segunda-feira, 11 de abril de 2016

A história das mulheres da Rua Guaicurus

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Uma delas é uma fantasia... ou talvez todas sejam
Hildas de hoje. A realidade e as fantasias das prostitutas da Guaicurus, 25 anos depois do livro de Roberto Drummond.

Belo Horizonte soube primeiro, o Brasil demorou para descobrir. Nunca houve uma mulher como Hilda. Há 25 anos, o jornalista e escritor Roberto Drummond (1933-2002) mergulhou em universo de desejo e saiu de lá com uma personagem envolta em nuvem de mistério e sensualidade. Em abril de 1991, Drummond concluiu seu mais famoso romance. Pelas palavras do escritor e depois pelas imagens da TV,o país se encantou por Hilda Furacão. Na ficção e na realidade.

A personagem, inspirada em Hilda Maia Valentim, foi desejada por pobres, ricos, santosepecadores. Conhecida na classe média alta belo-horizontina, ela desnorteou a tradicional família mineira ao se tornar a prostituta mais famosa da Rua Guaicurus, nos anos 1960. Chegou na zona boêmia em 1º de abril de 1959 para se hospedar no quarto 304 do Maravilhoso Hotel e por lá ficou até 1º de abril de 1964. Por duas vezes, no dia da mentira. Coincidência ou destino
Embora pareça obra da ficção, a verdade é que Hilda nunca se foi.

Já não há mais glamour, muito longe disso. Mas a Guaicurus resiste ao tempo e mostra que a narrativa ficcional se mantém viva na atualidade. Atravessa, por gerações, a vida de mulheres de carne e osso. Hilda está na personalidade forte de Susi, que largou a vida com os pais na Pampulha para morar no Novo Hotel, o antigo Maravilhoso. A voz de Hilda ressoa na fala de Thamires, que não determina a linha que divide o real do fantasioso.

No sobe-e-desce da lendária Rua Guaicurus, os relatos de Hilda, Tatiana, Thamires, Sarug e Laura

A fama da personagem se mantém em Sarug, prostituta, transexual e psicóloga que se tornou figura reconhecida e uma referência nos novos tempos de Guaicurus. Aliás, Sarug mostra que, na atualidade, ser Hilda não é necessariamente ser mulher. Assim como na ficção, cinco anos foi também o tempo que a socióloga Tati estabeleceu para ganhar dinheiro no mercado do sexo.


O perfume marcante da personagem de Drummond se espalha no quarto de Daiane, que acolhe os clientes com doçura, apesar de estar grávida de cinco meses. Invade as histórias contadas por Laurinha, há mais de três décadas trabalhando na Guaicurus, e continua alimentando o sobe e desce nas escadarias dos hotéis da zona boêmia. Nos relatos de outras, Hilda revive. O mistério permanece.
Vinte e cinco anos depois do lançamento do livro Hilda Furacão, o Estado de Minas seguiu os passos de Roberto Drummond e retornou à Rua Guaicurus atrás das mulheres que, décadas depois da garota do maiô dourado, continuam a satisfazer os desejos dos homens. Por dois meses, a reportagem frequentou os hotéis da zona boêmia. Lá, como no romance, a imaginação e a realidade se confundem.


Luta legal

A prostituição não é ilegal no Brasil. Porém, há mais de 10 anos essas mulheres estão na luta para tentar regulamentar a profissão. Atualmente, está na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 4.211/2012, denominado “Lei Gabriela Leite” e proposto pelo deputado Jean Willys (Psol/RJ), que pretende não só desmarginalizar a profissão, como também permitir aos profissionais do sexo o acesso à rede de saúde pública, aos benefícios trabalhistas, à segurança pública e à dignidade humana. Com isso, acredita-se que a regularização seria um instrumento no combate à exploração sexual, ao possibilitar a fiscalização e o controle do Estado sobre o serviço.

Fonte:  Estado de Minas

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