terça-feira, 12 de abril de 2016

Cenário e personagem, a Guaicurus

Na Guaicurus de ontem e de hoje, luta pelos direitos das prostitutas continua
Em 1963: Rua destinada a atacadistas por estar próxima à estação de trem e ao mercado, projetados na construção de BH, tinha ares de região portuária, o que contribuiu para a fama de zona boêmia.

Em 2016: Glamour dos tempos em que era frequentada pelos barões do café deu espaço a prédios degradados que abrigam hotéis de prostituição e lojas destinadas ao comércio popular.

Esquina de gerações

É a boemia a guia mestra para entender o passado e o presente da Rua dos Guaicurus, no Hipercentro de Belo Horizonte. Ela está na origem, marca a história e alimenta o imaginário de quem a frequenta e até daqueles que nunca pisaram nos quatro quarteirões entre as ruas da Bahia e Curitiba. Os prédios de quatro andares em estilo art déco e eclético, ocupados por hotéis de prostituição, barbearias, lanchonetes e comércio popular, remetem ao início da ocupação da capital. E persistem nos tempos de hoje com visitação superlativa. Todo mês, mais de 1 milhão de homens frequentam os quartos, cinemas e cabines eróticas da Guaicurus. A estimativa é da Associação dos Amigos da Rua Guaicurus (AARG), que reúne donos de hotéis da região.
Muito antes de Hilda Maia Valentim, prostituta que inspirou o escritor Roberto Drummond a escrever o romance Hilda Furacão, pisar na Rua Guaicurus nos anos 1960, a região já era conhecida como o meretrício da nova capital. No projeto original de Aarão Reis, o comércio da cidade ficava concentrado ali, entre o mercado (hoje rodoviária) e a estação de trem (Praça da Estação). Galpões e lojas dos grandes atacadistas e varejistas da cidade eram encontrados nas imediações da Guaicurus, assim como uma embrionária área industrial. Em bairros próximos, como Lagoinha, morava a população de trabalhadores. “Tudo isso conferiu uma característica boêmia de porto, com muita gente que não era da cidade, e acabou formando o meretrício”, explica a historiadora Michele Arroyo, presidente do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha).
O glamour dos tempos em que homens da sociedade e coronéis frequentavam o lugar já não existe mais. Mas passam anos, passam décadas e o sobe e desce característico dos hotéis da Guaicurus – alguns deles tombados pelo patrimônio municipal – não diminui. Gerações de prostitutas se renovam e resistem à concorrência da internet. “É um ponto turístico sexual. Desde novo, o pai ensina que tem que pegar as mulheres na zona. É a cultura do machismo”, afirma a presidente da Associação das Prostitutas de Minas Gerais (Aprosmig), Cida Vieira.
PERFIL De acordo com ela, são 3,6 mil mulheres, transexuais e travestis em atividade nos 25 hotéis da Rua Guaicurus e arredores. Há prostitutas de todo tipo: de 18 a 70 anos. Nuas, de lingerie ou fantasias elas ficam em frente aos quartos para atender os clientes. A maioria é de trabalhadores com renda de até dois salários mínimos. Além da prevenção contra doenças sexualmente transmissíveis – a Aprosmig fornece cerca de 140 camisinhas por semana para cada uma das associadas –, uma das batalhas da entidade é pelos direitos trabalhistas e pela regulamentação da profissão.
“A mulher que está ali não tem benefício nenhum”, afirma Cida, reforçando não faltarem casos de prostitutas que terminam a vida como moradoras de rua. A Aprosmig também tenta conferir um outro ar à Guaicurus, apoiando eventos que retirem o estigma de área violenta. “Estamos fazendo várias atividades na rua, a virada cultural, a virada carnavalesca. Queremos levar mais botecos e festivais para a região para fazer com que as pessoas percam o medo de passar na Guaicurus”, diz.
Fundador da AARG, Ailton Alves de Matos, de 61 anos, herdou o hotel Novo América da tia, que começou a administrá-lo em 1954. “Antigamente, o cliente era recepcionado nos salões e dali ia para os quartos, havia mais romantismo e fetiche. Na década de 1970, passou a ser um atendimento mais rápido”, conta Matos, que diz ter conhecido a lendária Hilda. “Era boa de serviço”, lembra.
Hoje, o mercado do sexo na Guaicurus segue no ritmo da vida contemporânea. “Ficou um negócio ‘fast-sex’. Se o cliente estiver no Centro com 20 a 30 minutos disponíveis, ele oferece R$ 20 à garota, faz o ato sexual em 10 a 15 minutos e está liberado para seguir a vida sem compromisso”, afirma. Ele reconhece que, por causa da concorrência de motéis, internet e celular, hoje há mais mulheres atendendo fora do que na zona. “O que mantém a Guaicurus é a tradição”, afirma Ailton, que defende a preservação da área como patrimônio imaterial de BH. Mas nem a tradição está imune à crise. “O movimento caiu 50%”, ressalta o presidente da AARG, Edson Cruz.
MUDANÇA Projetos para a região sempre existiram, principalmente aqueles que se propunham a “higienizar” a área e tirar a prostituição dos arredores. Em Hilda Furacão, Roberto Drummond cita um deles, a Cidade das Camélias, cujo objetivo era levar a zona para longe do Centro. “Movimentos de mulheres e mães de família não queriam. A Cidade das Camélias foi a solução dada pelas religiosas”, conta Michele.
Atualmente, está em gestação na prefeitura projeto que prevê a Operação Urbana Consorciada Antônio Carlos-Pedro I/Leste-Oeste, com ações de requalificação em diversas vias incluídas nesse perímetro. De acordo com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, embora a Rua Guaicurus não seja prioridade, conta com algumas ações previstas. Há, por exemplo, a intenção de se criarem galerias comerciais, a melhoria das condições de travessias pelos pedestres. Também está prevista a destinação de recursos para recuperação de imóveis de interesse cultural. O projeto ainda será encaminhado para votação na Câmara Municipal. (Flávia Ayer)


Fonte: Estado de Minas

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