros e têm pouca confiança em si mesmos, mas, ao invés de procurar entender o que exatamente não vai bem em sua própria vida, acusam as mulheres e as consideram responsáveis pelos seus próprios fracassos. Progressivamente, transformam a vida da mulher em um pesadelo. E quando a mulher busca refazer a vida com um outro, procuram-na, ameaçam-na, batem nela, às vezes matam-na.







Paradoxalmente, muitos desses crimes passionais nada mais são do que o sintoma do "declínio do império patriarcal". Como se a violência fosse o único modo para evitar a ameaça da perda. Para continuar mantendo um controle sobre a mulher. Para reduzi-la a mero objeto de posse. Mas quando a pessoa que se ama nada mais é do que um objeto, não só o mundo relacional se torna um inferno, mas o amor também se dissolve e desaparece.

 



Certamente, quando se ama, se depende em parte da outra pessoa. Mas a dependência não exclui jamais a autonomia. Pelo contrário, às vezes é justamente quando somos conscientes do valor que uma outra pessoa tem para nós que podemos entender melhor quem somos e o que queremos.



Como escreve Hannah Arendt em uma carta ao marido, o amor permite que nos demos conta de que, sozinhos, somos profundamente incompletos, e que só quando estamos ao lado de uma outra pessoa é que temos a força para explorar zonas desconhecidas do nosso próprio ser.

 


Mas, para amar, é preciso também estar pronto para renunciar a qualquer coisa. O outro não está à nossa completa disposição. O outro faz resistência diante da nossa tentativa de tratá-lo como uma simples "coisa". É tudo isso que os homens que matam por amor esquecem, não sabem ou não querem saber. E que pensam que estão protegendo a própria virilidade negando ao outro a possibilidade de existir.




terça-feira, 6 de julho de 2010

Casa sobre rocha, casa sobre areia




“Portanto, quem ouve essas minhas palavras e as põe em prática, é como o homem prudente que construiu sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enxurradas, os ventos sopraram com força contra a casa, mas ela não caiu, porque fora construída sobre a rocha. Por outro lado, quem ouve essas minhas palavras e não as põe em prática, é como o homem sem juízo, que construiu sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as enxurradas, os ventos sopraram com força contra a casa, e ela caiu, e a sua ruína foi completa!” - (Mateus, 7,24)



Comentário



Construir a nossa casa sobre a rocha, significa construirmos nossa segurança, o bem-estar íntimo, sobre algo sólido como a rocha, ou seja, sobre os valores do Espírito, este permanente, não sujeito às transformações, as mudanças da matéria. Em outras palavras, construir nossa felicidade sobre algo duradouro, firme como a rocha. Por outro lado, construir sobre a areia seria fazê-lo sobre algo movediço (como a areia), não durável, que sofre constantes modificações. Mas o detalhe importante é praticar, e não só “ouvir”. A alma e quintessência de toda sabedoria e felicidade da vida consiste em praticar, realizar as grandes verdades, e não somente em ouvi-las. Quem apenas ouve, mas não realiza, não pratica o que ouviu, é um “homem insensato”; quem ouve e realiza é um “homem sábio”. A diferença fundamental entre a insensatez e sabedoria está em ouvir sem realizar, e por outro lado, em realizar o que se ouviu.



Conta-se que Gandhi certa vez foi procurado por uma senhora, com um filho que tinha o péssimo hábito de comer açúcar. Aquela mãe tomou conhecimento do saber de Gandhi e de sua capacidade para ensinar, fazer com que as pessoas se transformassem para melhor, por isso o procurou, solicitando ajuda para o filho. Após ouvi-los, Gandhi recomendou que voltassem depois de 15 dias. Decorrido o tempo marcado, voltou a mãe com o filho. Foram bem recebidos, receberam toda a orientação sobre como dominar aquele mau hábito, e, ao se despedir, a mãe pediu permissão para fazer uma pergunta: Por que o senhor não nos atendeu da primeira vez que o procuramos? E Gandhi respondeu, com naturalidade: É que eu também possuía o hábito de comer açúcar. Preferi primeiro aplicar a orientação em mim próprio, para, só depois, transmiti-la a outrem...



É bom pensar nisso, pois na vida somos atacados constantemente por “enchentes” e isso é inevitável. Se pularmos a etapa de criarmos fundamentos estaremos nos arriscamos a perder tudo. Não se deve construir sobre areia. Não tenha pressa de ter tudo na vida no menor tempo possível, “vem fácil, vai fácil”, diz a sabedora popular.



Pense no que sua vida está fundamentada, quais são os valores que você cultiva. Você realmente norteia sua vida por um ideal ou simplesmente vai decidindo as coisas como uma barata tonta que foge pela cozinha, agindo impulsivamente a cada situação? Será que se fosse atacado pela enchente, sua vida resistiria como a casa fundamentada na rocha ou desabaria como uma casa construída sobre a areia?



sexta-feira, 28 de maio de 2010