segunda-feira, 11 de abril de 2016

‘‘A gente é um conto de fadas para eles’’

Experiência de ser rainha do próprio corpo dentro de um templo de fantasias
São 15h de quinta-feira. O comércio no Baixo Centro está movimentado. Passageiros aguardam seus ônibus nos pontos e ambulantes oferecem pendrives e correntinhas aos pedestres. O sobe e desce incessante na escadaria do Hotel São Paulo, quase esquina com Guaicurus, aponta que, enquanto a vida corre, o mercado do sexo não pode parar. Há jovens, idosos, maltrapilhos e bem vestidos. No último quarto à direita do corredor amarelo e azul, a toalha pendurada na porta indica: “Thamires Loira R$ 20,00.”

  
“Nua, sentada na cama, os seios empinados, um meio sorriso prometendo não apenas loucuras, mas muito mais: prometia a felicidade.” Thamires se apresenta exatamente como o escritor Roberto Drummond descreveu Hilda Furacão na foto que mais fazia sucesso entre os clientes da lendária prostituta dos anos 1960. “Como querem me entrevistar?”, pergunta. Enrolada numa toalha branca e sem descer do salto de 18 centímetros, ela está pronta para falar. Ao fundo, as caixas de som do hotel ecoam Evidências, sucesso de Chitãozinho & Xororó. “Quanto eu digo que deixei de te amar/É porque eu te amo.” Foi a separação do marido que a levou para a prostituição. Começou a atender clientes por telefone, depois trabalhou no ABC Paulista até ir para a Espanha, onde ficou por sete anos. “Nunca ganhei tanto dinheiro”, diz. Entre idas e vindas, são mais de duas décadascomoprofissional do sexo. Há seis anos, começou a trabalhar na Guaicurus e, desde 2012, mora no Hotel São Paulo.


Com voz suave característica das damas, Thamires acolhe clientes dia e noite a R$30 o programade até 15 minutos – o preço escrito na toalha pendurada na porta está desatualizado. Atualmente, fatura R$ 600 por dia – sem descontar a diária de R$ 130 do quarto. O trabalho pesado está distante do glamour com que Hilda Furacão recebia coronéis e homens da sociedade no Maravilhoso Hotel. Mas, aos 46 anos, Thamires se impõe no quarto como uma rainha. Não abre mão de alguns luxos, como um sabonete de qualidade, a roupa de cama trocada a cada três clientes, odorizador para perfumar o ambiente(artigo que considera estratégico em programas com homens malcheirosos) e cremes hidratantes.

No quarto de luz azulada, com cama de alvenaria e banheiro cujas paredes não chegam ao teto, divide sentimentos antagônicos. Ora sente-se um “objeto”, ora alguém “muito importante”. “Às vezes, me sinto uma máquina. Mas aqui tem muita carência e você faz bem às pessoas. Ninguém é obrigado a vir”, diz. A música continua. “Mas para que viver fingindo/Se eu não posso enganar meu coração.” O coração dela está fechado. Namorou o gerente do hotel, largou a prostituição para trabalhar como faxineira, mas o romance não foi pra frente. Depois disso, nunca mais se apaixonou. “A vida na prostituição te faz deixar de confiar no ser humano”, comenta.
Ela tem pressa na entrevista, um cliente antigo mandou mensagem avisando que está vindo. “Aqui chega de tudo e sempre trato bem. Tem aquele homem, por exemplo, que acabou de sair da cadeia. A gente é um conto de fadas para eles”, afirma. Aos poucos, vai revelando que, tal qual Hilda Furacão, é também protagonista de uma fantasia. “A Thamires nasceu de uma personagem. É como Alice no País das Maravilhas”, diz.



Fora da Guaicurus, Thamires tem outro nome, que não revela por nada. Da sua vida real a loira conta pouco. Os três filhos–um menino de 27, outro de 25 e uma menina de 22 – sabem da atividade da mãe. A filha sente orgulho. Um ou dois dias na semana, Thamires dorme no apartamento que comprou em Venda Nova, em BH. Conversa pouco com os vizinhos e prefere descansar em meio aos mais de 300 vidros de perfume e 400 pares de sapato. “Esse dinheiro da prostituição vai embora fácil”.
TRABALHO E FÉ Na Guaicurus, mantém uma rotina disciplinada. Começa a trabalhar de manhã, depois de ler a Bíblia. Nos programas, deixa a silhueta corpulenta e tatuada à mostra e só não se despe da imagem de São Jorge Guerreiro e Nossa Senhora pendurados na correntinha. “Aqui eu chamo o homem de lindo, meu amor, mesmo que não seja nada disso”, afirma, reforçando a nuvem de fantasia que paira sobre a Guaicurus.


Os casados são frequentes em seus lençóis. “E o que épreciso fazer para que os maridos não venham?”, pergunta a repórter. “Me liga que eu te dou umas dicas”, disse Thamires. Dias depois, no WhatsApp, ela informou que estava ocupada trabalhando. O telefone tocou várias vezes até cair na caixa postal, que tinha como música de fundo abalada romântica do sertanejo Zé Felipe. “Você mente quando diz que está em outra e não quer mais voltar/Você mente que não sente mais saudade deixou de me amar”. (Flávia Ayer)

Putafobia
“Desde que deixei o mundo de lá e vim para a guaicurus, perdi amigas e amigos, perdi todos.”

Hilda Furacão, de Roberto Drummond
Criada em 2013, a Associação das Prostitutas de Minas Gerais (Aprosmig) trabalha para combater o que chamam de “putafobia”, o preconceito contra a profissional do sexo. “O trabalho da prostituta é como outro qualquer, é algo que mantém a pessoa dignamente. A vida social vai além do trabalho, passa pela família, pelos estudos. Queremos respeito. Lugar de mulher é no trabalho onde ela quiser”, reforça a presidente da Aprosmig, Cida Vieira.

Fonte: Estado de Minas

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